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MANTENEDORES DE SEGREDOS

“A humanidade não é capaz
de suportar muita realidade” (T. S. Eliot ).


1
Hellen tinha dois anos quando chegou ao lar dos Pereira da Silva. O que foi sua salvação foi sua desgraça. No início, seu rostinho delicado era só sorriso. Com o passar do tempo, a luz que brilhava ao redor de sua face foi dando lugar a uma sombra que todos desconfiavam, mas não sabiam com certeza a razão de sua existência.

Seus pais haviam falecido num incêndio no barraco da favela onde moravam. Os bombeiros levaram o pequeno bebê para o hospital e se regozijaram na Corporação por mais um resgate vitorioso. Nenhum parente próximo reclamou a legitimidade para a tutoria. Assim sendo, após a alta, ela foi entregue a uma instituição religiosa, que cuidava de crianças órfãs, para aguardar adoção.

Os dias de Hellen naquele abrigo foram muito saudáveis, descontando o fato de não ter uma família. A cada fim de semana, porém, quando familiares de outros internos vinham visitar os seus, os olhinhos pequenos de Hellen baixavam e seu semblante carregava-se de uma tristeza incomum porque não havia ninguém para lhe ver. Esta aflição era atenuada uma vez por mês pela visita de uns evangélicos que lhe traziam balas e doces.

Até que, passados os meses, e quando acabara de completar seus dois anos, sua sorte parecia estar sendo mudada. Uma família que de há alguns meses fazia visitas esporádicas na instituição resolveu de adotar uma criança e a escolhida foi Hellen. Dava alegria ver o ar de satisfação da menina. Ela sonhava com um quartinho só seu; uma caminha só sua; brinquedos; e um pai, uma mãe e irmãos para chamar de seus. Finalmente teria um lar, uma família.

2
No princípio tudo funcionou como esperado. Realmente os sonhos de Hellen se realizaram e, embora os Pereira da Silva não fossem ricos, possuíam uma situação remediada que lhes permitia oferecer um certo conforto e segurança para os quatro filhos, contando, agora, com a pequena Hellen.

A menina cresceu sobre a proteção de um lar que lhe dava carinho, instrução, alimentação e um convívio familiar que lhe oferecia estabilidade emocional.  A pequena garotinha, ruiva e sardenta, possuía uma graça e uma leveza que encantava a todos e passara a ser o xodozinho da família, principalmente dos irmãos mais velhos que a protegiam e davam todas as condições para ela se sentir perfeitamente familiarizada.

Na época da primeira escola - alfabetização, cadernos, aprendizado de leitura e escrita, estas coisas -, Hellen demonstrou ser uma exímia aprendiz, encantando a todos com sua facilidade de assimilação dos conhecimentos, coisa a que os outros filhos da casa não tiveram tanta. Dona Martha orgulhava-se da filha, possuindo um carinho todo especial por ela, embora não deixasse transparecer, pois, como qualquer mãe, aprendera que deveria amar a todos os filhos por igual.

Além disso, na condição de caçula da família, Hellen recebia todos os mimos e agrados não só dos parentes próximos, mas também dos amigos e vizinhos que, contentes com o gesto altruísta dos Pereira da Silva, sempre arranjavam de mandar um presentinho, uma roupinha nova, sempre com um afago especial para a linda garotinha que viera trazer alegria e entusiasmo naquela pacata rua onde moravam.

Os dias foram se passando, a menina se desenvolvendo e a criança peralta e arisca que azucrinava a vida de todos com mirabolantes brincadeiras divertidas, foi ampliando seu poder de atração à medida que expunha sua inteligência naquilo que falava e fazia. O corpo infantil de Hellen começava a amadurecer e a menina franzina ia dando lugar a uma mocinha bonita e elegante.

3
Seu Julião, o novo pai de Hellen, era um homem sério e sisudo, do tipo que gostava de tudo nos seus devidos lugares e não agüentava desacertos em casa. Mantinha a ordem com mão de ferro e agia assim por conta de uma educação repressora que recebera dos pais no interior das Minas Gerais.

Trabalhador operário acostumara-se a sair cedo de casa, enfrentar o lotação, almoçar no refeitório da Fábrica e só voltar à noite para a residência, onde sempre esperava encontrar uma refeição quente à mesa, um banheiro asseado e preparado para seu banho e um bom conforto para leitura de jornais, assistir a um filme ou jogar umas partidinhas de dominó e dama com os filhos.

Era um homem caseiro, cuja rotina não se alterava muito, exceto aos sábados, quando se dava ao luxo de fazer uma caminhada pelo bairro, ir à feira comprar umas frutas, jogar uma sinuquinha no Bar do Alfredo e tomar uma cerveja com os amigos. Nada muito escandaloso, pois Seu Julião era um homem decente e não gostava de destemperos que prejudicassem a sua reputação.

Mas o homem era misterioso. Havia um ar de mistério que ensombrava o rosto deste chefe de família, que ninguém conseguia desvendar, nem mesmo sua dedicada esposa Martha que com ele já convivia há mais de vinte anos. Todavia, este jeito macambúzio de arrastar-se pela vida não depunha contra Seu Julião que era benquisto por todos que o conheciam e viam sua figura esquisita desfilar sorrateira pelas ruas do bairro.

Deixe estar que ele não era muito chegado a carinhos e melações, nem com os filhos nem com a mulher. Homem sisudo, até um pouco carrancudo, não era chegado a intimidades e exteriorizações de sentimentos, trancando suas emoções dentro de um invólucro frágil e imprevisível que era o corpo brutamontes de operário acostumado ao trabalho braçal.

Mas desde que a pequena Hellen chegou a casa, Seu Julião mudou um pouco seu comportamento. O que havia naquela menina que o modificara, não o sabemos ainda. Nem mesmo sabemos que tipo de reminiscências inquietantes, a chegada da garota fez destravar do misterioso coração de Seu Julião. O fato é que novos comportamentos deram origem a novas realidades no seio da família Pereira da Silva.

4
Além de Dona Martha e Seu Julião, moravam na casa, seus outros três filhos. Raphael, um rapaz alto, magro, trabalhador como o pai, que estava por completar a Faculdade de Administração de Empresas e preparava-se para o casamento. A família aguardava com ansiedade este primeiro grande momento a ser convivido com festas. A noiva de Raphael, Júlia, era um doce de pessoa e todos se simpatizavam com ela. O moço acabara de completar seus vinte e três anos, tinha um bom emprego, e, com o término da Faculdade, almejava uma promoção.

Além de Raphael havia a menina Monique. Uma linda morena que até então era o xodó da família, recebendo diretamente a concorrência de Hellen, desde que se agregara mais uma menina entre os Pereira da Silva. Mas, Monique se tornara uma grande amiga para a menina, cooperando no lar para a total adaptação da garotinha ao estilo de vida dos Pereira da Silva. Monique tinha dezenove anos e namorava um rapaz muito legal, tendo iniciado seu curso de Psicologia na Faculdade da cidade.

O mais moço dos Pereira da Silva era o Alexandre. Adolescente de quinze anos que vivia sempre enturmado, não parando em casa, dividido entre o colégio, o curso de inglês, as partidas de futebol e a azaração com a turma pelas ruas do bairro. Alexandre era hiper-ativo e possuía uma inteligência criadora muito grande, destacando-se em torneios de xadrez e concursos de poesia.

Além destes, ainda havia um sobrinho de Seu Julião, o Gonçalves, rapaz de seus vinte e um anos, que ele trouxera da roça, filho de sua irmã do meio, e que ele havia trazido com o intuito de dar guarida ao moço, e também contar com seus serviços na manutenção da casa, do jardim e de pequenas obras que ele estava planejando para os fundos do terreno.

Foi essa gente que Hellen conheceu e que passou a fazer parte de sua vida. Agora, a menina estava com doze anos, crescendo e vivendo uma ambiência familiar que ela nem podia sonhar nos primeiros anos de orfanato. Aqueles tempos estavam ficando distantes, mas, na memória sentimental de sua vida, um pequeno vazio anunciava-lhe, de vez em quando, que conflitos existenciais poderiam eclodir a qualquer momento.

5.
Certo dia, a calma e a tranqüilidade do lar dos Pereira da Silva veio a ser quebrada com a descoberta de um fato novo que transtornou a família. Tudo corria bem, Raphael já tinha feito os convites do casamento, Monique conseguira um estágio e, até Alexandre estava de namorico com uma menina da rua, sendo zoado o tempo todo pelos irmãos. Mas, algo acontecera com Hellen que a transformara num poço de depressão, uma morta-viva ou fantasma ambulante.

O que tinha ocorrido ninguém ainda o sabia, mas o comportamento de Hellen denunciava algo que prenunciava ser grave. A menina alegre, peralta, comunicativa, deu lugar a uma menina triste, reservada, amedrontada. As estripulias próprias da idade desapareceram e a pequena garota vivia agora se arrastando pelos cantos da casa, quando não estava trancada em seu quarto, brincando com as bonecas, coisa que já há algum tempo tinha deixado de fazer.

Em princípio houve uma preocupação desmesurada. Desencadeou-se um processo para tentar entender o que se passava e como se poderia ajudar a pequena a curar-se dos motivos de sua depressão. Em meio a tudo isso, tentativas frustradas de se achar uma razão ou razões; responsabilizar alguém pelo ocorrido; encontrar motivações físicas, sociais e emocionais para o que estava se passando com a menina. Quando interrogada, ela sempre respondia com evasivas e dizia que não era nada, que ia passar logo. Este tipo de frase feita. Mas, os olhinhos mais arregalados que de costume, e a insegurança por ela demonstrada, denunciavam que a pequena estava acuada.

Com o passar dos dias e não se chegando a nenhuma conclusão, a angústia deu lugar a uma acomodação e todos debitaram o ocorrido na conta de sua adoção e na carência muito natural, presente nesta fase questionadora da pré-adolescência. “Por certo Hellen vivera uma primeira mais profunda crise existencial, fato novo para ela, e não soube controlar suas emoções”, racionalizava Dona Martha, tensa de preocupação, mas, ainda assim, mantendo um acompanhamento da situação, não dando o caso por encerrado, mas, estando de antenas ligadas para aguardar o desenrolar dos acontecimentos.

6.
Manhã de sábado. É o primeiro fim de semana depois dos acontecimentos envolvendo a pequena Hellen. Dia de faxina geral na casa. A ajudante de Dona Martha, Elvira, uma mulata sestrosa, chegara com o gás todo, certa de que aquele seria um dia longo, com tantos quefazeres, trabalhos pesados, para o que ela deveria armar-se de um bom humor redobrado, caso contrário não conseguiria enfrentar o árduo trabalho braçal que tinha pela frente.

Começou pelo andar de cima da casa, onde ficavam os quartos e a sala de lazer e leitura do Seu Julião. Deu uma geral no banheiro, na sala de leitura, no quarto do casal e nos quartos dos meninos. Deixou por último os quartos das meninas. Arrastou os móveis, propôs novas arrumações, varreu por debaixo das camas, retirou tapetes para lavar, deu um jeito mais alegre nos cortinados e, limpando todos os vidros das janelas, passou lustra-móveis em todas as peças de jacarandá, impregnando também o ar de um perfume floral agradável.

Tudo estava transcorrendo dentro do previsto e a mulata Elvira estava satisfeita porque, como as coisas estavam caminhando, completaria sua faxina num prazo bom, ainda a tempo de ir ao cinema com o namorado. Ela era uma máquina de trabalhar. Tinha uma energia de dar gosto. E todos se surpreendiam com a sua habilidade e o jeito e alegria com que se desincumbia das tarefas domésticas.

Depois de ter deixado o quarto de Monique um brinco, Elvira começou a limpeza do quarto de Hellen. Não foi à toa que deixara este quarto por último. A menina era o xodozinho de todos. Com Elvira não era diferente. Ela também se apaixonara pela pequena desde quando a conhecera naquela casa. A faxineira sempre devotava um tratamento diferenciado para com as coisas de Hellen. Não que ela deixasse de pôr capricho no demais, ao contrário, a qualidade de seu trabalho era excelente. Mas, com relação à Hellen, ela sempre acrescentava um detalhe a mais na arrumação, um designer novo, algo que representasse este carinho especial que queria imprimir para alegrar ainda mais os dias de Hellen.

Naquele dia não foi diferente. Elvira só vira a Hellen de relance, quando, ao chegar, quase fora atropelada por ela, que saía portão a fora para encontrar-se com as coleginhas. Como o contato com a pequena fora tão rápido, não houve tempo suficiente para a faxineira verificar seu estado de ânimo.

Tudo caminhava super-bem, quando, de repente, um grito da empregada, convoca Dona Martha a comparecer com pressa no quarto da menina. A patroa, que tinha acabado de colocar um leite para ferver, pois pretendia fazer um bolo de fubá, apagou o fogo da boca que estava acessa e correu com fúria para o local indicado.

Quando lá chegou, encontrou Elvira cabisbaixa, examinando detidamente uma calcinha branca de cotton que, supostamente, pertenceria a Hellen. A moça apenas disse:

- Olha o que encontrei embolada atrás do guarda-roupa, quando puxei forte para a limpeza da parede.

Dona Martha tomou em suas mãos a minúscula calcinha e seus olhos derramaram lágrimas sentidas enquanto observava os borrões de sangue ressecado na calcinha esticada da filha.

Hellen estava com doze anos. Ainda não menstruava e Dona Martha bem o sabia, pois, assim como fizera com a Monique, também fazia com a menor, orientando-a sobre as mudanças corporais que ela teria. Mas, para banho e escolha da roupa com que se vestir a menina já alcançara certa independência, fato que corroborara para a demora na descoberta dos novos fatos que estava na iminência de saber.

7.
Não foi outra a conclusão de Dona Martha senão a que já estava no ar: Hellen havia sido violentada dentro de casa, por alguém da família ou alguém da íntima relação familiar, que tinha livre acesso a casa. O fato ocorrera debaixo dos olhos de todos, num instante em que o infrator sentiu-se livre e protegido para aplicar o seu golpe baixo sem ser notado.

A primeira providência de Dona Martha foi disfarçar sua emoção, tentando eliminar qualquer possibilidade de suspeição na mente da empregada. “O que a rua e o bairro diriam se a mulata resolvesse dar com a língua nos dentes?” Era preciso desmontar qualquer pretensão maliciosa do coração de Elvira, e Dona Martha foi artista, verdadeira malabarista do circo da vida, para tentar mudar o foco das suposições do coração da moça que olhava assustada, e com uns olhos mais arregalados que farol de Fusca, para a patroa. Ela simplesmente foi impagável:

- Danadinha essa Hellen... Quer dizer que ela escondeu de mim sua primeira menstruação? Bandidinha. Ela vai se ver comigo!

E Dona Martha fungava, e disfarçava, e tentava de todo jeito justificar as lágrimas derramadas, acrescentando aos argumentos já apresentados mais estes:

- Fico emocionada! Minha filha está ficando mocinha e eu não estava sabendo...

E pedindo a Elvira que caprichasse ainda mais na arrumação do quarto, confessou-lhe que iria fazer uma surpresa para a pequena, assim que ela chegasse da rua. E descendo apressadamente, acondicionou a calcinha num saco plástico, escondendo-o na mala de retalhos que guardava para fazer fuxicos.

Na verdade, Dona Martha estava fragilizada. Depois de esconder a prova do crime – precisava preservá-la caso fosse útil – entrou rapidamente no banheiro do andar térreo e chorou amargamente a desdita de sua pequena. Para ela estava revelado o segredo da mudança do comportamento de Hellen. Ela estava convivendo com o inimigo e sentia-se acuada, provavelmente por constantes ameaças, ao tempo em que devia também ter medo de nova investida. “Quem teria feito aquilo? Quem?” Foi a pergunta que ficou martelando na cabeça de Dona Martha pelos próximos dias. E sempre concluía: “É um monstro quem fez isso!”

Violências sexuais e físicas constituem grandes mazelas que acontecem no seio das famílias. No comum das vezes, as famílias aprendem a conviver com suas mazelas, guardando segredos dos seus percalços e trancando a sete chaves suas aflições. A verdade é que não existe espaço seguro para a reflexão das famílias, onde elas possam se expressar e curar-se de seus sofrimentos.

Dona Martha começou a aprender isso na marra. Manteria segredo da sua descoberta enquanto fosse útil para elucidar o caso e necessário para preservar a unidade da família e a reputação de todos. Não queria que fato tão escabroso colocasse a perder todo o prestígio social construído com caráter e bons serviços comunitários, bem como a honra que lhes devotavam todos os que os conheciam na sociedade catarinense.

Mas ela também não saberia conviver naquela casa sem descobrir quem era o criminoso. E esse era seu próximo passo. Tudo faria para montar as peças desse intrincado quebra-cabeças e descobrir o opressor. No momento, precisava dar um jeito de conquistar ainda mais a confiança de sua filha, e transformá-la numa aliada na resolução do problema. O segredo que Hellen guardou naqueles dias só dependia agora dela para ser revelado. Usaria de toda sabedoria para consegui-lo. E, para tanto, Dona Martha faria o que fosse necessário.

9.
Mais dois dias se passaram. Ao que tudo indicava a empregada tinha caído no ardil de Dona Martha e não espalhara nenhum tipo de boato descabido sobre os Pereira da Silva no bairro. Isto se demonstrava pelo fato de nenhum comentário inconveniente ter chegado aos ouvidos da família, ou sequer algum tipo de comportamento diferenciado ter sido notado.

Por outro lado, sempre que a mulata vinha fazer faxina em casa, Dona Martha tinha agora uma função vigilante de tirar a menina das vistas de Elvira, para que ela não percebesse a sombra densa que se abatera sobre a garota. Assim como Dona Martha relacionara o estado de ânimo da garota com a suposta prova do crime e tirou suas conclusões pessoais, Elvira também poderia fazer o mesmo e era isso que assustava a bondosa senhora.

Dona Martha estava revoltada com a situação. Havia dentro dela um sufocado grito de desespero. Sua condição de mulher clamava por vingança e punição. Sua condição de mãe e esposa era mais equilibrada e almejava apenas justiça, sem estardalhaços. Ela bem sabia que ocorrera dentro de seu lar um crime hediondo que precisava ser desvendado. Ela oscilava entre dois sentimentos antagônicos: desvendar o crime e preservar a honra da família. Faria os dois, conquanto estivesse disposta a manter segredo sobre os resultados alcançados. E enquanto estava empenhada em resolver a questão, começou a estudar sobre o assunto. Ela lembrou-se de uma palestra que ouvira na sede da Associação de Moradores do Jardim Catarina, e lembrou-se que os abusos, sejam eles violência física, sejam violência emocional ou sexual, são considerados violação e uso inadequado do poder.

Hellen era uma criança. Por certo, quem fizera isso com a menina, exercera uma grande pressão na cabeça dela, que, assustada em extremo, não soube reagir com determinação para afastar o agressor. Havia nesta miserável história a introdução dos ingredientes básicos do abuso que são: o poder, a autoridade e a hierarquia. Se todo tipo de violência e abuso é nefando e inadmissível, o abuso sexual é o que causa maior impacto na vítima, geralmente mulher, e o que mais comove a sociedade. Daí ser, também, o que mais é mantido em segredo.

Além do comportamento diferenciado em casa, quando passou a assumir uma introspecção conflitante com a sua antiga maneira de ser, tão alegre e expansiva, Hellen modificara também seu comportamento na escola, o que gerou alguns recadinhos das professoras na sua agenda escolar, indagando sobre o que estava ocorrendo com a menina, pois estava perdendo a cada dia todo o avanço socializante alcançado, tornando-se reclusa e solitária. Acrescente-se a isso, o fato de suas notas terem caído muito, deixando de ser aquela aluna brilhante que era, para tornar-se apenas uma aluna medíocre, obtendo notas tão somente suficientes para aprovação.

Naquela terça-feira à tarde, quando Hellen chegara da escola, e, após o almoço, Dona Martha foi ao seu quarto e fez mais uma tentativa de encontrar a chave que guardava o segredo no coração de Hellen:

- Filha, você tem alguma coisa para contar a mamãe?

- Não, mãe! Está tudo bem! Fique tranqüila. Eu sei o que lhe preocupa, eu vou melhorar...

- Não está tudo bem não, filha!  Você leu os bilhetinhos que suas professoras escreveram na agenda?

- Li, sim!

- E, então?! Elas também estão percebendo sua mudança de comportamento e estão preocupadas...

- Mãe, eu vou melhorar! Foi só um mal estar que me acometeu nestes dias, mas eu vou ficar boa, pode deixar!

De alguma maneira, até a pequena Hellen havia absorvido a mensagem de que, às vezes, é melhor guardar segredo de certas situações, sofrendo sozinha, do que se expor e trazer à tona os problemas, tornando-se ainda mais vulnerável e sujeita às retaliações.

Dona Martha concluiu a sua fala:

- Você sabe que sua mãe a ama muito?

- Sim, mamãe. Sei disso. Não tenho nada que reclamar e sou grata a Deus por tudo o que a senhora e papai têm feito por mim.

Agradecida pelas palavras ternas e afetuosas da filha, Dona Martha não se conteve e, aconchegando-a nos braços, acariciou Hellen de uma forma que ainda não o fizera, pois aquele abraço estava prenhe de ternura, mas também carregado de uma preocupação intensa quanto ao futuro da filha. Uma lágrima solitária teimou em rolar por sua face, mas ela tratou logo de secá-la com o ombro esquerdo, dizendo em seguida para a filha:

- Se você ainda não descobriu isso, saiba agora: sua mãe é a sua melhor amiga! Tudo o que você tiver para conversar, seus segredos e suas preocupações, suas dúvidas e incertezas, converse comigo, minha filha. Não existe no mundo pessoa melhor que uma mãe para ajudar sua filha.

Dona Martha colocou emoção nestas últimas palavras, entendendo que ali estava sua mensagem, seu recado, para tentar destravar o coração fechado da filha.

10.
Os registros estatísticos mostram que a maior incidência de abuso ocorre onde há confiança. O agressor não é um estranho, mas um parente, um vizinho, alguém que desfruta da intimidade da família e goza de certa facilidade para ter livre trânsito na casa. E olha que os registros são falhos, pois, a maioria dos casos é camuflada, porque as ameaças, os medos e o jogo de interesses não deixa vir à tona.

Com o caso de Hellen não foi diferente. Ela era uma menina muito caprichosa, que tomava conta dos seus pertences com muita responsabilidade e possuía um carinho e um cuidado com tudo o que era seu, desde suas bonecas até seu material escolar. Mas, o hobby de sua predileção era a fotografia. A pequena ruiva era muito fotogênica e fazia caras e bocas, em poses pra lá de sapecas, para as fotos que ia guardando em vários álbuns no seu armário.

Ela gostava de ficar manuseando aqueles álbuns e recordar passeios; viagens; festas de aniversário, dela e das amigas; programações culturais; eventos; shows; tudo o que ela tinha participado e que fazia questão de registrar com muitas fotos. Passava horas na cama folheando os álbuns, esquecida da vida e divertindo-se com as imagens e as recordações que elas traziam.

Seu agressor, por desfrutar de confiança e transitar livremente pela casa, descobrira seu ponto fraco e, certo dia, provocara-lhe o ego e a vaidade, pedindo que a pequena lhe mostrasse suas fotos. Foi um dia em que só estavam os dois em casa. Hellen subiu para o seu quarto e ele foi atrás. Enquanto ela vasculhava o armário e se atrapalhava na tentativa de pegar de uma só vez as dezenas de álbuns, o agressor, tranqüilamente, se refestelava na cama da menina, assumindo a posição que tantas vezes a vira manuseando suas fotos, tendo o cuidado, todavia, de achegar-se para o canto, abrindo um espaço para a menina, que era quase um convite para ela deitar-se ao seu lado. E foi o que ela fez, ingênua e inadvertidamente. Literalmente a cama estava preparada para o bote.

11.
Dona Martha foi tomada de certo alívio desde que tivera a última conversa com a filha. Além de poder dizer para a menina tudo o que se passava em seu coração, e isto lhe fizera um bem tremendo, pois até então estava angustiada com o fato de Hellen ter se trancado em seu mundo interior, algo mais naquela conversa havia lhe acenado com a possibilidade de início da solução do caso.

Deixe estar que Dona Martha estava imbuída de um espírito detetivesco a toda prova. Ela, a vítima e o agressor sabiam que um crime havia ocorrido. Mas, aquela casa era habitada por sete pessoas. Além disso, era uma casa muito bem freqüentada por parentes, amigos e vizinhos, ainda mais agora, nestes dias que antecediam o casamento do primogênito da família, quando todos estavam voltados para os preparativos. E olha que não eram poucos. Assim sendo, o universo de pesquisa e análise para destrinchar a situação embaraçosa era amplo, mas ela, pacientemente, e com perspicácia de mãe, elegera seus principais suspeitos e começara uma investigação rigorosa para tentar desvendar este mistério.

Se ela estava satisfeita com a conversa que tivera com a filha e, como dissera, também aliviada por ter aberto o seu coração, uma expressão usada por Hellen num dos diálogos, lhe chamara a atenção: “- ...sou grata a Deus por tudo o que a senhora e o papai têm feito por mim.”

A constatação de que havia gratidão no coração da pequena Hellen para com o pai, praticamente eliminava um dos principais suspeitos. É certo que Seu Julião era um homem difícil, reservado, até mesmo sorumbático, mas era um pai amoroso, embora não dado a muitas e efusivas demonstrações. Seu Julião, entretanto, na medida do possível, exemplificava com gestos e presentinhos o amor que tinha para com a família.

Mais que isso! Dona Martha não percebera nenhum tremor na voz de Hellen quando pronunciara aquelas palavras. Ao contrário, havia uma convicção pessoal e um afeto verdadeiro, que traduzia o real sentimento de um coraçãozinho tomado de gratidão.

Saber que o esposo não estava diretamente envolvido com o crime cometido em sua casa trouxera um duplo alívio para Dona Martha. Além de inocentar o companheiro, a quem amava de coração; apesar das suas idiossincrasias, a constatação lhe abria a possibilidade de dividir com o parceiro o peso do segredo que trazia dentro de si. Mas ela tinha dúvidas quanto à conveniência de tal revelação. Mais do que ninguém ela conhecia bem o marido que tinha. Seu jeito brusco de agir, seus rompantes, poderiam gerar uma gana insaciável pelo desvendamento ligeiro do caso, pondo a perder todas as investigações empreendidas por ela. Aquietou-se com a possibilidade de ter com quem conversar, se necessário, mas preferiu agüentar sozinha a rebordosa, com o fito de preservar a investigação.

12.
Um outro dado importante quando se analisa a problemática dos abusos sexuais no país é a forma com que eles acontecem. Se o ditado popular afirma que “a ocasião faz o ladrão”; no caso dos estupros e outras variações de abusos sexuais, nem sempre os crimes são extemporâneos. As análises feitas à posteriori dos eventos devidamente catalogados, mostram que, geralmente, estes crimes são premeditados. O agressor conhece a vítima, sente-se atraído por ela, não consegue conter a fúria indomável de sua libido e planeja consumar o crime estudando o comportamento da vítima, seu percurso para o trabalho ou escola, seus horários de locomoção, seus hábitos os mais variados, e tudo o mais que possa gerar informação necessária para facilitar e ocultar o ataque.

Para que seja bem sucedido em seu intento, o abusador procura estabelecer uma relação bem próxima com a vítima e, a partir desta convivência que lhe fornece informações úteis para os ardis do seu coração, planeja os detalhes de sua investida, criando situações e oportunidades, até com extrema sutileza, para não frustrar sua investida. Obviamente seus planos funcionam com mais chances de êxito porque a vítima é sempre ingênua e o agressor está protegido pela capa de amizade de que é revestido seu relacionamento com ela, estando fora de suspeição com relação a tais receios.

Dona Martha ponderava tais questões em seu coração e buscava entender o que se passara naquele fatídico dia, de duas semanas anteriores, quando, provavelmente teria ocorrido o evento. Puxou pela memória e recordou que naqueles dias ausentara-se de casa por duas tardes, quando tivera que ir ao médico e, no dia seguinte, ir à casa de sua mãe para visitá-la. Lembrava-se, agora, que nestas duas oportunidades, tivera que deixar a pequena Hellen em casa sozinha. A questão era: “Quem tivera acesso à residência na ausência dos adultos?” Responder a esta pergunta era criar condições para desvendar o crime.

Com certeza o agressor de Hellen tinha informações privilegiadas acerca da ausência dos adultos na casa e, conseqüentemente, que disporia de um tempo razoável para concretizar seu desejo sem ser incomodado. Provavelmente já tivesse elaborado o seu plano maquiavélico e só estivesse aguardando oportunidade para colocá-lo em execução. A necessidade de ausentar-se da residência por motivos médicos e de visita à mãe por parte de Dona Martha, criou todas as condições necessárias para o agressor consumar seu diabólico plano.

13.
Culpar Hellen pelo ocorrido é acrescentar crime ao crime. A menina, conquanto fosse muito bonita e já tivesse um corpo bem crescido, sequer tinha seios ou outros encantos feminis que pudessem ser elencados como forma irresistível de atração; ante as quais o agressor, sendo provocado, sucumbiu.

Ademais, a beleza estonteante de uma mulher não pode servir de justificativa para abusos de ordem sexual. Nem mesmo vestimentas sensuais, roupas sumárias, ou até mesmo flagrante nudez, podem ser tomadas por razões para qualquer destempero de agressão sexual.

O que se verifica na maioria dos casos, é que o abuso sexual se constitui em ação do mais forte sobre o mais fraco; do maior sobre o menor; do que tem status, poder ou dinheiro sobre aquele que se debate na insana tentativa de sobreviver nesta caótica selva de pedra da vida.

Preparada a cama para o bote, o agressor de Hellen foi fazendo o jogo da sedução, elogiando a menina, entrando em seu mundo íntimo, ouvindo-lhe suas histórias e aconchegando-se cada vez mais perto da ingênua garota que lhe apresentava tranqüilamente seus álbuns de fotografia, que tanto prazer lhe provocavam ao corpo e ao espírito.

Em dado momento, que não se sabe qual e que na maioria das vezes é difícil de detectar, o agressor repousou uma mão amiga sobre o corpo da menina, e aquele carinho interpretado pela vítima como espontâneo, foi recebido sem maiores preocupações, porque suposto como desinteressado à primeira vista.

Todavia, com o passar do tempo, os carinhos se tornaram mais constantes e expansivos, fato que começou a incomodar Hellen. Mas, o agressor, ignorando os protestos da menina, age irracionalmente, consumando o hediondo crime que faz murchar a flor e desaparecer seu perfume.

O abuso é cruel. Hellen chora. Hellen grita. Seu desespero é sufocado pelo agressor que insiste em consumar seu cruel intento. É típica a investida do agressor sobre a pequena, comprovando que toda a violência sexual é caracterizada como um abuso, na medida em que há uma imposição da força, da autoridade, dos atributos físicos, do poder de persuasão, do controle das variáveis sazonais e da supremacia intelectual e etária na maioria absoluta dos casos.

Hellen não resiste. Sucumbe às investidas de seu agressor e quando vai perceber está solitária e suja em seu quarto. Abandonada à própria sorte. Entregue a pensamentos aterrorizantes que a assaltam sucessivamente naquele buraco escuro e vazio, pleno de solidão, que se abre diante de si roubando-lhe a paz. O agressor impõe-se sobre ela com o uso da força bruta e da persuasão de palavras estudadas. Ela é agredida na sua integridade física e moral, e nos seus sonhos de menina brasileira, por aquele que tem condições de dominá-la pelo uso da força e pela posse do privilégio da confiança. Mas, naquele ato leviano de abuso e sedução, quebra-se o encanto, rompe-se definitivamente a confiança, formando-se um abismo intransponível entre ela e ele; entre ela e a vida.

14.
Dona Martha tem andado cabisbaixa. O segredo que guarda a consome por dentro. Ela anda engasgada com tudo aquilo, e não vê a hora de resolver o mistério. Por outro lado, ela está mais satisfeita com a evolução da pequena Hellen. Sente que a menina está reagindo e recobrando um pouco a esperança na vida com a atenção redobrada e o afeto que lhe tem devotado.

Nas suas elucubrações – e ela gastava boas horas noturnas, sob luz bruxuleante, a pensar os problemas envolvendo a filha querida -, ponderava sobre a possibilidade de ser um dos filhos o agressor da própria irmã. O fato de a menina ser adotiva e não ser irmã consangüínea poderia ser fator determinante para tal abuso; tal falta de respeito. Mas, ao mesmo tempo em que assim pensava, desistia de tais pensamentos, pois não poderia conceber que seus próprios filhos tivessem visão tão tacanha sobre a fraternidade. Além do mais, não era este o comportamento que presenciara nos dois ao longo desses anos em que fora testemunha do relacionamento deles com a irmã. Eles sempre foram preocupados com ela, defendendo a pequena nas situações desagradáveis próprias da infância, envolvendo colegas de rua e de escola. Além disso, sempre foram atenciosos e cuidadosos para com a menina, demonstrando afeto e carinho para com a irmã menor.

Ela não via qualquer razão que pudesse indicar ter sido um dos dois o agressor. Raphael estava para se casar e seria um despropósito praticar tal ato às vésperas do matrimônio, provocando tal alvoroço. Já Alexandre, adolescente que andava com os hormônios em polvorosa, estava de namoradinha e também não apresentava qualquer comportamento anômalo que o pusesse debaixo de suspeição. De qualquer maneira, não valia a pena colocar a mão no fogo por causa deles, embora a mãe o desejasse. Eram homens e poderiam perfeitamente, num momento de desatino, ter praticado ato tão desumano.

Durante estes últimos dias, a pequena Hellen oscilou entre a promessa de recuperação, por conta do apoio integral e muitas vezes silencioso, oferecido pela mãe e o medo que o segredo imposto pelas ameaças feitas pelo agressor lhe impunha. Este segredo, que foi sendo estabelecido em seu ser interior pelo medo de revelar a agressão e as conseqüências disto, pelas ameaças que sofria constantemente do agressor caso contasse o que se passara entre eles e pela pseudo-culpa que se instalara dentro dela – de certa forma Hellen, como vítima, introjetara o comportamento padrão de muitas meninas que passam por experiências semelhantes, que é de alguma maneira, acreditar que contribuíram para que o evento acontecesse e, por isso, sentem-se culpadas -, pois este segredo era a chave de tudo e a razão do pavor eletrizante que transtornava a face outrora suave e bela de Hellen.

O fato é que, passado o susto da possível revelação dos fatos nos primeiros dias após o acontecimento, Hellen passou a ser um objeto nas mãos do agressor. Cumprida a satisfação do desejo intenso que se deixa instalar dentro do coração, o objeto do desejo perde a aura de esplendor de que estava coberto. O que se passava no interior daquele bandido, que usurpara impiedosamente os sonhos da pequena Hellen, não se tem como aquilatar. E quem o poderá? Talvez, nem o próprio. Mas, por certo, ela exercia sobre ele um fascínio incontrolável ao ponto de ficar horas a espreita da menina, obcecado que estava pela realização do desejo, planejando minuciosamente o ataque à honra da garota.

Naquela tarde cruel, em que as nuvens se escureceram e o sol toldou na vida de Hellen, o agressor, após o abate da presa, impôs sobre ela o pesado fardo da rejeição. Depois de violentada, Hellen é repudiada de maneira grosseira e humilhante. Se até aquele momento o agressor olhava para a sua vítima como algo precioso que precisava ser conquistado a qualquer preço, a partir de agora, satisfeito o louco desejo, um olhar de desdém e recusa é lançado sobre a pequena que está encolhida sobre a cama.

Hellen não acompanha – e nem pode fazê-lo – o que se passa no semblante do agressor. Ela está trancada em seu mundo pessoal. Mundo desabado. Faltam-lhe fundamentos. Está sem chão. Não sabe para onde a levarão seus passos; agora trôpegos e inseguros. Só tem consciência de que algo grave e terrível se abateu sobre ela e que sua vida nunca mais será a mesma após episódio tão terrível. O choro de Hellen agora é silencioso. Suas forças exauriram-se e ela, encolhida em sua cama, dá suspiros breves e profundos de um coração descompassado e sofrido. Sabe, também, que o seu agressor ainda está por perto, pois uma pesada sombra se curva sobre seu corpo e a parede do quarto. A sombra agourenta do corvo maldito continua a amedrontá-la e ela aperta os braços cruzados em seu corpo, que está embolado em forma de concha sobre a cama desalinhada. Ela parecia estar aguardando um desfecho que ainda não podia precisar qual seria.

O agressor, em voz rascante e gutural, diz-lhe autoritariamente:

- O que aconteceu aqui é algo que só interessa a mim e a você. É segredo de nós dois que vai para o túmulo com a gente. Você entendeu?

E o agressor sacudia o corpo da menina na cama, buscando uma afirmação para a sua fala. Hellen permaneceu imóvel após os sacolejos do agressor, que continuou:

- Se você contar para alguém o que aconteceu eu mato você! Ta entendendo? Ta percebendo? Mato você, coloco num saco de lixo preto e jogo nesse rio podre que corre aí neste bairro filho da puta! Ta me ouvindo?

Hellen estava escutando tudo aquilo e um tremor perpassou-lhe o corpo. Seu coração ficara apertadinho e sua mente confusa, passando a sentir uma dor de cabeça violenta que lhe causava arrepios. Tudo indicava que uma febre começava a tomar conta de seu corpo combalido pelo estresse.

O agressor está de pé na porta do quarto. Pretende retirar-se, mas ainda olha para a frágil vítima estendida na cama. Não existe qualquer tipo de afeto dele para com ela. Foi uma violência gratuita, de interesse meramente sexual, carnal e, porque não dizer, diabólico.

Satisfeito o seu desejo, ele nem sequer tem pena da vítima. O abusador é egoísta e perverso. Quer agora, tão somente, cuidar da preservação do segredo. O segredo lhe dá imunidade. O segredo perpetua a sua condição de partícipe privilegiado das intimidades da família e não lhe impõe nenhum tipo de punição ou, até mesmo, restrição seja de acesso, posse ou desfrute da convivência da família.

16.
Dona Martha continua a sua busca intensa pelo desvendamento do crime. Mais do que ninguém, ela quer solucionar o caso, pois almeja livrar-se do agressor e criar todas as condições necessárias para a total recuperação da saúde física e emocional da filha. Os estudos que fizera do comportamento de Raphael e Alexandre não demonstraram qualquer ato falho por parte deles que os incriminasse. Estavam tranqüilos, operosos, continuando suas lides normais sem qualquer traço de ansiedade ou angústia. Raphael estava agitado por conta do casamento iminente. Alexandre ouriçado por conta da namoradinha apaixonada. Porém, tirante estes aspectos compreensíveis, o demais estava muito bem. Percebia-se, também, cada qual a seu modo, a preocupação que tinham com o estado de saúde da irmã.

Tudo indicava que o agressor era alguém que enfrentava conflitos internos de grande monta. Talvez uma sexualidade não resolvida, uma criação repressora, frustrações na primeira infância ou qualquer ação sobre sua vida que lhe prejudicara o desenvolvimento sadio da personalidade. Obviamente que praticar algo tão cruel e insano representava uma tremenda falha de caráter.

Dona Martha já tinha aprendido que, geralmente, aqueles que agem dessa forma, atacando sexualmente meninos e meninas indefesos, possuem uma história pessoal de abuso em sua infância. Porque também foram vítimas, passam a ter problemas com a sua sexualidade e, de forma consciente e até inconsciente, reproduzem um padrão de comportamento em que se tornam abusadores sexuais, como que a querer retribuir o abuso sofrido, numa tentativa tresloucada de tentar recompensar a perda de algo que nem sempre estão informados do que seja.

A mãe olhava a pequena Hellen com ar de tristeza, pois, conquanto sua recuperação física já fosse pronunciada, os aspectos que envolvem sua psique, emoção e sentimentos, seriam os mais prejudicados na formação e desenvolvimento da menina. Em todos os casos de abuso sexual perpetrados sobre crianças e até mesmo sobre adultos, percebeu-se que os danos emocionais são maiores que os físicos.

Hellen estava muito consciente acerca do que tinha lhe ocorrido. Agredida em sua integridade, percebeu seu mundo interior tornar-se frangalhos e agradecia o apoio incansável da mãe para restituir-lhe a alegria. Mas, ao mesmo tempo se deixava dominar por um sentimento dúbio de derrota e gratidão, pois se sentia um estorvo na vida de todos. Queria os afetos desmesurados da mãe, mas entristecia-se por achar que estava causando prejuízos para a família, sendo motivo de transtornos. Por isso, a menina quase sempre estava desolada.

Durante pouco mais de dois meses, Hellen conviveu direta e indiretamente com seu algoz. Foi um tempo de tortura mental, em que quase foi à loucura. Só não foi vítima de um transtorno psíquico mais acentuado, que provocasse até mesmo uma internação, porque sua mãe agiu com presteza e deu-lhe a cobertura afetiva necessária para iniciar o processo de reconstrução de sua cosmovisão.

Os danos emocionais para Hellen, como o é para qualquer vítima de abuso sexual, foram maiores que os físicos, porque após a consumação do ataque, a vítima passa a ter uma conseqüência grave em seu caminho que é o desprotegimento que sofre, vivendo situações profundas de isolamento e solidão. Isto lhe impõe fardos ainda mais pesados, torturando sua frágil mente com sentimentos de culpa e incapacidade, não conseguindo, sozinha, superar o trauma provocado pelo abuso. Readquirir a confiança num adulto é a chave para vencer a desgraça.

17.
Ao que parece a solução estava a caminho. Em seus pensares, Dona Martha sempre procurou o lado bom das pessoas. Seu coração clamava por uma solução, mas ela queria ser justa. Justiça acima de tudo. Não tinha nenhum interesse de acrescentar algum mal ao malefício já feito.

Passa-se mais uma semana. O bairro onde moram enfrenta um clima de medo e tensão. Rondas policiais se intensificam no Jardim Catarina e patrulhas motorizadas e a pé circulam pelas ruas do bairro. Corre à boca miúda que o Batalhão Especial de Combate ao Tráfico de Entorpecentes está para desmontar uma quadrilha internacional cuja base de operação no Brasil situa-se no bairro. Todos estão apreensivos. Instaura-se um clima de terror.

Qual não foi a surpresa de Seu Julião e Dona Martha quando um destacamento da polícia chega à residência deles. Estão à procura de um tal de Gochurro ou Gonçalves. Seu Julião toma um susto com as informações. É o seu sobrinho. Ao mesmo tempo em que permite a entrada dos policiais, corre até os fundos da casa, no termo do terreno, onde há o quarto cedido para seu sobrinho morar. Tem tempo ainda de vê-lo pular o muro de arrimo e escafeder-se. Os policiais o acompanham de perto. Seu Julião não sabe se eles perceberam o vulto evadir-se. Entram todos no bagunçado quarto do rapaz. Em meio a tantas revistas pornográficas, jornais, jogos de vídeo-game, cds piratas, disquetes e outras quinquilharias, os investigadores recolheram alguns objetos como: caderneta de anotações; balança de alta precisão; embalagens plásticas e tabletes vários, embalados com fitas adesivas; que Seu Julião não conseguiu identificar o que seriam.

O comandante informa que precisava recolher aqueles pertences do rapaz, pois havia uma suspeição de envolvimento dele com o tráfico de drogas. Também solicitou o comparecimento de Seu Julião com eles, imediatamente, na Delegacia de Polícia, para o escrivão de plantão tomar seu depoimento sobre o ocorrido.

Seu Julião ficou passado. Nunca comparecera à Polícia para nada. Orgulhava-se de sua idoneidade e de sua ficha limpa. Agora, por conta da solidariedade demonstrada para com o sobrinho, via sua reputação sendo aviltada. Na Delegacia, prestou os depoimentos de praxe, informando o que sabia do suspeito. Contou toda a história como ocorrera e reafirmou estar surpreso em saber do envolvimento do sobrinho com práticas tão nocivas. Alegou também não conhecer a fundo as atividades do rapaz, pois não passava o dia em casa e não exercia nenhum tipo de controle sobre seus envolvimentos e companhias por ser alguém maior de idade.

Os policiais perceberam prontamente o caráter ilibado de Seu Julião, entendendo que ele e sua família eram inocentes na história, mas, alertaram que ele deveria estar de prontidão, pois certamente seria solicitado para novos depoimentos.

Foi com um grande peso no coração que Seu Julião retornou à sua casa, dizendo de si para si que não era merecedor daquela situação lamentável porque estava passando. Ele, porém, não estava nem um pouco arrependido do que fizera, apesar da ingratidão do sobrinho. Faria de novo, se fosse necessário, pois a sua intenção era das melhores: oferecer uma oportunidade de vida e emprego para o filho de sua irmã na cidade grande.

18.
Enquanto o marido passava a tarde na Delegacia prestando o seu depoimento, Dona Martha interessou-se em conhecer aquele quarto fétido que Gonçalves nunca permitira, nos já quase um ano que convivia com a família, que ninguém entrasse. O rapaz criara ali o seu mundo particular. Fazia suas refeições, sua higiene pessoal, seu lazer, de forma solitária, comparecendo à casa principal somente em ocasiões festivas ou para manter a fraternidade. Ou, ainda, como se começa a perceber agora, às aparências.

De forma que, aquela batida policial fora muito útil para desvendar para todos, o mundo secreto de Gonçalves que, até então, era totalmente desconhecido. Quando os policiais vasculharam a quitinete, Dona Martha teve sua atenção voltada para a quantidade de revistas eróticas que o jovem acumulava em seu cubículo. Agora que estava sozinha, examinava aquela situação, com uma revista pornográfica nas mãos, e tirava as suas conclusões: “Por que eu não pensei nisto antes? Este rapaz deve ter algum distúrbio de ordem afetivo-existencial. Ninguém consome tanta pornografia em tão curto espaço de tempo. Dez meses é muito pouco tempo para acumular todas essas coleções de revistas...”

E, em assim pensando, Dona Martha jogou contra a parede, de maneira raivosa, a revista erótica que estava em suas mãos, e desandou a vasculhar cada centímetro do quarto, cada cantinho, cada gaveta e recipiente que encontrava pela frente, à procura de algo que ela ainda não sabia exatamente o que era, mas que seu coração de mãe indicava que seria necessário achar, pois representaria o elo que lhe daria condições de ligar a nova desgraça familiar à outra que só ela, a vítima e o agressor, até então, tinham conhecimento. Neste ponto, seu pente fino no quarto foi muito mais eficiente do que o da polícia que era treinada para isso...

A cada recanto vasculhado, ela se via surpresa com o que encontrava: perfumes de mulher; bolsas e carteiras; pacotes de cédulas de reais de vários valores, devidamente amarrados com elásticos; fotografias; cordões e brincos de ouro e bijuteria. O que lhe despertara com mais ânsia sua curiosidade foram as fotografias. Achara-as em vários envelopes pardos, por debaixo dos jornais velhos que o rapaz utilizara para forrar o fundo das gavetas. Foram grandes o susto e a decepção que teve ao encontrar em meio às várias fotos de pessoas desconhecidas, duas fotos de Hellen. Uma de biquíni, tomando banho na piscina da casa; e outra, somente de calcinha, em seu quarto. Provavelmente esta última foto fora tirada após a pequena ter tomado um banho, pois estava de cabelos molhados.

Para Dona Martha ali estava o elo que faltava para identificar o agressor de Hellen. “Como não pensara nisto antes?” perguntou a si mesma, enquanto saía apressada daquele lugar que já lhe despertava náuseas, e corria para sua casa. Quando lá chegou, deixou-se cair sobre sua cama e, com as fotos nas mãos, foi tomada por uma angústia tal, um transe descomunal, que nem percebera o retorno do marido que, já de algum tempo, a observava tristemente largada sobre a cama do casal.

19.
- Estás triste como eu?

A inquietante pergunta do marido trouxe, morosamente, Dona Martha de volta à realidade.

- O que foi?

- Estou perguntando se você está tão perturbada com estes últimos acontecimentos quanto eu...

- Acho que estou mais!

- Como assim?!

- Tenho outra coisa terrível para te contar. Você quer me ouvir agora ou prefere deixar para outro momento?

- Nada disso! Quero saber o que está acontecendo! Não posso deixar você ficar sozinha com qualquer carga de problemas...

- Mas isto já vem acontecendo há mais de cinqüenta dias...

- E você não me contou nada? Fala logo!

E olhando insistentemente para ela, disse:

- O que você está guardando ai em suas mãos?

Dona Martha tomou das fotos e as entregou ao esposo. Seu Julião segurou as fotos com interesse e, observando-as, olhou para a esposa com ar interrogativo, querendo saber o desfecho da história.

- Estas fotos estavam no quarto de seu sobrinho.

- Sim, e daí?

- Elas são a prova de um crime horrendo!

- O que você está dizendo mulher? Desembucha logo!

Dona Martha não suportou a dor que trazia em seu peito. Aquele tempo todo estivera incomodada com a situação. Toda a carga de pressão que sentira por manter sozinha o segredo da violação de Hellen despencara sobre ela naquele momento. Ela desabou a chorar de uma forma incontrolável, o que levou o Seu Julião a descer correndo as escadas e providenciar uma água com açúcar e um calmante para a esposa.

Quando percebera que seu estado de saúde estava melhor, aproximou-se carinhosamente da esposa e, repousando as mãos sobre seu ombro, disse-lhe:

- Quer me contar agora? Fique à vontade...

- Como você tem percebido as mudanças no comportamento de Hellen nestes últimos dias?

- A gente já conversou sobre isso! Achei preocupante, mas normal para a situação de menina adotiva que ela é... Por isso acabei não indo mais a fundo no entendimento do problema... Por quê? Aconteceu mais alguma coisa?

- A depressão porque ela passou não tem nada a ver com a sua condição de filha adotiva...

E Seu Julião a interrompeu nervosamente:

- Mas, o que aconteceu, diz logo!

- (....) Até porque sempre lhe demos todo o carinho, atenção e educação condizentes com as suas necessidades e a sua condição de nossa filha, sem qualquer discriminação com relação aos nossos filhos consangüíneos...

- Sim, com certeza, mas diz o que aconteceu!

Dona Martha respirou fundo e soltou o petardo sobre o esposo:

- Hellen foi violentada!

Seu Julião deu um passo para trás, como se tivesse recebido uma bofetada no rosto, e gritou descontrolado:

- Quem foi o filho da puta que fez isso? Eu mato esse cara!

- Seu sobrinho. As fotos que acabei de te mostrar são a prova material que me faltava para incriminá-lo. Segurei sozinha este segredo, porque queria ter tranqüilidade suficiente para desvendar o crime. Com esta ação da polícia hoje aqui em casa muita coisa veio à tona, inclusive isso. Enquanto você estava na Delegacia prestando o depoimento, dei uma geral no quarto do Gonçalves e descobri estas fotos e outras coisas mais. Ele está envolvido em muita coisa suja.

20.
Era muito para o velho Julião suportar. Passara sua vida trabalhando honestamente e procurara manter-se dentro de princípios aceitáveis que, se não o tornava um candidato ao Nobel da Paz, pelo menos faziam dele um agente da boa convivência comunitária. O sobrinho, a quem acolhera com carinho a pedido da irmã, o traia desta maneira, não só com relação às atividades ilegais, mas, também, insultando a sua própria honra ao promover tal desgraça entre os seus.

Não sabia o que fazer! Descansava agora no destino cruel que a vida reservara para o sobrinho, pois, como foragido da polícia, com certeza em breve teria notícias de sua eliminação. No dia seguinte, resolveu ligar para a irmã e comunicar o ocorrido. Descobriu que o sobrinho estava por lá, rondando a roça e deslocando-se por aquela região inóspita que tanto conhecia. Por certo achara que lá estaria a salvo da perseguição da polícia.

Mas, em seu comunicado à irmã, Seu Julião resolvera omitir a questão do abuso sexual de sua filha Hellen. Esta atitude foi o ponta-pé inicial da senda de omissão e vergonha que passou a marcar a família. Por conta da preservação da reputação e para evitar distúrbios outros que poderiam não ser controlados, os Pereira da Silva resolveram omitir a denúncia do rapaz como abusador sexual.

A questão agora estava restrita ao agressor, à vítima e aos pais da vítima. Seu Julião e Dona Martha pediram vigilância aos outros filhos quanto a aproximação da residência, por parte do agressor, mas abordaram somente a questão das drogas, omitindo a violência sofrida pela pequena Hellen.

A partir daquele momento a ferida familiar no lar dos Pereira da Silva sempre estaria aberta. Eles optaram pelo caminho da não busca da cura, pois não se sentiam seguros com a revelação do ocorrido. Resolveram manter um segredo familiar a qualquer custo. Era preferível manter a estampa de família saudável, quase perfeita, do que submeter-se ao julgamento de estranhos. Por certo, se revelassem o ocorrido, eles, os pais, seriam culpabilizados pelo infortúnio da pequena Hellen. “Onde estavam eles que não a preservaram da investida do agressor?” O casal chegava a sentir calafrios com a idéia de serem questionados de sua capacidade de tomar conta de seus filhos.

Percebia-se nitidamente que os membros da família Pereira da Silva se viram forçados a desempenhar um papel onde tudo está bem, funcionando em perfeita harmonia, quando na verdade, por debaixo daquele verniz de brilho havia a opaca realidade de uma brutal violência física e moral. Passou-se a viver no ambiente intra-muros dos Pereira da Silva uma situação de cumplicidade, onde um alto custo passou a ser pago  para manter em segredo uma situação familiar repugnante. A família não poderia ser maculada e, para tanto, o segredo precisava ser mantido.

Os dias, meses e anos foram passando. Hellen foi crescendo e se tornando uma linda jovem. Com o afastamento do agressor do convívio da família, ela foi alcançando uma libertação interior que lhe propiciava maior segurança, embora, volta e meia, fosse assolada por recaídas em seu estado de humor.  As notícias que chegavam de Gonçalves: avistado aqui e ali; perseguido acolá; preso em São Paulo; foragido juntamente com outros bandidos do Comando Vermelho; novamente preso; de novo foragido; e, por fim, morto em confronto com policiais no Morro do Cavalão; alteravam indefinidamente a saúde de Hellen.

Agora ela é uma moça de dezenove anos. Linda jovem que atraia os olhares de garotos que se apaixonavam fácil pela sua beleza e candura. Paralelamente à cura gradual de Hellen, seus pais adoeciam a olhos vistos. Envelheceram rapidamente, deixando transparecer no corpo as doenças da alma. Esta é a conseqüência na vida de quem se sujeita a enfrentar dessa forma, sina tão cruel: muitas pessoas adoecem em nome da manutenção de um segredo familiar. Percebe-se nitidamente o grande poder que a instituição sagrada da família tem de ostentar uma máscara familiar. Há uma grande disparidade entre a família que se apresenta e a família que se é e que se vive.

Hellen vai casar. Conhecera um rapaz elegante, jovem de futuro promissor, que ingressara com louvor na Escola de Cadetes do Exército e que lhe apresentara a possibilidade de uma vida segura e feliz. Hellen quer ter filhos. Sonha com isso. Hellen quer ser feliz no amor, na profissão e na vida. Formara-se em Biologia e estava prestando concurso para ingressar como pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz. Queria estudar as células-tronco e colocar o Brasil na dianteira da pesquisa mundial sobre o tema.

Ela, porém, como toda criança vítima de abusos sexuais, mantém também o segredo trancado a sete chaves dentro de seu coração. Ela sabe que os pais sabem e os pais sabem que ela já sabe que eles sabem, mas nunca se permitiram conversar sobre o assunto. Hellen continua tendo desvarios de culpa sobre o assunto. Por isso mantém o segredo. Durante a adolescência e neste início de juventude, ela puniu-se de várias formas, numa tentativa de tentar purgar-se do ocorrido.

Hellen se formou. Foi linda a festa de formatura. Os pais choraram de alegria e de algo mais. Hellen se casou. Foi um dos casamentos mais lindos do bairro. O Jardim Catarina se floriu como nunca: uma princesa pisou os solos dos sonhos do bairro pobre. Hellen mudou-se e foi viver uma próspera carreira de cientista ao lado do marido e com o cargo que conquistara com a aprovação em primeiro lugar no concurso público.

Enquanto trabalha, vive e sonha ao lado do marido, Hellen vai cumprindo a sua sina. Como todas as vítimas de abuso sexual, ela vai infligir ao marido, aos amigos, aos futuros filhos, uma grande dor. Quando estes demonstrarem afeto, ela simplesmente não vai saber reagir corretamente ao carinho recebido. Haverá sempre uma desconfiança. E esta desconfiança vai gerar inadequação. E esta inadequação vai provocar muita dor.

Há um sério risco de ela viver uma relação conjugal marcada pela violência, sado-masoquismo, frigidez, impotência. Enquanto o segredo for mantido trancado não haverá cura total. Ela precisa se abrir, desvendar-se diante de quem possa ajudá-la a realmente encontrar o seu Norte. Seu esposo terá um papel importante na sua libertação. Para tanto ele precisará sair de seu casulo e compreender que Hellen não é só uma linda mulher que tem uma cabeça complicada, mas é uma linda mulher que pode ser feliz e para tanto precisa de sua ajuda. Se ela não se abre que ele seja hábil para destravar suas emoções reprimidas.

Os Pereira da Silva são mantenedores de segredos. Não só este, mas muitos outros. Quando se opta por esse caminho, é sem volta. É segredo sob segredo. Esconderijo. Fuga. Ilusão. Dona Martha nunca soube que Seu Julião fora abusado na infância e, provavelmente, pelo mesmo familiar que também abusara de Gonçalves e o tornara este monstro. Bem como Seu Julião nunca soubera da existência de uma calcinha com manchas ressecadas de sangue e esperma, cujo exame de DNA poderia incriminar o sobrinho. Quando Hellen teve o primeiro filho, o saco plástico embalado a vácuo por Dona Martha no aparelho caseiro de embalar carnes para o freezer, saiu de seu esconderijo na mala de retalhos do quarto de corte e costura e foi para o baú de relíquias da família, que só Dona Martha tinha as chaves. Naquele dia uma pomba branca voou nos céus da Chácara dos Pereira da Silva no Jardim Catarina, embora uns caçadores estivessem a espreita, portando suas espingardas malditas.
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 23/08/2006
Reeditado em 10/03/2007
Código do texto: T223264
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Sobre o autor
Alex Guima
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