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RODA VIVA

                          Roda Viva

Ela é constrangedora. É uma roda que faz todo mundo girar. O corpo gira, a cabeça gira e os olhos reviram.
É o giro da tecnologia em busca da segurança. É uma porta pela qual só passa quem estiver com a cabeça vazia de más intenções.
Outro dia uma moça, depois de tirar as moedas, o celular, a caixinha de maquiagem e não sei mais o quê da bolsa e esvaziar os bolsos, estufou o peito, armou-se de coragem e peitou a dita cuja.
A danada não cedeu, não se deixou girar, empacou total.
A moça corou-se mais, olhou para um lado e para o outro, girou os pés, abriu a bolsa e retirou uma marmita, o único objeto metálico restante na bolsa.
Mas ela, a besta da porta giratória não girou!
Foi constrangedor e muito triste.
Mas giram também pelas bocas dos seguranças algumas histórias cômicas e muito divertidas. Uma delas me chamou a atenção:
Ele chegou num daqueles dias de movimento – girava dinheiro dos pagamentos aos aposentados e pensionistas. A barba mal feita, camisa de manga comprida e uma calça bem desbotada, além do chapéu de vaqueiro.
Nada nos bolsos exceto uns documentos que serviriam para resgatar o salário com o qual  pagaria algumas contas. O restante era para riscar seu nome do caderno lá na venda do Inhô. Com sorte, sobraria para tomar umas pinguinhas e, quem sabe, até uma geladinha.
Preparou-se para entrar com a consciência tranqüila mas a respiração ofegante.
Mas ela, a merda da porta da roda ou porta-roda ou roda-porta ou sei-lá-o-que, não se deixou abrir.
O que fazer? Olhou para um lado, para o outro, procurou por ajuda, por socorro, apelou para um santo, para outro, mas nada.
A fila “queria” andar, ele também, mas ela, aquela maldita roda, não o deixava dar um passo.
Quando sua cor já “desbotava”, o fôlego se retirara, sentiu a presença do segurança que tentava lhe dizer alguma coisa. Em meio ao medo e a vergonha, pode entendê-lo  balbuciando: - o sr. não tem nada de metal nos bolsos? Passou as mãos pelos dois lados do corpo e abanou a cabeça negativamente.
Aí o segurança ficou pensativo. Aproximou-se da porta e através do vidro, deu uma geral no “cliente”. Não encontrou nadinha. Meio intrigado, já ia abrir a besta da porta quando seus olhos miraram os pés do cidadão à sua frente. Ali estava, no pé esquerdo, o motivo de tanto “engarrafamento”: a botina do moço estava “costurada” com arame recozido!
Ufa! O problema estava resolvido! Resolvido? Como deixá-lo entrar se a porta não cederia? Em meio ao dilema, ouviu a voz do “vaqueiro”: - eu tiro a botina e o “pobrema” fica resolvido. Que alívio! Sentiu o segurança enquanto dizia sim com a cabeça.
E as botinas foram saindo com alguma dificuldade, deixando aparecer umas meias coloridas e as cabeças dos dedões. O moço não se importou, conquanto ele conseguisse chegar ao caixa e resolver seu “pobrema”.
Mas o resto da fila, os atendentes, os gerentes, os caixas, o segurança, todos se importaram e muito!
Várias horas depois o “chulé” ainda estava impregnado em todo canto do banco!
Quem pode esperar, foi respirar lá fora no banco da praça!
Waltinho
Enviado por Waltinho em 15/08/2006
Código do texto: T216935
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Sobre o autor
Waltinho
Sabará - Minas Gerais - Brasil, 64 anos
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