Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A violência em cada um de nós

Renata desceu na plataforma, saiu pela roleta e logo estava na rua.  Olhou pra um lado, pra o outro.  Sentiu um arrepio.  Não havia ninguém.  – Não tem jeito, pensou. Seguiu o seu caminho.  Eram aproximadamente 18h30min.

Ao atravessar a rua, notou um rapaz parado, encostado em uma parede. Mal alcançou o outro lado, sentiu o movimento do moço em sua direção.  Renata sentiu o coração pulsar mais forte.  Tratou de apressar o passo, mas logo foi alcançada.
- Aí, tia, comigo é na tranqüilidade.
- Pois, não, meu filho. O que você quer? Pensou, que pergunta idiota.
- Tia, eu acabei de sair da prisão.  Num quero fazê mal pra sinhora.  Num precisa tê medo. É só mi passá a bolsa.
- Mas, eu não tenho nada de valor, só documentos.
- Aí, tia, sem papo, manda a bolsa.
- Bolsa?  Você está vendo o que eu tenho aqui na minha mão?
- Qué isso, tia?  Vai com calma que esse trabuco pode disparar!

O rapaz não esperava aquela reação, é claro.  Renata se sentia poderosa e vários pensamentos passavam pela sua cabeça. – Que tal fazê-lo ir de joelhos até aquela rua adiante?  Ou quem sabe atirar no pé dele e fazê-lo me acompanhar com uma perna só, saltitando?  É isso.

Um tiro no joelho e ela se sentiria vingada. – Não teria coragem de tirar a vida desse infeliz.  É claro que, se a situação fosse inversa, ele não pensaria duas vezes. Já ouvira histórias absurdas de vagabundos que faziam maldade pelo simples fato de sentir o poder que ela estava sentindo agora com aquela arma na mão. Atiravam ou enfiavam uma navalha em suas vítimas por não possuírem dinheiro, ou por nada terem a oferecer de valor.  A impunidade faz isso.  Faz os valores se inverterem.  A vida passa a valer nada.  É como matar uma barata; existem muitas outras por aí.

Em meio aos seus pensamentos, Renata atirou.  Com o barulho do tiro, acordou assustada. A rua continuava deserta e ela já estava chegando em casa.  O medo e a revolta a fez divagar e se imaginar na situação de posse de uma arma para aplacar a humilhação que já sentira quando levaram os poucos bens que possuía: bolsa, documentos, uns trocados para o ônibus e sua dignidade.


(apenas um desabafo pela paz de espírito perdida - 18 e 21/08/2006)
Maria Maria
Enviado por Maria Maria em 22/08/2006
Código do texto: T222568
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Maria Maria
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 51 anos
49 textos (2009 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 08:31)