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três velhos safados

Sentia um vento peculiar na barba rala. Uma brisa com sabor e aroma. As luzes driblavam feiuras que por ventura pudessem estragar minha adorável visão da vida naquela noite.  Era explêndido pensar na simplicidade como uma hipótese a ser posta em prática. Era simples e fácil demais para ser verdade. Simples sim, e de um benefício que em raras  vezes foi perceptível em meu humor mal acabado de sempre
As horas vinham, bem vindas e cheias de pormenores que me agraciavam. Arrastava meus tênis por aí, cantava para me distrair do frio e tinha certeza que dessa vez minhas mãos estavam cerradas para insegurança; amassava-a e inutilizava-a, sem oportunidade para recaídas naquele momento. Estava certo de que todas as margens de dúvida são tolas. Coisa para quem não tem a quem  recorrer numa noite sem atrativos como era essa.
A estação -  cinza e pálida -   provocava  lapsos no tempo. Perdi as horas e sentei no banco. Esperei o próximo, das 10 horas. Não havia nada de romântico para me apegar àquela situação. Me apeguei, por certo me apeguei.  Meus versos seriam tortos se fizesse uma canção olhando para aqueles trilhos. Não sei assobiar. Tilinto barulhos imperceptíveis com a boca, me distraio assim. O trem não chega e não há ansiedade – estranho, não estou com muita pressa. Lembro de quem me lembra, segundo sob segundo, sintonizado na mesma estação. E é bom isso! Saiba que é muito valoroso e, acima de tudo, muito bom.
O trem se aproxima da plataforma. gente estranha e suja se embica perto das portas. E eu lá, parado, espero uma definição do resto do mundo para me adentrar à sardinha. Acrescento que ao meu lado, e sentados no mesmo banco, havia um casal muito amoroso de velhinhos. Uma safadeza que essa noite me ensinou ser totalmente perdoável. Fico mais uma vez ao lado deles no vagão. Eu em pé, eles, sentados ao lado de uma adolescente cheia de tra-la-lás. Lia Bukowski. Segurava com uma mão o livro, apoiava a outra sob sua bolsa e dividia (era possível ver o seu incomodo) atenção de um dos olhos para o casal de velhos. Eu mirava a garota. Analisava suas ações e conclusões. Eu estava vigiando demais aquela cena e fiquei com medo de ser notado.  O destino, ainda distante, me dava mais tempo para vagar entre um lance e outro. Sorria, ninguém reagiu. Não sei, creio que  isso foi  apenas uma sensação minha.
O casal se beijava, se olhava com tenro afeto. A menina, meio acuada lia Bukowski  e mexia os lábios a cada linha. O livro de capa amarela ficava entre uma das hastes do vagão e o casal lotado de anti-pudores. Os beliscões(ah, os beliscões!)  tamanhos, incomodavam a garota entretida em um dos contos do velho safado. Que ironia, veja só. O que são dois velhos safados em relação a apenas um? Muito pouco, oras. Não havia livrinho amarelo, contista safado ou escritor mal humorado que privasse de uma olhada para aquele casal tão saudável. Era a vida. Três velhos safados numa cena só. E o tempo, nem sei quanto, parou por algumas horas. E a terra, tão grande, foi com menos sede ao pote.  Demorou mais do que devia. O trem parou, eu desci, a noite virou dia e nunca mais vi três velhos, assim, tão safados numa noite só.

Michell Niero
Enviado por Michell Niero em 18/07/2006
Código do texto: T196942
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Sobre o autor
Michell Niero
Osasco - São Paulo - Brasil, 31 anos
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Michell Niero