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SIM,ele sabe ler.

   Era um dia chuvoso, daqueles que nem dá vontade de sair de casa.E ele estava ali, na frente da banca, lendo um livro, uma revista, como de costume.A diferença é que ele não tem casa, dinheiro, roupas e é um dos vários brasileiros que ficam vagando nas ruas sem direção.
   Chegou um homem bem vestido à banca e, como ocorria na maioria das vezes, começou a observá-lo pensando o que um mendigo fazia ali.Então, perguntou:
  -Você sabe ler?
  Se ele sabe ler?Pensou...Realmente mendigos não sabem ler, é o que pensam, mas qual é o problema saber?O que há de tão estranho?Mendigo não tem história?
    Mas não foi sempre assim.Este, que agora vagava nas ruas sem direção, teve uma vida de altos e baixos.Ele sempre foi muito dedicado aos estudos, e todo seu esforço sempre foi correspondido:  tirava as melhores notas na escola, passou no vestibular de primeira,formou-se em Direito e dos vários concursos que participou todos passou.Uma pessoa tão inteligente, que nunca perdeu, deveria ter um grande senso de realismo e humildade.Mas, infelizmente isso lhe faltou.Sabe aquela época pela qual grande parte dos jovens passam, em que se sentem onipotentes?Pois é, era assim que ele era:Onipotente.Começou a ter confiança demais em si, achava que tudo que fazia, seria um grande feito, nada poderia dar errado.
    Até que um dia uma proposta milionária surgiu, parecia ser um sucesso garantido caso a aceitasse.E foi o que fez.Mas havia um problema, a proposta era considerada ilegal do país,e ela corria o risco de ser interditada pelo governo.Entretanto, sua onipotência o fez apostar tudo o que tinha nessa proposta.O possível ocorreu, o governo fechou o negócio e com ele foram todos os seus ganhos.Além disso,foi preso e teve que ficar três anos detido.Lá acabou se envolvendo com más companhias, levando-o ao caminho das drogas.Mistério era como as comprava, pois estava pobre. Perdeu sua onipotência e em seu lugar veio a depressão profunda.Da forma como agia, provavelmente não teria muitos anos a mais de vida.A cada dia piorava e através das drogas se consolava.
   Quando saiu da prisão nas ruas foi parar.Continuou piorando, deixando no passado todo seu conhecimento e capacidade que tinha para arranjar outro emprego e melhorar sua vida.Era lamentável ver sua situação.
  Felizmente mudou,a vida nas ruas lhe ensinou a viver, deixou as drogas e a depressão também.Passou a refletir sobre tudo que passou.E chegou a conclusão de como não aproveitou realmente a vida quando somente estudava: não brincou quando criança, não namorou quando adolescente, não amou quando adulto, ou seja, ele viveu, mas pouco proveito da vida tirou.Depois se drogou e perdeu três anos na prisão.Hoje ele "paga" por todos seus erros na rua,na esquina onde virou sua casa.
    Tantos anos de preparo, tanta dedicação e agora estava ali, sozinho e perdido naquele lugar deserto.Deserto relativo, pois ele não estava tão sozinho naquela esquina na qual andava e passava a maior parte do tempo, na companhia de seu livro, sua revista e de seus experientes pensamentos.
   Voltando ao momento em que o homem bem vestido lhe faz a pergunta, o mendigo virou para ele, o olhou bem nos olhos e, com uma extrema naturalidade, como se tivessem perguntado qual era seu nome, respondeu:
-Sim, sei ler.
   Dando as costas ao homem, que continuou observando-o, o mendigo voltou a ler seu livro.
 
Marcela Balbão
Enviado por Marcela Balbão em 08/08/2006
Código do texto: T211985
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Sobre a autora
Marcela Balbão
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 24 anos
23 textos (2034 leituras)
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Marcela Balbão