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PELADA NO ATERRO

Chegou-se, então, ao impasse.  De um lado, João, morador apaixonado do bairro de Santa Teresa, e do outro, sua amada esposa Vilminha.  Em pleno domingo dia de São Jorge, extensão do feriado de Tiradentes, com tudo programado para o tão esperado futebol no aterro onde a cerveja gelada, vendida pelo amigo Waldemar, o aguarda após a “pelada” no sol escaldante da cidade maravilhosa; depois de duas semanas esperando ansioso aquele momento, já que o domingo anterior foi dia de almoço de páscoa em família, e com todos os apetrechos do jogo arrumados em cima da cama, Vilminha dá a notícia.  Genoveva vai passar uma semana com eles, e só vai embora no próximo feriado, o dia 1º de maio.  Não bastasse isso, teria que buscar a sogra na rodoviária dali a uma hora.
- Como?! Não vou.  Tenho meus compromissos, Vilminha.    Se a sua mãe resolveu    de
repente, ela que pegue um táxi e venha pra cá.  Porque eu tenho que ir buscá-la?  Não vou e ponto.

Mas diante do olhar de Vilminha, teve que mudar de idéia. Afinal, se ele se programasse, iria conseguir.    -    A velha chega às 7h.  Corro pra rodoviária, com o trânsito de domingo, chego em vinte minutos.  Pego a velha em 15 minutos, no máximo, jogo no banco do carro e saio voando pra casa: mais vinte minutos.   Digo que não tenho tempo pra fazer sala, que tenho um compromisso inadiável... e, em meio aos pensamentos, se foi.

O trânsito não estava exatamente como havia pensado. Aliás, não entendeu o que estava acontecendo.  Quem sabe todas as sogras dos cariocas tenham tido a mesma idéia: passar uma semana na casa dos genros infelizes! Só pode ser.  Há muito que não via o trânsito assim,  se bem que há algum tempo não ia à rodoviária.

Levou o dobro do tempo da previsão que fez, mas, por sorte, a velha já estava lá no desembarque com todas as tralhas prontas pra entupir o carro.  – a senhora pretende passar só uma semana?  A velha entendeu, com a pergunta, que ele pretendia que ela ficasse um tempo maior.  Quase chora.

Já no caminho de volta, depois da bagulhada devidamente embarcada, D. Genoveva resolve que não quer chegar sem levar algo para contribuir com o almoço.

– João, não vai demorar, meu filho.  É só parar naquela padaria do Bairro de Fátima. Lá eles vendem um franguinho delicioso.  Eu comprava sempre, quando morava na casa que vocês moram agora.

Pronto. Lá vinha a velha lembrando que a casa é dela.  Eu falei pra Vilminha, quando casamos, que era melhor alugar um apartamento, pois eu acabaria ouvindo muito isso. Dito e feito.
- João, meu filho, você poderia ir no sacolão comprar água de coco?  Eu sempre comprava água de coco fresquinha... quando eu morava na casa que vocês moram.
- João, meu filho, você poderia dar uma paradinha na Farmácia do Abel, pois preciso comprar o meu remédio, eu sempre comprava lá quando...?

É claro que, enquanto os minutos iam passando, João ia refazendo a sua cronometragem de tempo e isso pelo menos servia para que ele não ruminasse a história da casa da sogra.    Se deixar a velha em casa daqui a 20 minutos, e já estou dando uma margem boa pois estamos bem perto, ainda dá tempo de entrar no terceiro time.  Mas se não conseguir, já era a minha pelada.

Correu o máximo que pode; encomendou o frango, enquanto era cortado e embalado, comprou a água de coco e foi ele mesmo, comprar o remédio da D. Genoveva, apesar das considerações da velha de que não precisava, que ela mesmo ia, etc e tal.

Ao estacionar na porta da casa,  Vilminha já estava com a bolsa, as crianças e toda a parafernália pra levar pra casa da irmã, Ritinha.  – Mas Vilminha, você não me contou que iria pra casa da Rita!
- É que, quando liguei, pra avisar que a mamãe chegou, a Rita chamou a gente pra almoçar na casa da cunhada dela.
- Ah, ainda por cima esta.  Então, não vai pra casa da Rita e sim, pra casa da cunhada dela? E onde mora a tal cunhada, Vilminha?
- No Flamengo.  Alí na altura da Manchete.

Era a glória!  Não a Glória, o bairro, mas a glória de estar ali pertinho do campo, no aterro.  Era só levar D. Genoveva, Vilminha e as crianças pra casa da cunhada da Ritinha e sair de fininho, dando uma desculpa qualquer, pra tomar uma cerveja gelada com a galera.  É claro que ia ficar faltando o principal, a “pelada’;  o futebol o fazia passar a semana relaxado, enfrentando a dureza do escritório;  aquele momento em que chutar a redonda dava um prazer inenarrável, pois era como estar chutando a cara do Roberval. - Ah, o Roberval!  O mala do meu chefe não tinha o direito de colocar aquele puxa-saco pra trabalhar na supervisão. O lugar era meu por direito, são tantos anos de dedicação... mas deixa prá lá, é melhor não ficar pensando nisso agora.

O carro pára na porta do prédio da tal cunhada e João tenta se desvencilhar dali mesmo, mas  Vilminha quase tem um enfarto quanto ele cogita a possibilidade. Todos sobem pelo elevador social.  Aliás, que elevador!  João também fica pasmo com o apartamento.  Logo de cara viu o varandão que despontava para o aterro, com sua beleza e alegria. João quase imagina estar vendo o Waldemar e o seu isopor, mas era só imaginação, é claro, pois o ponto aonde ficam é bem mais adiante.  Enquanto se distrai com a vista do que, pra ele, é o paraíso, entra a cunhada da Ritinha e o marido.  É o fim do seu sossego.  João percebeu que não poderia mais sair para saborear a “loura gelada” e bater papo com os amigos, como planejara.  Teria que falar do escritório, pois o Roberval estava ali a sua frente, com um sorriso largo e um olhar que só ele, João, entendeu.

Maria Maria
Enviado por Maria Maria em 21/08/2006
Código do texto: T221764
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Sobre a autora
Maria Maria
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 51 anos
49 textos (2009 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 12:39)