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Dêem lugar às baratas

Sentado, no banco de uma praça qualquer, observando as pessoas. Me senti em um cinema onde um filme chamado sociedade apresentava-se diante dos meus olhos.
Levanto a cabeça e enxergo um rapaz que acabava de comprar um maço de cigarro em uma banca de revista. Rapidamente, ele retira um da embalagem e olha em volta. Vai em direção a outro rapaz, também fumante, e pede fogo. Os dois começam a baforar nuvens de nicotina no ar por alguns minutos, e logo após cumprimentam-se e se despedem. Quando eles saem, vejo uma loja de eletrônicos com várias televisões na vitrine. Em uma delas, está passando um filme, onde o galã que está sentado no banquinho de um bar, puxa do bolso um cigarro e com todo charme, começa a fumar. A neblina sobe. O movimento de levar o cigarro em direção à boca ocorre de forma lenta e cuidadosa. O ator faz biquinho, assopra, e parece desenhar nuvens de alcatrão. Quando uma linda loira, aparentemente hipnotizada pela fumaça, oferece um drink ao galã. Aquele catarro preto, sintoma de quem geralmente fuma, não aparece em nenhum momento do filme.
Sem que eu percebesse, um daqueles velhos loucos que sempre aparecem na rua falando sozinho sentou-se no banco que estava ao meu lado. Carregava uma mochila, vestia uma daquelas calças de motoqueiro, e uma camisa que tinha a frase estampada na frente: "Eu estou com um idiota". Embaixo, uma seta vermelha apontando para o lado.
Mas outra coisa prendeu minha atenção. No semáforo, à minha frente, vejo um cara muito bem vestido, de terno, em seu carro importado - com direito a neón, DVD no fundo, e um equipamento de som equivalente ao de um trio elétrico. Estava puto da vida porque havia perdido o horário do trabalho, e o semáforo acabou fechando quando ele já estava em cima da faixa. Ao lado dele, parou um cidadão bem simples e aparentemente pobre, de bicicleta, carregando junto com o que provavelmente era a sua esposa. O casal cochichou alguma coisa no ouvido um do outro, e depois olharam para o lado e mostraram um sorriso com poucos dentes, mas sinceramente feliz. Segundos após, o cara do carro arrancou fugazmente depois de falar alguns palavrões, enquanto o cidadão da bicicleta enferrujada, calmamente voltou a pedalar.
Ouço alguns gritos de crianças. Olho para trás e vejo no parque da praça, algumas brincando. Uma delas, desce a escorregadeira deitada, com a barriga pra baixo, e acaba se machucando ao cair na areia. Cincos segundos se passam, a criança se levanta, dá um leve tapinha no joelho ralado, e de repente abre um sorriso sarcástico. Limpa a areia da roupa, e sobe no brinquedo de novo. Enquanto isso, há dois meninos da mesma idade, sentados em um banco, brincando com um daqueles computadores de mão. Os dois não mostram nenhum sinal de arranhão ou qualquer cicatriz. Permanecem estáticos, com os olhos arregalados para o brinquedo. O velho louco continua sentado no banco. Ele começa a correr atrás dos pombos, gritando: "Hatuna Matata! É lindo viver!Hatuna Matata! Os seus problemas, você deve esquecer! Hatuna Matata!"
A conversa de alguns velhos que estavam sentados em uma mesa de bar, chama minha atenção. Eles estão a discutir sobre política. O mais exaltado deles, está acusando todos os políticos de serem desonestos. Alguns minutos depois, esse mesmo velho se despede dos amigos e começa a caminhar. Ainda na praça, durante o percurso, o velho observa a carteira de umjovem qualquer caindo do bolso. A ação que se espera de alguém que acabava de proferir xingamentos contra pessoas desonestas é de que iria imediatamente avisar a pessoa sobre o ocorrido, para que este não sofresse nenhuma perda. Mas o que ocorre é o contrário, o senhor olha para os lados com desconfiança, e fugazmente põe a carteira no seu bolso e volta a caminhar. Dessa vez, com passos ligeiros.
Um grupo de quatro meninas passam rapidamente por mim. Uma delas conta que teve uma séria discussão com a mãe de manhã, pois queria um celular novo e a mãe se negou a dar. Segundo ela, além do aparelho ser antigo, a câmera só tinha a capacidade de armaze nar 150 fotos. Do outro lado da rua, há um senhor de idade, muito mal vestido, revirando o lixo. Ele pega um saco com restos de comida e segue seu caminho.
O velho louco deixa os pombos em paz. Ele volta ao seu aposentado, com um ar de observador.
De repente levanta-se e vaiem minha direção. Antes disso, abaixa-se para pegar uma manga que havia caído no chão. Senta-se ao meu lado e sussurra no meu ouvido: "Meu nome é Bond. James Bond. Você quer um bombom?". Consigo me livrar do velho louco. Agora, estou prestes a presenciar uma cena comum em nosso país. Uma mulher, com aparência de estrangeira devido a cor da sua pele, caminha apressadamente segurando uma sacola na mão, o que dá a entender de que ali tem algo de valor. Um rapaz negro começa a segui-la. A mulher toma ciência disso, e começa a mostrar uma feição de pavor. O negro finalmente a alcança e colocando-se em frente à mulher, diz: "Eu acho que você não se lembra de mim, mas eu fui o médico que te atendi quando você chegou no hospital acompanhada do seu marido, já desacordada".
O velho louco revira toda a sua mochila, como se estivesse tentando achar alguma coisa.
Começo a observar as pessoas com seus carros, paradas no semáforo. Vejo um senhor de idade atravessando a faixa, quando o sinal abre. Nem três segundos depois, o taxista já começa a buzinar. Acelera o carro para intimidá-lo, obrigando-o a correr para o outro lado da rua. O taxista passa gritando algumas palavras de carinho, do tipo: "Seu velho filho da puta, você já devia ter morrido seu idoso de merda". E no fundo do carro podia-se ver um adesivo no qual havia escrito: "Jesus é o meu pastor".
O velho louco acha o que estava procurando. Pega um alto-falante de sua mochila e caminha em direção ao meio da praça, onde havia uma espécie de palanque. Coloca o objeto na sua boca e começa a discursar: "Terráqueos, meu nome é Shaolin e eu sou um ET. Vim aqui com a missão de dar um comunicado. Vocês devem dar lugar às baratas e aos vermes. Pois eles sim, saberão usar o mundo com mais sabedoria!".
Rodrigo Serrano
Enviado por Rodrigo Serrano em 25/08/2006
Reeditado em 25/08/2006
Código do texto: T225232
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Sobre o autor
Rodrigo Serrano
Aracaju - Sergipe - Brasil
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Rodrigo Serrano