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O FIM ?

Naquele dia tudo lhe correra mal, a mulher em que depositara a sua maior confiança estava a trai-lo de uma forma infame, as fotos não enganavam nem eram forjadas, pagara por elas quase uma fortuna, mas queria ter a certeza, antes da difícil cirurgia a que se tinha de sujeitar e que o seu coração há muito reclamava.
Ao olhar atentamente os olhos daquele homem, sentiu um arrepio de repugnância, ele era na verdade o novo amor de sua mulher, exibia um sorriso de conquista, ela era bem mais velha que ele, mas graças as operações plásticas, que lhe tinham custado uma fortuna, mostrava ainda uma jovialidade que cativava. As fotos mostravam à sagacidade o idílio que se estava a edificar entre aqueles dois; Tinha de tomar as devidas providencias antes da cirurgia, porque não lutara uma vida inteira por um património, para o deixar desprotegido nas mãos de um aventureiro qualquer; Só porque a sua querida mulher se apaixonara por aquele homem de barba loira e rente tipo Adónis e olhos de serpente. Não a deixaria sem nada, o que seria fácil, bastava uma hipoteca à sua firma, o casamento foi realizado apenas com adquiridos e, portanto apenas lhe restaria a moradia onde vivem no Estoril, porque tudo o resto era herança própria e, portanto nada lhe cabia por direito. Alguém que dedicara toda a sua vida ao seu negócio seria o beneficiário deste império que ambos tinham construído, sobre o que herdara de seu pai.
Ao chegar ao seu gabinete de trabalho era esperado por Lídia que gentilmente o colocou a par dos problemas acontecidos na sua ausência.
- Uma coisa queria de si.
- Por favor, Dr. Afonso, o que precisar.
- Estamos neste trabalho há quase 20 anos, ambos nos licenciamos aqui trabalhando no duro, somos tanto um como o outro o sustentáculo desta firma, eu nada faço sem a ouvir, portanto quero que a partir de hoje, comece a resolver certos problemas sem depender da minha aprovação, como sabe breve vou fazer uma difícil cirurgia e vou delegar em si toda a responsabilidade da firma e se por acaso algo de mal acontecer, esta nomeação será definitiva.
- Por favor, Dr. Afonso, tudo irá correr bem se Deus quiser; Vai ser operado por um dos maiores especialistas do Brasil, que decerto vai operar maravilhas, ou não seja ele indigitado pelo seu amigo Dr. Arnaldo. Tenho muita fé que tudo vai correr pelo melhor.
- De qualquer das formas, a partir de agora assuma a direcção da firma que será confirmada na reunião de accionistas da empresa. Agradecia ainda que pedisse ao Dr. Romão para de tarde ter-mos  uma reunião, ele que marque a hora, agora vou sair para almoçar no Estoril, pois disse à Graça que ia a casa.
- A senhora Graça como está?
- Pelos visto bem.
- Fico feliz Dr. Afonso.
- Outra coisa que lhe queria pedir, a partir de hoje trate-me por Afonso, afinal estamos no mesmo barco há mais de 20 anos, você Lídia tem sido o meu amparo e ajuda assim como a companheira diligente nas horas boas e más.
A mulher que abandonou a sala era alta muito loira e exalava felicidade por todos os poros. Apesar dos cinquenta anos já vividos e algumas aventuras inconsequentes, apresentava uma jovialidade que muitas jovens de vinte lhe invejavam, sempre fora dinâmica e ao contrário do que se diz das loiras era extraordinariamente inteligente. Mantinha um amor secreto por alguém que sempre vivera com ela, mas apenas no trabalho.
A caminho do Estoril Afonso ia pensando na traição de Graça, como podia aquela mulher que tanto tinha feito por ela trai-lo desta forma? Dera-lhe tudo desde uma boa vida, até ao realizar dos mais caros caprichos, nunca lhe negara nada tanto na vida amorosa como no sexo, que ela apreciava de sobremaneira, mas nunca lhe dera um filho que era o que mais desejava na vida. Ultimamente a conselho do médico, tinha-a privado um pouco de sexo, e o resultado estava a vista. O detective que contratara nem sequer o deixou falar apenas recolheu as fotos e pagou, tal era a vergonha que sentira.
Accionou o portão automático e entrou na vivenda de que tanto se orgulhava. A criada veio solicita abrir-lhe a porta.
- Maria, onde está a senhora?
- Penso que está no computador a falar com os amigos dela.
- Vai dizer-lhe que cheguei.
- Imediatamente Dr. Afonso.
Passados uns bons dez minutos Graça fez a sua aparição na sala de jantar; Vinha radiante tal como a vira nas fotos, aqueles olhos negros que tanto amara pareciam iluminados por felicidade e não era de o ver. Era uma mulher de estatura média, com uma figura bem desenhada pelos cirurgiões plásticos a quem pagara a peso de ouro para lhe tirar as gorduras supérfluas que ganhara pela pouca actividade física. Era licenciada em Economia, mas nunca exercera, terminara o curso depois de casada e não precisava trabalhar. Trazia um sorriso agradável, mas Afonso sabia discernir agora, o verdadeiro do falso e aquele era o mais falso que algum dia ela tinha afivelado ao seu rosto.
- Meu querido, como foi o teu dia hoje?
- Muito agradável.
- Falei com o Dr. Arnaldo e ele está a preparar tudo para no fim de Julho seres operado. O cirurgião que te vai operar, ainda vai a Paris fazer umas conferencias e na volta para Lisboa vai operar-te; Portanto dentro de um mês.
- Desde quando te preocupas com os meus problemas? O Arnaldo se quer alguma coisa que venha falar comigo.
- Querido claro que me preocupo, a tua saúde está em primeiro lugar. Já tomas-te os remédios?
Sentiu um estranho nojo daquela mulher, mas tinha de manter a postura.
A refeição decorreu com um certo distanciamento de Afonso, o que não passou despercebido a Graça, que soube sempre manter o nível agradável de conversação e de elegância, o que enraivecia ainda mais Afonso, como podia ser tão dissimulada.
Após a refeição dirigiu-se para o escritório da firma, onde teve uma interessante conversa com o Dr. Romão, era um velho amigo e nele depositava todos os assuntos legais. Agendaram a reunião de accionistas da Empresa para legalizar a situação de Dr. Lídia.
O mês passara-se rapidamente e tudo estava preparado para a cirurgia, que corrigiria a deficiência que tinha numa das válvulas do coração. Tinha ocupado todo o tempo disponível para fazer o tratamento especificado por seu amigo Arnaldo, tratar dos problemas da Firma de molde a que tudo se torna-se fácil para Lídia, se algo corre-se mal, tudo ficara preparado para que ela continua-se à frente dos seus negócios.
Faltava apenas dois dias para a operação, como de costume ele ia até ao seu escritório ler um pouco de poesia que tinha o condão de o acalmar, Graça entretinha-se no computador a falar com seus amigos e amigas, não soube explicar mas sentiu uma vontade louca de tentar ver com quem falava sua mulher; Dirigiu-se à sala onde ela tinha o seu equipamento e dissimuladamente, ficou observando.
- Pois meu querido terá de fazer um bom trabalho, porque é o menos que espero de si.
- O farei minha querida, pode acreditar.
Foram estas, as frases impressas na tela e não quis ver mais. Não entendera nada do que decorria mas aquele querido e querida já lhe faziam suficientemente mal. Devia estar com o tal Adónis a grande cabra.
A azáfama do hospital e os preparativos para a cirurgia faziam-no estar num estado de alerta que em nada seria conveniente ao que se ia passar. Dr. Arnaldo reparara nisso e dirigiu-lhe estas palavras:
- Afonso, por favor procura acalmar-te, isto não é o teu escritório e é, demasiado sério o que vamos fazer. Estás nas mãos de um dos melhores cirurgiões de cardiologia do mundo, tudo vai correr bem. Ele deve estar a chegar, entretanto vamos preparar a anestesia que neste caso, é uma das acções mais importantes.
- OK amigo, estou nas tuas mãos e desse tal Doutor Brasileiro; Espero que façam um bom trabalho.
- Podes crer que faremos amigo.
Começara a sentir os efeitos da anestesia quando entrou o tal Brasileiro, era ele… O Adónis da sua mulher, ainda tentou fazer algo, mas foi-lhe impossível, apenas balbuciou: - É o fim… Viu ainda que vinha de branco como os anjos, mas será um anjo mesmo?

Todos estavam felizes e as felicitações eram dirigidas sempre para o Dr. Lurus que agradecia com ar de quem se sentia simplesmente endeusado. Graça sorria-lhe agradecida, sentia que aquele homem tirara-lhe um dos mais pesados fardos, que suportara em toda a sua vida.
- Como temos tempo eu convidava a D. Graça para jantar comigo num restaurante que fica aqui perto, se estiverem de acordo; Gostava de agradecer-lhe toda a simpatia e carinho que me dispensou durante a minha estadia aqui em Portugal.
Todos concordaram, alias seria uma gentileza para com aquela sumidade da Cardiologia.

Afonso sentia-se finalmente… Uma neblina toldava-lhe o raciocínio, onde estava, que fazia ali? Sentiu um estranho bem-estar e deixou-se levar novamente.
Algumas horas mais tarde voltou novamente a sentir-se, mas desta vez com visão, os vultos começavam a ter forma e a primeiro que vislumbrou foi Graça, que lhe sorria com ternura, ao seu lado estava Lídia sorridente também, mais perto Arnaldo verificava os instrumentos a que estava ligado. Um pouco mais distante lá estava o tal anjo com olhos de serpente e barba como o Adónis, que fazia ali aquele filho da puta? Vinha gozar com a infelicidade dele?
- Afonso estou tão feliz amor. Graças a Deus tudo correu bem graças ao Sr. Dr. Lurus que fez o milagre de te devolver ao nosso convívio. Veio de propósito do Brasil aqui para te operar, estudou o teu caso com toda a atenção e salvou-te amor. Vais poder a partir de agora ter uma vida normal.
Estabeleceu-se uma estranha confusão na mente de Afonso, algo estava mal contado, mas a verdade é que estava ali numa cama e não na morgue. Já não entendia nada.
- Dr. Lurus creio que o nosso Afonso reagiu bastante bem, está tudo normal.
- Vamos ter calma, manter durante mais 24 horas todo o sistema e depois telefonem-me para a minha clínica no Rio de Janeiro tudo o que se passar, quero estar inteirado de tudo que diz respeito a este paciente, pois podem crer foi das mais difíceis operações que me aconteceu. Agradeço a D. Graça toda a simpatia que me dispensou e o convite de vir passar as minhas férias com minha esposa e filhos aqui em Portugal, em sua casa. Vocês são fantásticos a receber. Perdoem-me mas tenho de ir, o avião não espera.
Afonso ouviu e uma lágrima rolou, pela sua face pálida.

António Zumaia
Enviado por António Zumaia em 04/08/2006
Código do texto: T208856
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António Zumaia
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