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SÉRIE: MULHERES DO BRASIL - A ENVERGONHADA

Tatty era uma mulher à moda antiga. Mulher é modo de dizer, porque a linda garota que me encantou naquela manhã, não passava de uma adolescente sonhadora, projeto de mulher, que trazia resquícios de saudade no seu jeito de ser.

A sua cor de pele era o que se podia chamar de moreno-petrópolis. Aquele branco, de serra fluminense, uma cor alva de pele sobre a qual o sol nunca ou quase nada beijou. Seus cabelos eram negros como a noite e seus olhos misteriosamente esverdeados como a natureza tropical.

Digo que ela era mulher à moda antiga porque ela trazia no corpo a marca da vergonha. Tatty era versada na arte de ruborizar-se e esse seu jeitinho envergonhado, meio arisco e ensimesmado, causava uma sensação gostosa, tornando-a ainda mais atraente.

Na idade em que as meninas partiam pra dentro, e conquistavam logo um namorado que pudessem exibir como seu, Tatty apenas olhava. Olhava os meninos. Um olhar respeitoso e tímido, resguardando uma certa distância; naquele não-querer querendo, que faz das meninas casadoiras um poço de sedução.

Ela tinha seus dezesseis anos, quando a divisei naquela manhã, na bela cidade serrana, em frente ao Quitandinha. Foi amor à primeira vista, paixão avassaladora, interesse desenfreado.

Ela estava com umas amigas, saindo do raio de ação dos adultos para dar aquela famosa voltinha pelas redondezas, com o fito de encontrar uns paqueras. E naquele grupo de cerca de meia dúzia de garotas travessas, Tatty encheu-me os olhos e me detive absorto a contemplá-la.

Deixe estar que estava acompanhado de dois colegas. E os dois cismaram também de se engraçar para o lado da menina. A conta já estava para lá de despropositada: seis meninas para três meninos. Com os três dando em cima da mesma guria, aí que ficava disparatado mesmo. Além do mais, logo de quem...

Coitada da Tatty. Envergonhada, tímida, reservada, e tendo que enfrentar a pressão de três marmanjos paqueradores, que estavam com os hormônios pululando. Ela, a mais sem jeito das meninas espevitadas que com ela estavam, tendo que suportar o assédio de três caras ao mesmo tempo.

Mas, para meu deleite, ela resolveu a questão muito rapidamente. Embora se notasse o rubor que tomava conta de suas faces, deixando-a com as maças do rosto rosadas e aquele jeitinho sensual que só as tímidas podem fazer, ela fez uma coisa ousada que me deixou louco de desejo. Ela cismou de fixar seu olhar em mim, não dando a mínima para os meus colegas que também a paqueravam.

Se eu exercera, realmente, algum tipo de atração especial sobre ela não o sabia ao certo. Mas, o que tudo indicava, era que ela fora racional naquele momento. Ao definir um rapaz para xavecar, descartara, conseqüentemente, os outros dois, e, com isso, diminuía o nível de ansiedade pela pressão da paquera desmesurada.

Sua tática, ao que parece, logo funcionou, pois meus amigos, percebendo-se desprestigiados, mudaram o foco de seus interesses, passando a dar em cima das outras meninas. Bom para eles; melhor para mim! Obtive a tão pretendida exclusividade sobre a Tatty. Isso não resolveu o problema da timidez, mas, por outro lado, deu-me a chance de bolar um plano mais ousado de conquistá-la.

Havia ali por perto um desses vendedores de sorvetes que, com sua carrocinha colorida, buzinava alegremente um fonfom destrambelhado, chamando a atenção sobre seus produtos. O dia estava quente. O calor se avizinhava intenso. Aproximei-me do moço e articulei com ele um plano. Ele deveria entregar um sorvete para cada menina dizendo que era “promoção da fábrica”. Deveria, porém, deixar a Tatty por último, aquela linda gracinha que despontava tímida no meio do grupo, expliquei-lhe, fazendo, todavia a seguinte observação:

- Cortesia de Alex, um admirador secreto, mas nem tanto!

O pobre vendedor – mais interessado na grana da venda tão robusta do que nos meus mirabolantes planos de conquista e sedução – fez conforme o combinado. E qual não foi a surpresa dele, e minha, quando, oferecendo os sorvetes às meninas, todas aceitaram, até porque o calor era intenso, exceto Tatty, que de tão vergonhosa, ruboresceu-se, assumindo cor facial mais intensa que o próprio sorvete de morango que lhe fora oferecido.

Naquela altura, posto que Tatty tivesse sido a última a ser contemplada com a doação de sorvetes, ela, bem como as demais meninas, já estava sabendo que quem fornecera os sorvetes havia sido eu. Ao recusar minha singela oferenda de amor, era como se ela estivesse me rejeitando. Quando isso ocorreu, meu semblante transmudou-se, meu estado de ânimo alterou-se, e vivi intensa crise que oscilava entre a frustração e alguma raiva, e a procura de não deixar transparecer meus reais sentimentos.

Recebera todo o impacto daquela situação e com o rosto descaído, fui absorvendo a rejeição primeira, como criança que embirra ante as estrondosas recusas dos adultos em fazer-lhe suas vontades. Tatty percebera meu desequilíbrio momentâneo e, reunindo forças, sabe-se lá de onde, aproximou-se de mim e tentou contornar a situação, pronunciando palavras doces e belas:

- Obrigada pela demonstração de carinho. Mas, não pude aceitar sua oferta por conta de minha saúde. Estou evitando gelados para não comprometer ainda mais minha garganta dorida.

Se havia uma característica especial dos tímidos era que eram mais sensíveis e mais sentimentais. Por conta da timidez própria, e em função do sofrimento pessoal que certas situações vexaminosas lhes provocam, os tímidos conseguem entender mais e melhor a dor dos outros. E é esse momento de angústia, por perceberem que fizeram o outro sofrer o que eles mais odeiam sofrer, que é o constrangimento, que os tímidos reúnem forças descomunais de entre sua precária condição de socialização e demonstram um afeto e um carinho que sobrepõe a qualquer outra demonstração do gênero da parte dos não-tímidos. Apenas observei:

- Tudo bem! Não se preocupe. Se assim é melhor para você, então é melhor para mim também. Não quero contribuir para prejudicar sua saúde, ao contrário, quero tê-la boazinha e boazuda!

Quando me dei conta, havia soltado o trocadilho cruel. Com certeza havia exagerado na cantada para com a Thatty. Ao prestar melhor atenção à menina, ela estava cabisbaixa, vermelha como um tomate, totalmente intimidada com meu galanteio grosseiro. Vacilei feio na grande chance que tivera de aproximar-me de menina tão doce. Mas, fazer o que? O mal já tinha sido feito. Só tive tempo de, ao notar seu afastamento acabrunhado, ir em sua direção e lhe implorar o perdão, fato que ela ignorou por completo. Estava absorta em pensamentos inseguros. Vivia momento solitário de sua idiossincrasia. Trancara-se no interior de sua frustração.

Só tive tempo de dizer-lhe, antes que se reunisse novamente com as amigas:

- Não queria te magoar. Aqui está meu telefone – e dei-lhe um papelzinho com o número – se quiser conversar comigo é só ligar. Mais uma vez te peço: perdoe-me!

Foram necessários sete dias para cicatrizar a ferida e obter coragem. Ao fim destes, meu telefone toca. Era Tatty que de pronto aceitou o meu convite para um bate-papo. Tomamos uma bela taça de sorvete de morango juntos e dei meu primeiro beijo na vida. Foi doce!
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 09/08/2006
Reeditado em 09/08/2006
Código do texto: T212361
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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Alex Guima