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ACARICIO A PELE DO VIDRO

                                     Eu o vi saindo do espelho. Patas, focinho e dentes se aproximaram como um filho a quem dirigimos olhar de ternura. Era um animal horrendo. Meio leão, meio lobo, meio onça. Como a mulher de Lot tornei-me uma estátua de sal, embora eu fosse um homem e o olhasse de frente. Pelo sal um suor de outro sal corroia a pele, os músculos e ossos. Tive medo, pavor, angústia. Um amontoado de coisas que não cabem nas palavras. Tremendo acariciei-lhe o pêlo. Acalmou-se. Lambeu minhas mãos e olhou-me por dentro. Duas balas disparadas de uma arma, suas pupilas ultrapassaram as minhas.

                                    Do espelho – curioso! - nunca tive desconfiança. Todos os dias faço a barba. Todos os dias quantifico as rugas na pele. Arranco um cabelo cinzento. Corto os pelos do nariz e das orelhas. Observo minhas restaurações de resina e amálgama. Jamais imaginei morassem no espelho animais daquele porte. Um terrível remorso postou-se na boca. Imagine fosse meu filho ou mulher! Seriam estraçalhados por garras e dentes. Ainda bem que eles estão ali juntos. Estão no chão descansando com a respiração trancada. Eles sempre fazem de tudo para que eu, tão estressado com os problemas da empresa, não me descontrole. Ou, talvez, notaram algo diferente em meu olhar e desconfiaram. Deitaram ali suspendendo a respiração para passarem desapercebidos. Graças a Deus, não há marcas nos corpos, de dentes ou patas. Não quer a eles, não teria coragem. Esta fera rápida, como um pinto saído do ovo para a vida, tem como mãe ao primeiro movente visto. O espelho foi o ovo do monstro. O ser movente fui eu.  A mim me viu, a mim me venceu. Eles dormem como pedras no chão de pedra. Eles estão salvos.

                                        Inúteis serão as trancas nas portas, alarme, cercas elétricas. Se o espelho abriga bichos, eu devia pegar a lanterna e vasculhar os recônditos da casa. E se açucareiro escondesse abelhas africanas? E se uma orcinus orca estivesse disfarçada entre os peixinhos do aquário da sala? Olhei o açucareiro com a lanterna do carro. Apenas uns torrões de açúcar formados pela umidade da noite. No aquário, dos três peixinhos nossos, dois boiavam com olhos opacos. Falta de oxigênio, ao que parece. Alguém tirara a bomba submergível da tomada para carregar o celular. Depois esqueceu. Salvou-se apenas um. Como se fosse o culpado pelo afogamento dos outros, o sobrevivente apenas assomava os olhinhos,  sob um esqueleto de uma estrela-do-mar.Não tinham marcas de dentes nenhum dos mortos. A baleia assassina era apenas imaginação.

                                        Voltei ao espelho. Estava calmo. O ódio dos olhos roubara a textura de mãe amamentando, de réstia da janela flechando a violeta do parapeito. Um campo de papoulas, um mar no amanhecer, uma revoada de pássaros.  Estava sereno. O ódio transformado virou qualquer coisa capaz de estancar a respiração da gente por seu encantamento.  Como eles, também estanquei meu respiro. Só não me alonguei por culpa do trabalho lá na empresa. Ninguém admite atrasos ou faltas, demitem. Tirei a mão do plástico e a usei para tocar ternamente os reflexos no vidro.

                                          Graças ao carinho, a fera serenou-se. Não mais pareceu meio leão, meio lobo, meio onça. Seu pêlo deixou de ser pêlo para ser pluma. Foi transformando-se em meio pombo, meio beija-flor, meio joão-de-barro. A metamorfose me distraiu com seu ritual de feitiço, e nesta distração ele disparou olhos meus adentro.  Escureceu. Estou cego para sempre, pensei. Mas, aos poucos a luz começou a visitar-me no canto dos olhos. Dentro de mim um som de revoada, um canto calmo, uma construção de casa, um remanso. Passei a enxergar melhor do que antes. Desopilei-me dos óculos e os coloquei, com as lentes viradas para cima, ao lado dos sacos plásticos ainda embaçados.

                                       Temo por meus filhos. Temo por minha mulher. Se outro monstro fugir do espelho, que eu esteja por perto. E se eu não estiver? Para evitar a tragédia, há pouco quando fiz a barba, quando cortei os pêlos do nariz e olhei os dentes, acariciei novamente a pele do vidro com toda a ternura tesa e presa em mim. Sendo pouca ainda, espremi bem, apliquei minha força até cair uma última gota seca. Deste modo, quando o animal curvar-se a um novo bote, já estará feito meio pombo, meio beija-flor, meio joão-de-barro. Descobri o segredo para evitar reincidência.
             
                                       Eu entendo a sua preocupação, Delegado. Aliás, foi por isso que deixei o saco plástico, ainda com a umidade interna, e os óculos, virados com cuidado para cima, ali no console e liguei para o 190.  Por favor, deixem-me em casa mais um dia. Eles estão ali no chão frio, por isso esfriaram. Estão como pedras por causa do piso de pedra. Quando acordarem, carecerão de um pai para protegê-los e servir-lhes um café bem quente.

                                    Tudo bem. Já que o senhor insiste em me levar algemado, posso lhe pedir um favor? Mande seu colega ir até o quarto pegar duas colchas. Elas estão na última porta à direita, na primeira gaveta de baixo dos ternos. Peça-lhe. Com aquela branca de bordados, depois de os colocar na cama, cubra-os bem, principalmente os pés, para que não esfriem tanto por demora minha. Com a outra, a maior e de chenile negro, cubra com ânsia e ímpeto o espelho. Observe noite absoluta e cuidado absurdo. Torne qualquer translucidez inviável. Aquele espelho odeia olhos.

                                      Depois de tudo isso feito, o que mais importa. Ligue, o senhor mesmo ligue e explique à empresa o atraso. Mas tem que ser o senhor, Delegado. Se não for o senhor, eu serei demitido.
Pablo Morenno
Enviado por Pablo Morenno em 04/08/2006
Reeditado em 05/08/2006
Código do texto: T209184
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Sobre o autor
Pablo Morenno
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
42 textos (5110 leituras)
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