Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

OUTRA MULHER

1.

O mito do amor a levou ao casamento; o encontro com o verdadeiro amor a fez permanecer nele. Jasmine era uma morena jambo, alta, cujo sorriso espontâneo preenchia seu rosto de uma leveza angelical. De família tradicional, ela havia aprendido desde menina a como ser mulher. E o modelo de mulher que lhe fora ensinado era um tipo submisso, resignado, que se anulava para fazer valer a figura proeminente do marido.

Com dezoito anos, mas ainda acometida de uma total inexperiência de vida, Jasmine era uma mulher de belo porte, jeito sensual e muito atraente à vista. Seus lábios pareciam destilar mel e seu olhar, qual chama de fogo, iluminava o dia e atraia o calor. Pois foi essa beleza descomunal que chamou a atenção de Ronen, promissor estagiário de Direito que, apaixonando-se pela moça, propôs-lhe casamento, que de pronto foi aceito.

A mãe de Jasmine também se casara cedo. Vivera para a família, cuidando da casa e da criação de seis filhos, renunciando, com isso, aos seus sonhos individuais. Ela viu os anos passarem, os filhos casarem, os cabelos ficarem grisalhos e as energias minguarem. Agora, a caçula, estava preparando-se para o enlace matrimonial. E ela suspirava enternecida diante do caminhar da vida.

Jasmine conhecera Ronen exatamente numa festa de casamento, ocasião em que se está elegantemente trajado e a vestimenta clássica de luxo ressalta a beleza das pessoas. Ambos estavam impecáveis. Ela tinha dezessete e ele vinte anos. Foi amor à primeira vista.

- Quem é aquele rapaz que está perto do piano?

- Se esqueceu dele? Aquele é o filho do professor Medeiros, que a gente viu na festa de quinze anos da Carol...

- Pôxa, mas tem tanto tempo! Ele está bem diferente, mudou bastante. Estou achando-o mais bonito e interessante...

Aline deu um sorriso meio maroto para Jasmine, dando a entender que tinha captado a atração que a amiga tivera pelo rapaz.

Depois da cerimônia quis o destino que Ronen se assentasse numa mesinha próxima à que ela estava. Quando os olhares se cruzaram foi comunicação por ondas de atração total. A partir daquele instante não despregaram os olhos um do outro e quando terminou a festa já tinham trocado número de celulares e marcado uma possível data para se encontrarem.

Agora, já se passara um ano desde que o namoro começara. E como Ronen estava prestes a inaugurar sua banca de Advogados, depois de um bem sucedido período de estágio com um tio, preparava-se para o casamento com a amada. E Jasmine estava embalada pelo sonho romântico do casamento com o príncipe encantado que a tornaria a mulher mais feliz do mundo.

- Mãe, estou pensando em adiar o plano de fazer Medicina. Acho que o Ronen vai precisar muito de mim neste início de casamento. Além do mais, com a inauguração da MEDEIROS & ASSOCIADOS, ele vai enfrentar um período de adaptação inicial quando meu apoio psico-afetivo vai ser importante.

- Faz o que teu coração pedir minha filha! Esforça-te para dar o apoio necessário para que ele conquiste seus ideais. Tenho certeza que isto será bom para o casamento de vocês.

O casamento foi de sonhos. Jasmine estava uma noiva perfeita. Ronen um noivo elegante. A ornamentação da Igreja e do Salão de Festas, inigualável. O buffet escolhido não poderia ter sido melhor. Foi, realmente, o casamento da década na cidade onde moravam. A lua de mel aconteceu num cruzeiro para o Caribe, quando os pombinhos tiveram tempo suficiente para se divertir e aproveitar as delícias do amor. Quando voltavam para o Rio de Janeiro, depois de trinta dias de curtição em pleno Atlântico, desfrutando do conforto da piscina do iate de primeira classe que os embalava, Jasmine sorria para o sol que iluminava seu belo corpo e se sentia a mulher mais feliz do mundo...

Não se passaram muitos meses. Ainda alimentada pelo romantismo da cerimônia de casamento e da luxuosa lua de mel no Caribe, Jasmine já começava a perceber que nem tudo funcionava como sonhara. Desde que retornaram do cruzeiro, Ronen abraçara com dedicação o seu Escritório Advocatício e mergulhara de corpo e alma no objetivo de transformá-lo rapidamente em uma empresa sólida. Ela fazia de tudo para dar sustentação ao esposo na consecução dos seus ideais. Roupa limpa e passada sempre a postos. Sapatos brilhando. Café da manhã à mesa antes dele sair. Refeições prontas nos horários combinados. Casa arrumada e cheirosa; sempre preparada para receber convidados de última hora. A tudo Jasmine punha atenção redobrada com o fito de agradar o marido. No início, sua atenção esmerada era recompensada com buquês de flores e caixas de bombons finos que lhe arrancavam sorrisos de satisfação e atenuavam o vazio da sua existência. Mas, com o passar do tempo, não só ralentaram os presentes, como minguou sua graça em receber tais mimos.

Nos tempos de solidão imposta pelo sistema conjugal que aderira – quando passava horas a sós no recôndito do seu lar -, Jasmine começou a refletir seriamente sobre o que não estava funcionando em seu casamento. Ela tinha tudo para ser feliz, mas não o era. E, refletindo em tudo isso, tornou-se uma leitora inveterada. Começou a adquirir livros para entender a sua situação e alcançar discernimento para a busca de sua independência mental. Leu muitos livros de Psicologia e de relacionamento familiar. Leu Gilberto Freire, Roberto DaMatta e Gilberto Velho. Leu muitos romances também e quanto mais se aproximava de Dostoievski, Tolstoi, Gorki, Maiakovski, Machado de Assis, José de Alencar, Alex Guima e Lúcio Cardoso, mais ia compreendendo a situação da mulher no mundo e mais aumentava seu desejo de dar uma reviravolta em sua vida. A Sociologia, a Antropologia, a Psicologia e a Literatura a aproximaram de um ideal de mulher que começou a se desenhar em seus sonhos e pelo qual ela se tornaria uma fiel batalhadora.

Lendo, Jasmine se libertou. E liberta, ela viu começar a nascer dentro dela uma outra mulher. E lendo, ela descobriu que o modelo patriarcal de casamento no qual ela estava metida até o pescoço, estava ancorado num inconsciente coletivo em que sua fundamentação para um ideal de harmonia conjugal só se realizaria se a mulher concordasse em se anular para deixar o homem decidir pelos dois.

De forma mecânica e natural, Jasmine se deixara enrodilhar por aquele sistema e quando se deu conta estava vivendo totalmente para satisfazer aos caprichos do marido, renunciando à sua individualidade e, conseqüentemente, tornando-se uma mulher infeliz.

2.

Jasmine e Ronen completaram três anos de casamento. Já com seus vinte e um anos de vida e uma bagagem de leitura que a fizera consciente de seu papel como mulher e esposa, Jasmine estava totalmente inadequada ao papel que antes assumira; fruto do inconsciente familiar a que aderira com simplicidade e uma boa dose de ingenuidade.

Ronen foi percebendo o aumento dos livros na biblioteca da casa e a diminuição de vestidos e sapatos no guarda-roupa da esposa. Jasmine optou por alimentar a mente, antes de ter que embonecar-se para alimentar o ego do marido que a apresentava garbosamente como sua linda mulher, como se ela fora um troféu ganho por ele em suas conquistas amorosas e que ele fazia questão de exibir.

Mas, com o tempo, as mudanças deixaram de ser apenas no visual, no estereótipo, e passaram a adentrar o campo das idéias, dos comportamentos e atitudes. Jasmine recusava a ir a certas festas, já não era tão zelosa com certas particularidades domésticas, matriculou-se em alguns cursos e já estava voltando a pensar em fazer a tão sonhada Faculdade. Mas, seu interesse agora não mais era a Medicina e sim Sociologia. Em suas leituras compreendera um pouco mais o funcionamento das sociedades e desejava aprofundar-se nestes estudos.

Naquele fim de tarde, quando Ronen chegou a casa com tempo marcado para retornar ao Escritório pois tinha uma reunião de negócios e não encontrou o jantar pronto, nem as toalhas e materiais de banho preparados para ele, a situação ficou feia entre os dois:

- O que está acontecendo nesta casa? Por que a mesa não está posta?

- Não está nem estará. Se quiser tome seu banho e faça seu lanche em qualquer restaurante da Avenida. Você será bem atendido!

- O que deu em você?

- Nada. Somente não tive tempo para atender aos seus caprichos. Daqui por diante vamos construir uma relação diferente.

- O que está acontecendo Jasmine?

- O que está acontecendo? Será que você não enxerga? – E Jasmine começou a gritar, mostrando uma ponta de desespero. – O que está acontecendo é que vou procurar o meu próprio caminho. Chega de ser usada por você para cumprir seus propósitos. Chega de me anular para suprir suas necessidades. Até agora anulei minha individualidade, tornei-me robô, máquina, para atender tão somente os seus interesses. A partir de agora estou retomando meus sonhos. Se você quiser participar disso, eu quero. Se não, caminharei sozinha.

E depois desse longo desabafo, Jasmine deixou-se cair sobre o sofá, escondendo o rosto entre as mãos e chorando copiosamente. Ronen ficou aturdido com tudo que presenciara. Não sabia se ia para o banho, se consolava a mulher ou se se preparava para sair. Tinha um compromisso agendado, mas o desejo de acariciar a mulher naquele momento de fraqueza era maior. Queria contornar a situação, mas estava numa instabilidade que o punha à prova. Optou pela primeira opção, pois seus ideais profissionais ainda falavam mais alto ao seu coração naquele momento.

Depois de arrumado, Ronen tão somente aproximara-se de Jasmine, fizera-lhe um cafuné e inclinando-se beijou-lhe a testa sem dizer qualquer palavra. Quando a porta se fechou atrás de si era como se o mundo estivesse desabando, mas Ronen empertigou-se, esqueceu o ocorrido, pois precisava concentrar-se nos negócios, revelando sua total inadequação para entender os anseios de sua esposa.

3.

Tudo foi diferente a partir daquele primeiro entrevero mais sério. Iniciou-se um processo de luta intenso no interior de Jasmine. Ela queria ser forte diante desta luta que travava, mas era feminina, era mulher, e chorava e se deprimia de uma forma tão intensa, o que revelava que não se preparara para viver tal momento. Ninguém se prepara.

O que estava vivenciando naquele instante, e a crise profunda que se avizinhava em seu casamento, apresentavam para Jasmine um quadro a que ela se familiarizara através de suas leituras. Aprendera que geralmente é a mulher que inicia o processo de transformação dentro do casamento, quando arrebenta com as amarras emocionais que a prendem, e questiona o lugar que lhe é reservado. Jasmine estava se sentindo usada, machucada e desvalorizada. Tudo isso lhe causara irritação e provocava indignação.

Não foram poucas as vezes que Ronen chegou a casa, após o expediente de trabalho, e encontrou a mulher na cama, debaixo das cobertas, com o rosto inchado e os cabelos em desalinho. Já não havia mais diálogo entre eles, mas o coração de Ronen ainda era de Jasmine. Ele estava preocupado com ela:

- Quer que marque uma consulta médica para você amanhã?

Ronen recebeu como resposta o silêncio. Jasmine estava vivendo um momento difícil de sua vida em que depressão e agressão se alternam com facilidade.

No outro dia, Ronen a encontrou com um copo de wisky nas mãos e quando a interpelou só teve tempo de mergulhar no tapete da sala para fugir do copo pesado que vinha em sua direção.

Um sentimento ambíguo tomava conta de Jasmine. Ela se considerava ao mesmo tempo vítima e culpada por transgredir a ordem vigente. A maioria de suas amigas vivia assim. Sua mãe fora uma mulher assim. Sua avó, também. Será que ela estava errada em rebelar-se? Em desejar conquistar o seu espaço? Em ser mulher plenamente, sem ter sua pessoa vilipendiada; sua individualidade desrespeitada? Estes questionamentos pululavam na mente de Jasmine, trazendo intranqüilidade, já que fora ela mesma que provocara tal rebelião ao começar a lutar contra o sistema cruel que aniquilava seu coração partido.

A situação ficou mais difícil entre eles quando Ronen tomou a resolução de diminuir a verba semanal que entregava para administração de Jasmine.

- A partir de semana que vem vou ter que reduzir sua cota semanal à metade.

- Posso saber o motivo?

- E precisa de explicação? Você me abandonou, não mais está cooperando comigo na minha ascensão profissional, só pensa em você e ainda quer motivos?

- E você, em algum momento, tem se preocupado comigo? Você, alguma vez me perguntou se eu era feliz? Se eu estava satisfeita com o casamento?

- E não era para estar? Eu lhe dou tudo! Casa, dinheiro, jóias, carro... O que você queria mais?

Jasmine olhou desolada para o esposo que tinha. Ela não era mais o tipo que se satisfazia com bens materiais, com objetos e coisas. Ela queria algo mais, um sentido para a vida, uma razão de existência, uma causa porque viver. Ela queria amor, carinho, afeto, companheirismo. Estes valores lhe eram muito mais caros e benquistos do que qualquer dinheiro ou presente que Ronen pudesse lhe dedicar.

Ela simplesmente olhou para Ronen e disse resoluta:

- Faça o que você tem de fazer!

A forma decidida com que Jasmine encarou a situação pegou Ronen de surpresa. Aquele comportamento de sua mulher para ele era novo e lhe trazia sustos e temor. Ele estava percebendo que a esposa agora tomava iniciativas e não se subordinava aos seus desmandos. Enquanto Jasmine se mostrava dependente ele a apoiava, mas, agora que ela quer seguir seus próprios caminhos ele se sente inseguro. Na verdade, Ronen se sente traído. O esfacelamento do seu poder de macho lhe parece tão cruel que isso desencadeia em seu interior uma profunda crise de identidade. Ronen se fecha ainda mais em seu mundo e aquilo que supõe ser agressão de Jasmine para com ele, devolve com agressões ainda mais fortes.

A relação se desgasta. Cada qual começa a perder o seu lugar no mundo e o seu papel dentro do casamento. A empresa de Dr. Ronen só se sustenta porque ele teve a lucidez de montar uma banca de advogados de qualidade, que tocava o escritório mesmo na sua ausência. A elegância masculina de Ronen dá lugar a um homem desleixado e seu rosto belo e sempre bem barbeado, reproduz agora uma face transtornada, um ser em turbulência.

4.

O fim de semana começou grave na chácara dos Carvalho Medeiros. Naquela manhã de sábado Jasmine acordara por volta das onze horas da manhã, posto que ficara até altas horas da madrugada esperando o marido que não chegava. Quando dera duas e meia, desistira da empreitada e fora dormir. Agora que acordara, dera de cara com Ronen largado sobre o sofá da sala, roupa desgrenhada e marcas de batom no rosto.

Quando ela se depara com este quadro, seu coração fica apertado. Ela ainda amava o esposo e vivia neste conflito do novo momento que vivia. “Será que ele está me traindo? O que ele fez esta noite? Para onde foi? Com quem saiu?” Eram muitas as indagações que povoavam sua mente. Ela sofria porque seu coração estava voltado para o esposo. Na verdade os dois sofriam. E não adiantava querer achar um culpado por aquela situação, pois ambos estavam cobertos de razão, ao mesmo tempo em que também tinham suas culpas. Chegaram num impasse de difícil solução, onde quem é acusado se defende e quem se sente culpado não consegue mudar.

Na noite anterior, Dr. Ronen havia aceitado um convite para uma festa beneficente da Casa dos Artistas. Pela primeira vez em sua vida excedera-se nas bebidas e, por certo, acabara por envolver-se com garotas que animavam a festa, porque as marcas de batom em seu rosto e em sua blusa branca denunciavam isto.

Quando acordara, lá pelas duas horas da tarde, Jasmine disparou sua metralhadora vernacular contra ele:

- Onde você foi esta noite? Dormiu com alguma prostituta? Arranjou outra mulher para você? Andou bebendo além da conta? Seus colegas advogados também estão metidos nisto? Vocês agora são um bando de homens desocupados que não têm família não?

Dr. Ronen não deixou por menos. Devolveu os questionamentos com novos, que punham mais lenha ainda na já tão aquecida fogueira.

- Quem sabe?! Talvez seja isto mesmo! Talvez eu esteja procurando algo lá fora que não encontre dentro de casa? Cadê a mulher carinhosa com que me casei? Onde está a mulher organizada, submissa, arrumada, cuidadosa que me fazia feliz? Onde está a organização, o cuidado e a higiene do lar? Tudo isso se foi para o esgoto. Você se transformou numa mulher feia, deprimida, que vive se arrastando pelos cantos, tristonha, arrasada...

Dr. Ronen e Jasmine viviam uma troca constante de farpas entre si, que cada vez mais arrasava a relação dos dois. Enquanto viviam se acusando mutuamente, não havia espaço para conserto, para restauração do relacionamento e retomada do convívio. Enquanto as acusações eram constantes, qualquer tentativa de reatar o relacionamento não podia progredir, mesmo se as queixas de um e de outro tivessem sua ponta de legitimidade.

5.

Jasmine deixou o almoço pronto sobre a mesa de refeição rápida e disse que estava indo para a casa da mãe:

- Não me espere hoje à noite em casa. Talvez eu durma na casa de mamãe...

Ronen olhou indignado para a esposa, mas não encontrou forças morais para esboçar qualquer reação. Viu-a sair porta afora, escutou o ruído da chave no cilindro da fechadura e engoliu em seco a decisão da esposa. Resolveu almoçar e, após, um banho, assistiria a alguns DVDs. No banheiro, após a refeição, vislumbrou as marcas de batom no pescoço e na blusa, e seu semblante descaiu diante das encrencas em que andava se metendo e dos motivos que estava oferecendo para destruir o próprio casamento.

Por seu turno, Jasmine, em casa da mãe, paparicava-a com presentes e brindes, disfarçando suas mágoas e ressentimentos com muitos risos, conversas e preparação de doces caseiros com frutas colhidas no pomar.

A tarde e a noite passaram ligeiras naquele convívio familiar que lhe era tão conhecido. Voltar a casa onde nascera, ao quarto onde vivera seus sonhos infantis e suas transformações adolescentes trouxera certo alívio aos já agitados dias da vida de casada.

Até então, a mãe e os demais membros da família ali presentes, de nada suspeitavam no comportamento de Jasmine. Na verdade, ela fez de tudo para disfarçar sua crise familiar, não deixando transparecer para os seus, que estava enfrentando problemas no casamento. Quando chegara, a mãe perguntara pelo Ronen. Para esta indagação ela já tinha preparado um álibi. Informara que ele tinha viajado para participar de um Congresso especializado da OAB em Guarapari, ES. Agora, que a noite ia alta, indagara a mãe se podia pernoitar em sua casa.

A mãe recebera de bom grado o pedido da filha. Estava feliz por tê-la por perto. Após muitas partidas de dama e dominó com o pai, a mãe, seu irmão mais velho e esposa, que também estavam por lá, Jasmine foi dormir. Recolheu-se ao quarto de sua infância. Isto lhe trouxe gratas recordações e aguçou-lhe os sonhos. Dormiu um sono leve e tranqüilo, como de há muito não o fazia. Na manhã seguinte, teve tempo suficiente para refletir na vida, em especial, no casamento. Manteve-se recolhida em seu quarto e naquele ambiente acolhedor, que lhe propiciava boas recordações, meditou intensamente na sua realidade conjugal.

A conclusão que Jamine chegara naquele retiro forçado, foi que ela também era culpada por aquela situação em que vivia. Ela acabara de tomar consciência de que ajudara a construir o modelo de casamento que hoje odeia. Se efetivamente não era vítima do marido, por outro lado, ao longo dos meses de convivência foi assumindo este papel de vítima e agora, quando podia pensar com a cabeça fria chegara a conclusão de que a única forma de sair desse círculo vicioso em que se engendrara, onde acusações e cobranças destroem a capacidade de se viver juntos é reconhecer que ela, Jasmine, tinha uma parcela grande de culpa no conflito.

Jasmine passou o domingo na casa dos pais. Gastara a manhã inteira, reclusa em seu antigo quarto, meditando em seu casamento e elaborando resoluções que tomaria para dar um jeito em tudo que estava enfrentando. A tarde fora mais amena, enchendo as compotas com os doces feitos na véspera e papeando livremente com os familiares. Já estava ansiosa por voltar para casa, mas só o faria na manhã de segunda-feira. E enquanto segunda não vinha seu coração inquieto aguardava o reencontro com o marido.

6.

Manhã de segunda-feira. Jasmine beija a mãe e, jogando as bugigangas no carro, abre o portão da chácara para sair. Está ansiosa para retornar ao lar. Sabe que não vai ver Ronen por agora, pois ele já terá saído para o escritório quando lá chegar, mas quer este tempo livre exatamente para preparar algumas coisas que seu coração estava pedindo.

Ao abrir a porta da sala de casa, em princípio não estranha nada que encontra. Ela é que se sente um pouco deslocada. Respirando aqueles ares sente-se mais segura, porém há um tom de vergonha e reprovação dentro de si mesma, por ter abandonado o lar por aqueles dias. Mas, Jasmine está muito decidida a tomar atitudes que a ajudem a conquistar seus sonhos individuais e retomar o bom relacionamento com o esposo.

Guarda seus pertences nos locais apropriados e começa os preparativos para dar uma arrumada na casa, de modo que ela estivesse totalmente remodelada quando Ronen chegasse. Seu plano era limpar a casa com todo esmero, modificar o design da sala e de alguns outros ambientes, inserir alguma decoração nova que trouxera da casa da mãe e dar uma arejada nos quartos de modo que o ambiente estivesse limpo, bonito e aconchegante.

Depois de arrumar os quartos, ajeitar a sala de estar e dar uns toques femininos nos demais compartimentos da casa preparou seu almoço e estava vendo um pouco de televisão no início da tarde, para descansar um pouco, quando uma pequena folha de papel dobrado, embaixo do bibelô que estava na parte lateral do console ao lado da televisão, lhe chamou a atenção. Levantou-se, e pegando o pequeno pedaço de papel retornou ao local onde estava assentada, continuando tranquilamente a ver o que se passava no noticiário, enquanto abria vagarosamente o bilhete. Qual não foi a sua surpresa, quando, baixando os olhos para o texto ali escrito, assustou-se com o manuscrito do esposo:

"Não dormirei em casa essa noite. Depois do trabalho pretendo sair com uns amigos. Quero entender o que está se passando em nosso relacionamento e, como minha cabeça está a mil por hora, vou me divertir um pouco para espairecer."

Jasmine assustou-se com o que acabara de ler e um tom de desespero tomou conta de si. Logo agora que ela tinha tomado decisões drásticas, quando caíra em si acerca dos erros que ela própria havia cometido, seu marido parecia escapar-lhe das mãos, por entre dedos, como água corrente que não se contém mais...

Jasmine chorou. Chorou amargamente. E pela primeira vez teve medo. Tinha medo de perder o esposo. Tinha medo de não ter a chance de poder mostrar para ele que estava arrependida de certos procedimentos e comportamentos. Tinha medo de não ter mais a chance para se consertar e tentar resgatar seu relacionamento conjugal. Todo seu plano, adredemente preparado para aquele dia, ela via fugir pelo ralo, por meio de um simples e pequeno pedacinho de papel, malfadado bilhete que lhe fizera perder as esperanças.

Lembrou-se dos tantos livros que lera sobre casamento, na sua busca frutífera de conseguir salvar o seu. Mas, agora que via aquele bilhete, achava que todas as suas leituras tinham sido infrutuosas. Sentiu o desespero tomar conta de seu coração.

Em suas leituras havia descoberto que toda crise pode desembocar em separação emocional e até mesmo física, mesmo que se continue a morar debaixo do mesmo teto. Ela experimentara a primeira e, agora, pelo visto, haveria de experimentar a segunda. Mas ela mesma era a culpada, recriminava-se, pois a fuga para a casa da mãe abrira esta brecha para ele também dar as suas saídas, embora de conseqüências mais desastrosas.

Lembrou-se, todavia, que qualquer crise pode ser construtiva quando os cônjuges assumem - cada um de per si -, a responsabilidade que lhe cabe nos desastres do relacionamento e desenvolvem a capacidade de estar só, dispondo-se a iniciar um processo novo de diálogo, reconciliação e aceitação mútua. Ela estava disposta a fazer a sua parte. E Ronen? Depois daquele bilhete, passou a ter suas dúvidas, pois não tinha certeza até quanto ele se afastaria emocionalmente dela e lhe arranjaria uma substituta. Uma insegurança enorme tomou conta de seu coração naquele momento...

Mas Jasmine estava decidida. Não desistiria. Tomara decisões importantes e faria todo o investimento que fosse necessário para recuperar o esplendor de seu casamento. Precisava, tão somente, de um momento de diálogo com Ronen e, cedo ou tarde, teria esta possibilidade.

7.

Ronen só chegou a casa na sexta-feira. Enquanto ele não aparecia, Jasmine enfrentou momentos de alternância em seu estado de ânimo que iam da depressão a euforia; da esperança ao fracasso; da vontade de vencer ao ímpeto de entregar os pontos. A todos resistiu com galhardia, pois tinha um objetivo em mente. Fez várias tentativas de falar-lhe ao celular, mas, ao que parece, ele o havia desligado. Ligar para o escritório, foi sua alternativa, mas embora estivesse por várias vezes na iminência de fazê-lo, sempre se bloqueara, com receios de que sua voz e entonação a denunciassem e passassem para os colegas de trabalho dele toda a fragilidade de seu casamento. Enquanto fosse possível manteria as aparências, pois ainda acreditava que poderia resgatar seu relacionamento conjugal.

Não foi com ar de superioridade que Ronen chegou a casa naquela noite. Estava arrasado e se podia perceber isso em seus olhos dispersos, seu corpo caído, seu ânimo alterado. Passara a semana quase que inteira entre o trabalho e um hotel de segunda categoria, onde mantinha uma garota de programa em regime de exclusividade, para atendê-lo a qualquer hora que ele desejasse. Agora que o fim de semana se avizinhava, desistiu da empreitada e resolveu voltar para casa. Estava um bagaço. Não sabia se encontraria a esposa ou não, mas estava decidido também a por um fim naquele absurdo que vivia.

Quando os dois se defrontaram, lágrimas desceram de seus olhos. Cada qual, à seu modo, sentia o peso da crise que enfrentavam. Jasmine estava inteira, linda, exuberante, embora com marcas e sulcos na face, provocados pelos choros solitários. Ronen estava arrasado, destruído, sentindo o peso do adultério em seus ombros. Seu corpo estava dilacerado pela dor e sua alma em frangalhos. Jasmine, ao vê-lo, pressentira todo o embate que se travava no interior do coração do marido, mas, para provar que estava disposta à reconciliação - houvesse acontecido o que fosse -, foi ao seu encontro e recebeu-o com um abraço caloroso.

Ao sentir o contato físico da esposa, Ronen entregou-se a um choro convulsivo, deixando extravasar toda a dor que cortava seu coração agoniado. Não era digno de tanto amor, mas como precisava dele! Porque amava a sua esposa, aquela situação o deixava transtornado e sofria ainda mais.

- Amor. Eu queria...

Jasmine levantou seu dedo indicador e colocou-os nos lábios de Ronen.

- Fique quieto! Não precisa dizer nada!

- Eu queria apenas dizer que...

- Agora não. Você está aqui e isso é o que importa!

Uma nuvem de amor cobriu os dois naquele momento. Parecia que céus e terra haviam se movido para promover a reconciliação dos dois pombinhos. Como se amavam! E isto estava evidente na forma carinhosa como se olhavam e se tocavam naquele instante. A nuvem benfazeja do amor cobriu-os de ternura e afeto. Uma redoma de carinho se construiu ao redor deles naquele instante, de modo que nada ou ninguém conseguiria penetrar naquele momento no cândido lugar de amor, onde Eros se fez entronizado em suas vidas.

Depois daqueles ternos momentos em que ambos se entregaram ao contato físico, ao instante de recuperar o conhecimento dos poros, da respiração e do calor um do outro, Jasmine, conduziu Ronen para o banheiro e ambos se despiram e entraram na banheira Jacuzzi que já estava preparada com aromas campestres para aquele banho reconfortante de que precisavam. Foram minutos de muitos afagos e carinhos. O banho estendeu-se por longos minutos que se passaram como se segundos fossem, pois a presença do outro era mais importante que o relógio.

A reconciliação foi selada com uma linda noite de amor após o banho prazeroso que tomaram juntos. Dormiram abraçados, como de há muito não o faziam e experimentaram a paz de dois seres que se amam e, por isso, se entregam sem mesuras ao aconchego sereno do amor.

8.

No dia seguinte, assim que acordaram, Ronen ligou para o escritório avisando que só chegaria depois do almoço. Pediu para a secretária realocar todos os seus compromissos para o período da tarde, cancelando sua agenda matutina. Olhando para a esposa que, ainda sonolenta espreguiçava-se ao seu lado, tentou entender os porquês das loucuras que ambos estavam fazendo se amavam tanto um ao outro.

Quando terminou de acordar, Jasmine, assentando-se na cama e recostando-se no travesseiro, lhe disse:

- Não sou mais a mulher com quem você se casou!

- Bem sei eu disso! Você mudou muito...

- E você gostou das mudanças?

- Em parte! Ainda estou me adaptando ao seu novo jeito de ser...

- Amor, a questão é a seguinte. Do jeito que as coisas estavam indo, ou eu rompia com o casamento ou ficava maluca. Já estava pirando de tanto me sentir desprestigiada naquele modelo de casamento que tínhamos forjado. Não me adaptei ao jeito antigo de ser mulher. Não me sentiria bem frustrando meus sonhos pessoais e trabalhando somente para realizar você no casamento.

- Eu sei disso! Você me perdoa ter te imposto este modelo? Você me perdoa ter abusado de você, sem me preocupar com seus sentimentos e seus sonhos? Você me...

- Amor, pára! Perdôo você o quanto precisar; como também preciso do seu perdão. Eu sou muito culpada por tudo o que aconteceu, pois eu mesma ajudei a alimentar este sistema. Eu mesma ajudei a construir este monstro em que se tornou o nosso relacionamento.

Mais uma vez se abraçaram e ali, naquele momento, trocaram beijos e carícias e juras de amor eterno. Estavam resolvidos a não mais permitir que qualquer influência interna ou externa atrapalhasse o relacionamento deles. Esforçar-se-iam para fazer os ajustes necessários para a conquista de um relacionamento sólido e verdadeiro. E o diálogo que agora os unia era o principal fundamento que não poderiam esquecer, pois amor um ao outro tinham o suficiente, só faltava saber lidar com os problemas sazonais do matrimônio para serem felizes.

Os dias se passaram e parecia que Jasmine e Ronen viviam uma nova lua de mel, tal a alegria que lhes dominava o coração e tal o afeto e carinho que devotavam um ao outro. Não era uma lua de mel de fantasia, mas um encontro de seres que se amam e que conhecem suas limitações humanas. Percebia-se que, aos poucos, um novo modelo, mais democrático e mais humano de casamento estava se construindo entre eles. Neste novo modelo o resgate do valor que cada um tinha era marcante. E foi exatamente esta busca de uma relação mais igualitária que começou a gerar mais harmonia entre o casal.

Jasmine havia conversado com Ronen sobre seu desejo de fazer uma faculdade. Já havia se informado que a Universidade que tinha um campus avançado em sua cidade oferecia o curso matutino de Sociologia. Ela estudaria pela manhã e cuidaria das tarefas caseiras à tarde. Quando fosse necessário, contrataria uma diarista para ajudar na manutenção da casa. O marido concordara plenamente com seus projetos e retornara na entrega da verba semanal para a esposa administrar, bem como quadruplicara o valor. Ela teria folga financeira suficiente para cuidar dos suprimentos diários da casa, e também para bancar seus estudos, principalmente na aquisição de livros.

Aos poucos o casal ia aprendendo a lidar com os conflitos numa perspectiva de respeito mútuo e isto gerava crescimento e maturidade tanto do ponto de vista individual como na perspectiva do matrimônio. Isto não queria dizer que eles não tinham problemas, ao contrário, volta e meia estavam envolvidos em discussões e debates de pontos de vista conflitantes, mas tudo ocorria em alto nível, sem a infantilidade machista do primeiro momento de seu casamento. Todos os desencontros eram superados como resultado desse amadurecimento. Afinal de contas estavam vivendo uma nova fase, que, demandava ajustes constantes.

Sempre que estava em casa sozinha, no período da tarde, Jasmine refletia sobre este novo momento que estava vivendo e sorria espontaneamente com a constatação de que agora sim, era uma mulher feliz. Não uma felicidade falsa, construída sobre areia movediça, mas um felicidade edificada sobre a rocha, com bases, fundamentos verdadeiros e necessários para a construção de um casamento que seja uma parceria, uma experiência significativa para ambos. Ela constatava que o momento que estava vivendo, onde a harmonia conjugal era uma marca de valor, não era um ponto de partida imposto por uma rígida distribuição de papéis, mas a conseqüência de uma relação construída a dois, onde cada qual tem voz ativa e ambos aprendem a compartilhar suas emoções e respeitar suas diferenças.

9.

Passaram-se dois anos. Jasmine estava indo bem em seu curso e caminhava para seu quinto período. Era uma excelente aluna, destaque da classe, e isto ela alcançara na descoberta que fizera dos livros como companheiros de solidão, nos tempos difíceis de seu início de casamento. Assim sendo, porque amava ler e o fazia espontaneamente, estava sempre à frente da turma, enriquecendo as aulas com suas descobertas e com as intervenções inteligentes que fazia com a permissão dos mestres.

Um belo dia ela foi surpreendida por um convite do professor de Estatística. Ele estava envolvido numa grande pesquisa nacional para detecção do nível de consciência política da população. Era presidente de uma ONG que ganhara a concorrência para fazer esta pesquisa para o governo. Dr. Alexandre precisava de uma assistente para levar avante este projeto e convidou Jasmine para engrossar as fileiras de sua equipe.

A moça chegou sorridente em casa naquela noite. Depois de uma tarde estafante, preenchendo papéis, acorrendo a repartições públicas e encaminhando toda a papelada necessária para habilitar-se a esta nova função, o que mais ela queria era que Ronen chegasse. Quando compartilhou a idéia com o esposo, sentiu certa frieza na sua recepção do assunto. Na verdade ele não estava de todo preparado para ver a mulher ingressando no mercado de trabalho. Aquilo representou uma ducha de água fria para Jasmine. Sua alegria não foi compartilhada. A realização de mais um sonho estabacara na indiferença do esposo aos desejos do seu coração. Mas agora ela era uma mulher mais amadurecida. Sofrera com o impacto desta reação adversa, mas teria maturidade suficiente para esperar o marido digerir esta nova situação.

No dia seguinte, quando se levantara para preparar-se para mais um dia de luta no escritório, a primeira coisa que Ronen fez foi conversar com Jasmine sobre o ocorrido no dia anterior:

- Amor, desculpe-me por ontem à noite. Não estava preparado para este novo momento. Ainda estou digerindo esta nova situação. Ainda pensava que teria todo o dinheiro do mundo para lhe dar sem que se fizesse necessário vê-la trabalhando fora. Mas, sei que isto faz parte de seus sonhos. Não os impedirei, ao contrário, pode contar comigo para o que for necessário. Quero sua felicidade. Perdoe-me mais uma vez.

Jasmine sorriu cautelosamente, mostrando num esgar de lábios seu contentamento. Ela agora podia compreender o marido, pois reconhecia pelos seus estudos como funcionava a alma masculina. Ele interrompeu seus pensamentos:

- Sei que vai demorar um pouco a me adaptar a esta nova situação. E sei também que poderei, em algum momento, demonstrar qualquer insatisfação com esta nova realidade, mas gostaria que você me compreendesse e me ajudasse a aceitar isto que é tão positivo para você.

- Amor da minha vida, você sabe que pode contar comigo sempre. Obrigado pelo seu apoio. Eu entendo o que se passa em seu interior e vou ajudar você a compreender que isto é importante para a minha vida e para a realização da minha individualidade.

Jasmine tinha plena convicção que estava no diálogo a cura para todos os males de relacionamento conjugal. Tinha aprendido que os casais precisavam escolher um ao outro, novamente, por várias vezes no transcurso da vida em comum. Agora que já tinha caminhado os primeiros cinco anos de casamento, tinha consigo que relacionamento a dois requeria uma grande dose de flexibilidade e disposição para mudanças. O que acontecera com eles naquela manhã era resultante do aprendizado de que, num casamento, os dois precisam aprender a ouvir um ao outro para compreender adequadamente a perspectiva do outro sobre qualquer assunto.

Tanto Ronen quanto Jasmine já estavam afeitos à realidade de que a vida era um processo contínuo de transformação. Elaborar estes conceitos diante dos embates da existência, nem sempre é fácil, mas eles estavam dispostos a investir o que fosse necessário para alcançar sua realização matrimonial. Tinham plena convicção de que o passado não podia ser mudado, mas já haviam caminhado o suficiente para aprender que até mesmo no fracasso poderiam aprender e que os erros poderiam ser transformados em alavancas para o futuro.

- Querido, você é muito importante para mim! Ao seu lado tenho aprendido muitas coisas e o seu apoio tem sido minha sustentação para novas conquistas. Vamos superar mais este momento, tenho certeza disto. Na crise, o importante é não desistir, nem fugir na depressão. Ela é uma oportunidade de descobrir a própria força, de crescer...

- Estou vendo que você realmente tem sido uma boa aluna. Está até falando difícil!

E rindo, Ronen deu um beliscãozinho no bumbum da esposa que ainda estava de camisola de lycra, demonstrando com isso que já deflagrara o processo para superação do susto que tivera com a notícia de que a esposa iria trabalhar.

10.

É óbvio que a partir do momento em que se assumem novos papéis sociais, nada mais é como antes. A vida é composta de perdas e ganhos. É preciso fazer com que os ganhos sejam maiores e que no balanço da existência, a contabilidade dos ganhos supere a das perdas. Desde que começara a trabalhar em seu ramo de atividade – e isto estava sendo muito enriquecedor para Jasmine – ela modificara sua maneira de ser em casa. Não que houvesse uma predisposição para ser diferente, mas a vida é assim. Mudanças geram mudanças e precisamos sempre nos adaptar aos novos momentos vividos.

Cada nova etapa começa com perda. E no caso deles a perda foi de tempo disponível para as tarefas domésticas, para o tempo a sós, para os imprevistos cotidianos. A moça, que Jasmine contratara como diarista, agora dava expediente integral em seu lar, assumindo todas as tarefas da casa, desde lavar, passar, arrumar e cozinhar. Somente os jantares especiais de fim de semana, que Jasmine fazia questão de preparar para o esposo, estavam sob seus cuidados. No demais, transferira todas as tarefas domésticas para sua ajudante de confiança. Tinha que ser assim, pois ela não teria mais tempo para esta dupla jornada. Além disso, seu trabalho não era próprio, como o escritório de Ronen. Ele podia se dar ao luxo de ligar para o trabalho e remanejar alguma situação para atender a algum capricho dos dois: um passeio, uma esticada a mais na cama, umas compras... Mas ela, agora, tinha que cumprir horário, dar conta de serviços, prestar relatórios, preparar e executar projetos.

Depois desta longa crise de paradigmas a que estiveram sujeitos, Ronen e Jasmine podiam experimentar novas maneiras de ser e de se relacionar. Aprenderam isso na marra, mas seus corações apaixonados os fizeram entender que o mundo em que viviam era outro e que a mulher precisava conquistar seu espaço na sociedade. Desde Margareth Tatcher esta ideologia está em voga e, agora, Condolezza Ricce mostra para o mundo o poder da mulher empreendedora.

Quem acompanhasse de perto os conflitos e frustrações do casal veria, agora, o nível de maturidade que alcançaram no aprendizado da própria relação. Nunca é fácil superar-se no casamento. A cultura moderna de tornar o relacionamento conjugal algo descartável é um dos grandes dilemas enfrentados pela humanidade. Não se pode lidar com pessoas, com sentimentos, com emoções, como se lida com coisas e posses. O ser humano, muitas vezes, é imprevisível. As emoções são contraditórias e o nível de estresse pode por a perder todo investimento feito na construção de uma relação saudável.

Ronen sabia disso e continha seus arroubos masculinos a fim de preservar um bem que lhe era valioso: seu casamento. Ele amava Jasmine e se debatia na luta inglória de vencer seus instintos de homem latino. Ambos estavam descobrindo na caminhada que nenhum casamento pode preencher totalmente alguém. Nesta descoberta foram estabelecendo sua vida própria, livrando-se da co-dependência e iniciando uma sadia relação de interdependência. Jasmine já não se escondia em seu casulo feminil. Os medos, fantasias, mágoas e ressentimentos que porventura aparecessem, ela ia de pronto identificando e expressando para si mesma, diante do espelho da vida, e para seu esposo, nos momentos íntimos de troca de informações no lar. O diálogo estava sendo conquistado a muito custo, e, preservado, mesmo naqueles instantes em que algum tipo de rusga tentava se interpor em sua jornada familiar. Expressar o que se passava em seu mundo interior era a forma que descobriram para sair do inconsciente, onde estas idiossincrasias assumiam proporções cada vez maiores e tinham espaço para se tornarem monstros difíceis de serem vencidos. Porque assumiam seus desacertos, e expunham o que pensavam através do diálogo, eles conseguiram vencer seus momentos mais intrincados.

O passar do tempo foi mostrando para o casal o quanto eles foram felizes na construção de seu relacionamento e o quanto cada um pode contribuir para a saúde do casamento. A experiência vivida por casais amigos, mostrou que eles ainda tiveram uma sorte maior de conseguirem resolver seus conflitos intra-muros, ou seja, no recôndito do lar. Um casal amigo deles experimentou feridas tão profundas e defesas tão rígidas na sua vivência a dois, que precisou recorrer a um terapeuta familiar para encontrar o caminho da restauração. Se tivesse havido esta necessidade para eles também, percebia-se que Ronen e Jasmine não se oporiam a esta busca. O amor que nutriam um pelo outro era mais forte do que qualquer dificuldade em buscar ajuda de terceiros.

11.

Era uma manhã de sol. Jasmine tinha concluído sua faculdade de Sociologia e tornado-se uma exímia profissional. Abrira uma empresa de consultoria e tornara-se uma escritora de renome. Naquela sexta-feira um motivo em especial alegrava o seu coração. Acabara de retornar de uma consulta médica e trazia nas mãos um laudo que confirmava a sua gravidez. Estava radiante com o resultado. Não se conteve e, pegando o carro rodou rápido até a MEDEIROS & ASSOCIADOS. Entrou exultante na sede da empresa do esposo.

- Amor, está confirmado. Estamos grávidos! Peguei o resultado dos exames e aqui está a confirmação.

As secretárias, os estagiários e os advogados associados olhavam assustados para a esposa do patrão que demonstrava um nível de contentamento fora de série. A forma com que ela adentrara o ambiente de trabalho, fugia a qualquer protocolo, mas todos entendiam que era o momento dela. Meio que timidamente, por participarem de momento tão íntimo do casal, mas para quebrar ainda mais a formalidade do ambiente, todos irromperam em profusas palmas saudando o casal pela bela notícia. Quem agora se intimidou com as palmas foi Jasmine. De repente ela caiu em si e percebeu que havia transtornado o ambiente de trabalho.

- Desculpem-me, pessoal, eu não me contive. E tenho ainda algo mais a dizer: Trata-se de gêmeos. Estou grávida de gêmeos!

Dr. Ronen não se conteve e deu um prolongado e delicioso beijo na esposa. Dessa vez as palmas foram mais profundas e ritmadas e o ambiente de trabalho se tornou definitivamente festivo. A secretária mandou providenciar uma torta de chocolate com cerejas e chantili e alguns refrigerantes, e todos comemoraram a boa notícia que vinha coroar todo o investimento do casal na recuperação da harmonia conjugal.

Naquele mesmo dia, o jornal da cidade inaugurava a coluna COISAS DA GENTE, assinada pela Drª. Jasmine Carvalho de Medeiros, e que trazia o seguinte excerto: “Fala-se e até mesmo se escreve muito sobre o novo momento da mulher no mundo contemporâneo e as mudanças por ela enfrentadas. Porém, o fato mais real de tudo isso é que há muitas mulheres que continuam a mercê do seu homem. Não será com investidas isoladas e revoltas ocasionais que se mudará este quadro. A sociedade vai precisar de muitas gerações para se construir uma nova mentalidade. Várias gerações serão necessárias para formar um novo discurso, para desenvolver uma linguagem própria, mais adequada ao novo momento vivido pela mulher. Novos valores que representam uma velha necessidade feminina deverão ser redescobertos e isto não pode nem ser reflexo do masculino, nem inversão ou pastiche do que é o próprio homem. A mulher possui seu espaço próprio e deve construí-lo de forma saudável e eficaz. Cabem a ambos os gêneros este desafio. Homens e mulheres têm hoje a oportunidade de descortinar novos horizontes para a já tão gasta relação marital. Todo o potencial até hoje inibido, por anos e séculos de disputas e competições dentro do matrimônio, deve ser desenvolvido e tudo o que foi inibido por força dos erros da caminhada, deve aflorar de forma saudável para por um fim aos desmandos e se construir uma relação em que homem e mulher sejam senhores de suas caminhadas e alcancem o pleno significado da existência em parceria.”

Naquele momento, Jasmine sentiu as crianças mexerem em seu ventre e sorriu de alegria diante da sua vitória sobre as imposições de um destino que ela lutou para anular. Poderia dizer com todas as letras que era uma nova mulher, uma outra mulher, uma mulher feliz e realizada...
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 27/07/2006
Reeditado em 19/08/2006
Código do texto: T203017
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
177 textos (112798 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 10:50)
Alex Guima