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O que ela não entendia

Ela sabia que tudo estava desabando, tinha certeza disso, mas ainda tentava se convencer de que se pensasse diferente...e então ele abriu a porta.
O olhar era o mesmo, as mesmas roupas, o mesmo cheiro, com alguma diferença que ela não conseguia identificar.

- Quem é ela? Me fala! - ela não sabia se existia outra pessoa, mas ela sentia que sim.
- Quem? Será que agora vai ser sempre essa loucura? - ele disse em tom de descaso
- Não, não será. Basta você assumir. - estava desesperada, era sua última cartada
- Tudo bem. Vou contar sobre ela. - ele disse linearmente

Ela gelou. Não queria ouvir aquilo. Ficou ali parada olhando para o nada, não conseguia se mover, se um tufão passasse ali, não a tiraria do lugar. As imagens começaram a passar por sua cabeça, todo aqueles momentos, os cheiros, os gostos, as descobertas...Ah, as descobertas...tudo aquilo que parecia impossível de se fazer na vida, todas aquelas coisas chatas, maçantes, com ele eram perfeitas - um surto de raiva - Como ele pôde? Tudo que a gente tinha era tão bonito, era tão verdadeiro. O que a família vai pensar? Os amigos? O cara da padaria? As pessoas que sempre nos viam caminhando de mãos dadas? O que todos eles vão dizer?
Os pensamentos, que duraram apenas um segundo foram todos embora para dar lugar ao vazio, ao branco.
Ela continuava parada, olhando o nada como se fosse algo extremamente interessante. E então ele começou a falar.

- Ela é pequena. Pequena e magrinha. Sabe aquelas meninas pequenininhas, com jeito de frágil...sabe? Não sabe? Sabe sim. Então. E ela usa umas roupas larguinhas, bem leves e quando bate o vento parece que ela está voando...fica tudo tão leve, é como se uma borboleta batesse as asas. E o jeito dela andar de um lado pro outro no quarto, arrastando o chinelo e falando, contando como tudo acontece, ou deveria acontecer no mundo dela. Ah, ela é assim...

Ela estava chocada. Como ele podia ser tão cruel e insensível? Era visível que ele não sentia mais nada por ela. Ela começou a andar de um lado pro outro arrastando o chinelo, dizendo tudo o que achava dele, começou a ficar muito brava. O vento bateu levando sua blusa, o que a irritou ainda mais, então ela fechou a janela com toda força, como se quisesse destruí-la. Pegou sua bolsa, colocou tudo que julgava precisar, andou em direção à porta, parou. Olhou pra ele como se fosse o último momento em que estaria viva pra fazer isso. Aquele olhar durou horas - em sua cabeça. Então ela virou as costas, os ossos aparecendo e fechou a porta atrás de si.

Ele apenas suspirou. Não podia entender, assim como ela não tinha entendido.
Dona Lexotan
Enviado por Dona Lexotan em 04/08/2006
Código do texto: T208693
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Sobre a autora
Dona Lexotan
Santo André - São Paulo - Brasil
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