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Cirandas da vida

      Nem havia dormido direito. Olhou-se no espelho e ainda viu os hematomas. Dessa vez faltavam-lhe os dentes incisos superiores. A única coisa que sempre pensava era que um dia aquela situação  mudaria.
      Olhou furtivamente para o quarto e observou o marido dormindo o sono dos justos. Não sabia se fora impressão ou não, mas achou que viu um breve sorriso em seus lábios. Dez meses de casados! Apaixonada, sempre acreditou que o amor mudaria tudo. Tentou compreender e não conseguiu. Como uma pessoa tão carinhosa havia se transformado assim? Tentava pensar, mas a cabeça dolorida não conseguia decifrar o enigma. O como e o porquê da transformação ela não entendia. Tentara dar o melhor de si, mas o marido sempre chegava bêbado, chutando os móveis e acordando-a de um sono tranquilo para surrá-la.
      Queria sentir pena de si mas não conseguia. O que lhe corroía naquele momento era não saber os motivos de tamanha brutalidade. Cansou de tentar enganar as amigas dizendo que havia caído de uma escada, acidentara-se andando na rua e coisas desse tipo.
       Resolveu mudar. Já não aguentava mais. Pegou suas roupas favoritas, aquelas que trouxera do enxoval, sua escova de dente, pente e, ainda, o cartão de Natal que ele lhe dera de presente. Juntou tudo e uns trocados que tinha economizado, olhou tristemente para os três cômodos que lhe  pareciam grandes, enxugou as lágrimas e correu  porta afora. Mudaria de cidade, arranjaria um emprego e tentaria lançar a sorte de novo.
       Quando o marido acordou, grunhiu o nome da esposa e como não foi prontamente atendido, a contra gosto, resolveu procurá-la. Inútil. A vadia fora embora e ainda lhe levara os trocados da cachaça. Ela iria pagar! Ah se ia! Tinha de tudo, não faltava nada! O armário estava cheio, a geladeira lotada... O que mais lhe faltava? Quando saiu da casa da mãe não tinha quase nada e agora abandonava tudo!!!??? Ela devia de  ter outro!-  Urrou ao pensar nisso -  Um dia a acharia e ela iria  pagar! Prometeu e jurou que viveria para isso.
       Viajou sem nenhum remorso. Jamais em sua vida havia sido tão dona do seu nariz. Como um filme, as imagens passavam em sua memória. Teve uma infância sofrida. Vivia apanhando da mãe e do padrasto que tentou, um dia, violentá-la. Quando começou a namorar, pensou que havia encontrado a solução para seus males.
       O ônibus estava chegando ao seu destino. Com o pouco trocado que tinha, telefonou para uma amiga e implorou para que pudesse ficar com ela até conseguir algum emprego.
       A primeira coisa que fez, ao encontrar a amiga, foi contar seu drama. Choraram muito, mas resolveu enterrar as tristezas em cova bem funda. Foi ao dentista, arranjou um emprego de doméstica e começou uma nova vida.
       Era uma pessoa simples, honesta e ainda guardava um ligeiro traço de beleza. Começou a namorar um rapaz que era seu vizinho. As amigas falavam que ele era trabalhador e uma boa pessoa.
       Com o passar do tempo, mesmo com medo, começou a admirá-lo. Na primeira briga que tiveram, fechou os olhos esperando o primeiro soco. Ficou assustada! Não aconteceu nada! Impossível!!! Será que estava louca? Nada de murros, pontapés ou xingos? Não!! Esperaria mais um pouco! Achava que na próxima briga aconteceria. Passou a maltratá-lo para ver como reagiria. Ele, com toda paciência, tentava eliminar todos os vestígios dos traumas que ela havia tido.
       O rapaz, apaixonado, propôs a ela que fossem morar juntos. Ela consentiu para ver no que dava. Seria um momento de experiência. Encontrava-o sempre carinhoso, e todos da redondeza elogiavam-no.
       Um dia provocou uma discussão maior.  Pensou que era o momento de ele perder a paciência de vez e começar a surra. Já se imaginava sendo massacrada e ele dormindo sossegado. Ilusão.  Sem maiores consequências, tudo havia voltado ao normal depois do impasse.
        Após alguns meses vivendo juntos, não aguentou mais. Veio o fim. Olhou-se no espelho.  Definitivamente, ele havia passado dos limites. Tinham tido uma discussão terrível na noite anterior. Juntou suas roupas favoritas, escova de dente, o velho pente e os trocados economizados. Não dava mais para viver assim.
        Voltou para seu verdadeiro lar de onde nunca deveria ter saído.

Ziza Saygli
Enviado por Ziza Saygli em 20/08/2006
Reeditado em 20/11/2010
Código do texto: T221093
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Sobre a autora
Ziza Saygli
Ipatinga - Minas Gerais - Brasil
11 textos (959 leituras)
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Ziza Saygli