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SÉRIE: MULHERES DO BRASIL - A FINGIDA

Conheci a moça numa escola. Era professora e alguma função mais, naquela escola particular de bairro. Parece que o empreendimento educacional, e o bar, e a quitanda, e o bazar, e a carpintaria, e alguma coisa mais pertenciam à sua família. Eram portugueses. Tinham vindo para o Brasil na década de 30 do século passado, e logo foram se estabelecendo naquele lugar, subúrbio, comprando lotes, abrindo comércio, construindo casas, de modo que, em pouco tempo, dois, três quarteirões já pertenciam aos Ferreira.

Gisele era o nome dela. Moça prendada. Não só pelos dotes físicos; mas, e principalmente, pelo patrimônio que sua família começava a acumular a olhos vistos. Mas ela era gananciosa. Queria mais. A família estava ficando abarrotada de bens, mas era numerosa. Dividindo tudo aquilo, futuramente, pelos herdeiros, o quinhão que Gisele supunha ter – e ela gastava horas a fio na matemática do lucro – era menos do que ela desejava para si. E porque era gananciosa, passou a ser fingida e este se tornou, disparadamente, seu maior atributo.

Ela era uma morena, tipo mignon, cabelos lisos e negros, compridos como véu, olhar perdido como a noite escura, enviesado por devaneios que atormentavam qualquer oponente e aprisionavam os pretendentes. E a bela Gisele conhecia muito bem seus dotes físicos e usava suas prerrogativas faciais como arma de sedução.

Por conta de arranjos familiares e contatos mais amiúdes com patrícios em festas culturais e cerimônias de família, conhecera um também portuga de São Paulo, com o qual, no esplendor de seus dezoito anos, ficara noiva. É fato, porém, que isto fizera sem muita convicção de que era isto o que queria para sua vida. Mas ele era rico, seu nome Gilberto, e isso era o que importava naquele momento.

Foi um namoro e noivado diferente. Tudo funcionava por vias transversas. O namoro fora por correspondência e o noivado estava sendo por telefone. E ela, a espevitada Gisele, sustentando aquele acordo familiar que, por enquanto, era o que lhe renderia maiores dividendos. E, perante a família e o próprio noivo, ela ia sustentando, mesmo que aos trancos e barrancos, o fingimento do amor, o fingimento da paixão, o fingimento do interesse. Era um “queridinho” para aqui, “queridinho” para ali. “Amorzinho” de um lado, “paixão da minha vida” de outro. E coisas do gênero que, como dizia o velho mecânico da esquina, Seu Salazar, “quem não te conhece que te compre!”

Passaram-se os meses e a linda Gisele prosseguia sustentando o fingimento e encantando a todos que desfrutavam de seu desempenho na escola da família. Além das aulas era ela que comandava as festas e celebrações de Dias Especiais na escola. A parte mais visível de sua performance, e a que mais mexia com seu ego, eram os teatrinhos que ela promovia com a petizada, encenações estas que mobilizavam os escolares na arte da dramaturgia, mas que sempre a tinham como protagonista da história, seja Branca de Neve, A Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho ou até mesmo Iracema e Pagu. Lá estava ela, dirigindo e contracenando, num desempenho amadorístico de colocar muito profissional no bolso.

E foi num belo dia, quando a escola estava em festas celebrando mais um ano de organização como Academia do Saber, naquele longínquo bairro do Rio de Janeiro, que Gisele preparou uma linda peça para encenação com a garotada, onde ela, para não perder o costume, ocupava o papel principal.

Foi neste dia, lá pelas tantas, que apareceu na escola, um jovem mais maduro, divorciado, aparentando beirar seus trinta anos, que, observando o desempenho da moça, encantou-se com sua graça e leveza, esquecendo-se até do filho pequeno, que levara à escola, para conhecer o futuro colégio. E, este jovem, perdendo-se nos olhares românticos que dedicava à beldade, ficara totalmente fascinado por Gisele. A recíproca foi verdadeira. Pela primeira vez o pulsar do coração da moça batia amor. Todos os interesses pessoais, a cobiça, a ganância, se renderam ao despertar precoce do “amor à primeira vista” que tomara conta do coração de Gisele naquela tarde.

E, como que tomada pelo fascínio que olhares tão gulosos do rapaz que estava na platéia lhe devotava, Gisele reforçou o seu desempenho e fez a melhor interpretação de sua vida, construindo a personagem com maestria e garbo. Os aplausos foram efusivos ao final da apresentação. A criançada regozijava-se na glória efêmera da boa aceitação da peça.

Depois daquele primeiro contato, por conta dos acertos de matrícula do filho, da lista de materiais escolares e outros arranjos, Jânio não mais saiu da escola. Sempre arrumava um pretexto para fazer uma visita à instituição de ensino. Era início de outubro. Plena primavera. E o filho só seria transferido para aquela escola no ano seguinte. Mas, os meses que antecederam o fim do período letivo tiveram a companhia sagrada do interessado mancebo, que continuou a ficar de butuca em cima da farrista Gisele.

Deixe estar que o pai de Gisele estava muito doente. Com idade avançada, ela era a raspa do tacho, o velho Ferreira sofria de males múltiplos; além do cansaço do corpo, depois do intenso desgaste de tanto labor, numa vida inteira dedicada a amealhar patrimônio incontestável, mas a custo de muito sangue, suor e lágrimas.

Gisele, a fingida, conquanto fosse grata ao pai pelo patrimônio conquistado, viu na doença do progenitor, mais uma chance de não só continuar com a farsa que vinha mantendo no noivado, mas, intensificar o fingimento, para dar o bote que seu coração pedia.

A esta altura, Gisele já se tornara amiga do amor não revelado do seu coração, e gastava horas e horas num papear desinibido com o moço, na secretaria da escola. Aquilo não estava agradando em nada a uma atendente, recém-contratada, que estava prestes a encetar um namoro com um dos irmãos de Gisele. O fuxico começou a acontecer na família, gerando intrigas e futricas, as quais Gisele desdenhava, jogando mais lenha ainda na já bem alta fogueira das vaidades.

A situação ficou ainda mais complicada, quando Gisele passou a desmaiar, sempre que recebia na escola notícias do agravamento do estado de saúde de seu pai. A nova atendente começou a observar que os desmaios ocorriam sempre quando o Jânio estava perto e era em seus braços que Gisele recobrava a cor, o pulso e a consciência.

Numa dessas oportunidades, a atendente viu quando Gisele desmaiou, após acabar de receber telefonema, supostamente dando conta do péssimo estado de saúde do pai dela, e, ato contínuo, o tal divorciado, amparando-a, alojou-a em seus braços, impedindo assim que a moçoila viesse a tombar ao chão.

A atendente acompanhou o desenrolar da cena e, neste ponto, Gisele já provara ser uma verdadeira artista. Quando ela recebera o telefonema, mais que depressa se encaminhara com o telefone sem fio para a lateral da recepção, iniciando a ajeitar qualquer coisa na prateleira, enquanto conversava. Foi sustentando a conversa com monossílabos e, vindo para frente do balcão onde estava o Jânio, simulou todo o drama apenas exclamando: “- Não me fale isso de papai...” e desmaiou, em seguida, nos braços do rapaz, que se sentiu o homem mais feliz do mundo por estar no lugar certo, na hora certa.

Obviamente que o moço a recebeu gostoso em seus braços, percebendo-se um sorriso maroto de satisfação entre lábios. Elizângela, a atendente, acompanhou o desenrolar da cena, em que o rapaz se esforçava para sustentar o corpo de Gisele junto a si, enquanto Gisele se aconchegava feliz, embalada nos carinhos do secreto amante, a quem não podia chamar de amor.

Jânio olhava para a aliança no dedo de Gisele e suspirava melancólico. Confessava que tivera ímpetos, muitas vezes, de beijar a frágil donzela; imaginando, nos devaneios da paixão, que seu beijo era o que ela precisava para despertar dos desmaios. E não foram poucas as vezes que o infeliz rapaz pensou de si para si que em seus beijos apaixonados estava à cura para todos os males que afligiam a moça. Mas, ambos guardavam sentimentos secretos, ainda impronunciáveis por palavras, apenas por reverberações dos corações palpitantes de amor.

Por seu turno, Elizângela que acompanhava aquelas cenas todas, intrigava-se com as ocorrências e ia, a cada dia, se firmando como a única testemunha ocular de arroubos tão desairosos que, por certo, comprometiam o noivado de Gisele.

No início, quando ainda não estava totalmente ciente dos fatos, ela perguntou para uma das merendeiras da escola:

- Quem é este tipo que sempre aparece aí?

- É um cara divorciado que quer matricular o filho para o ano que vem...

- Mas, precisa vir tantas vezes à escola para se efetuar uma matrícula?

- E você está incomodada com isso? Que venha mais vezes! Um tipão bonitão como este, eu quero ter sempre por perto...

E a gaiata merendeira saiu rebolando e sorrindo, deixando a sisuda Elizângela ensimesmada: “Ela é noiva e fica dando bola para esse cara!” A atendente empertigou-se e tentou racionalizar a situação: “Também, nunca vi disso! Noivado à distância, feito curso por extensão, mais barato e sem pressão. Onde já se viu uma coisa dessas: ela está aqui e o noivo em São Paulo?!” E foi correndo atender ao telefone que insistia em chamar, tocar a cigarra para encerramento das aulas e recolher os diários das professorinhas do primário que já se aglomeravam no balcão.

Gisele não amava o noivo. Gilberto, o noivo de São Paulo, amava Gisele que se engraçava para o lado de Jânio, que tinha passado pela experiência de um casamento frustrado. Fôra Jânio, o intruso, o divorciado aventureiro, quem acendera uma chama nunca dantes acesa no coração virgem de Gisele. E ele correspondia afoitamente, entrando no jogo de sedução da bela morena, que fingia no noivado, mas que não sabia esconder seus reais sentimentos pelo pai do futuro aluno.

Só que quando Jânio chegou à vida de Gisele, o casamento dela já estava praticamente marcado, o oficiante apalavrado e o convite sendo estudado por um famoso designer de jóias, que recebera encomenda expressa do noivo para fazer algo jamais visto no gênero. E falou mais forte no coração e na mente de Gisele o dinheiro e seus sonhos de prosperidade, nesta ilha de fantasia que ela criara para si em seu mundo particular.

E porque a família gostava do rapaz e aprovara cem por cento o casamento, e porque ela queria o dinheiro dele e o status dele e o poder que tudo isso por certo lhe conferiria como dama de alta sociedade e participante de duas heranças recompensadoras, ela manteve o fingimento de amor até o fim e casou-se numa deslumbrante festa que movimentou o mais alto escalão da sociedade do Rio de Janeiro na década de oitenta passada. Casou-se: a favor do interesse e contra o amor.

O casamento durou exatos cinco anos. Teve com Gilberto duas lindas filhas, que acompanhavam a mãe como troféus vivos da corrida desenfreada do dinheiro pelo dinheiro, da matéria pela matéria. Não dava mais para suportar um estranho no ninho. Não havia nenhuma química entre ela e Gilberto. Era água no óleo; luz nas trevas. Não se misturavam. Procurou o divorciado para chorar suas mágoas. Não foi difícil encontrá-lo. Ele continuava rondando por perto, aproximando-se furtivamente do colégio da família, de quem até, havia se tornado sócio.

Gisele agora estava em pé de igualdade com Jânio. Era uma divorciada assim como ele. Suas filhas já tinham herança, tanto de lá quanto de cá. Ela garantira uma polpuda indenização para si, além de uma pensão mensal vitalícia. Constituíra um bom advogado, da mesma banca que sustentara José Sarney no poder, para garantir-lhe um bom acordo.

Mas Jânio estava magoado. Diferentemente da fingida Gisele, ele optara pelo amor. Preferia a pobreza sustentável à miséria da riqueza sem amor. E a relação dos dois nunca foi boa. Desde que reataram relacionamento, agora para valer, a relação foi amarga e conturbada. Durou apenas três anos e, mesmo assim, porque estava fazendo uma tentativa para a possibilidade de definição de um futuro comum. Este futuro nunca houve. Como nunca mais houve paz conjugal para Gisele.

Ao longo de sua vida ela se envolvera em pelo menos sete relacionamentos mais profundos que podem ser chamados de casamentos. Fora outros tantos ocasionais. Casamento para ela passou a ser moeda de troca. E a cada novo relacionamento, ela ia amealhando mais uns cobres no seu já abarrotado baú de prosperidade.

Nunca mais teve filhos. Hoje, Gisele é uma mulher cinqüentona, ainda bonita, mas totalmente infeliz. E para completar sua desgraça, dependente de uma boa dose etílica para sustentar sua fachada de humor. De fingimento em fingimento, ela enganou a si própria. Fingiu que era feliz com o dinheiro, mas nascera para ser feliz no amor. Sua vocação era o amor, mas ela trocou-a por um perfume francês...
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 16/08/2006
Reeditado em 18/08/2006
Código do texto: T217599
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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