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D. Zica vai ao baile
Tere Penhabe

Para quem não se lembra, D. Zica é aquela senhorinha conformada com a minguada aposentadoria, sempre de bem com a vida e perita em contornar as agruras que lhe são propostas pelo destino.
Tudo estava indo até muito bem, quando de repente ela começou a sentir-se muito só, e comentando com duas novas amigas maravilhosas que ela arrumou, Laíde e Fifi, elas aconselharam-na a arranjar um namorado.
Na verdade foi Laíde a incendiária, pois Fifi tudo o que fez, foi querer um para ela também.
Claro que isso seria feito pela internet, pois assim não correriam riscos, não precisariam se expor, a menos que aprovassem de antemão o pretendente.
E com endereços anotadinhos, lá foi D.Zica para o site de relacionamentos. Estava eufórica! Era como escolher um namorado na vitrine de um shopping, melhor que isso, como diria o falecido: "só merda enlatada".
Por falar em falecido, era bom que o novo pretendente fosse bem mais velho que ele, afinal, ele era alguns anos mais jovem que ela e lhe dera muito trabalho, mas também não tinha como ser muito mais velho que ela, porque senão com certeza estaria com os dois pés na cova, afinal, ela também não estava muito longe da farabuta.
-Ficar velho é um desastre!_ pensava D.Zica enquanto clicava nas páginas do site, onde se apresentavam os mais variados espécimes de maridos, amantes, acompanhantes, enfim, para todos os gostos e aspirações.
De repente, algo lhe chamou a atenção...
_ É este!- pensou com o coração batendo palmas.
Um senhor alto, grisalho, com um sobretudo escuro, muito bem apessoado e um olhar daqueles de fazer virar os olhinhos.
E toca a procurar os óculos para conferir a peça.
_Hummm parece bom...vejamos o perfil: 1,78 m, 78 kg (essas são as medidas de todos os homens expostos nos sites da net) cabelos grisalhos, olhos escuros (que pena que não são verdes...) viúvo, mora sozinho... opsssssssss que meleca é essa aqui...?
No quadro de observações, constava algo que fez D. Zica se estressar com o pretendente. Dizia que desejava encontrar mulheres que pagassem suas próprias contas.
_ Mas é o fim dos tempos! Além de eu aturar esse velho rabugento, ainda vou ter que pagar minhas próprias contas? Aaaaaaaaara, mas nem a mando de Lampião, que eu escrevo para um estrupício desses!
D. Zica era daquele tempo em que os homens ainda eram cavalheiros, que mesmo que sempre andassem com os bolsos vazios, não ousavam dizer isso à queima-roupa, como dizem hoje esses grosseiros que se oferecem na internet.
Mais umas três páginas e outra paradinha... e mais umas trinta páginas com dez ou doze paradinhas... estava difícil.
Mas não impossível. Ao final de cento e doze páginas, D. Zica encontrou o que procurava: senhor distinto, boa apresentação, divorciado, queria fazer contato com mulheres em condições similares para namoro ou amizade.
Ela até telefonou para Laíde e Fifi para contar as novidades. Já escrevera a ele, já chegara a resposta, iriam ao Baile no Sírio Libanês no próximo sábado.
As amigas em polvorosa quiseram saber como ele era. Ele se chama Airton e é muito bonito, respondeu D. Zica, vira a foto e o descreveu com precisão homérica: olhar penetrante, cabelos bem cortados, terno e gravata, e usava chapéu côco.
_Chapéu côco?- foi a mesma pergunta que as duas amigas fizeram... e D.Zica em seu entusiasmo acrescentou que já vira, da janela, passando em sua rua muitos homens com chapéu côco, na verdade não muitos, mas já vira sim, claro que sim.
_ Invejosas!- foi o que ela pensou enquanto desligava o telefone.
E imediatamente ligou para o salão de beleza marcando hora pra tudo, ia dar uma geral mesmo, afinal, não pretendia ficar na tentativa não.
E deu. Nem ela mesma se reconheceu no espelho quando chegou o final de semana. Sorriu ao pensar que as amiguinhas do salão haviam conseguido transformar um abacaxi em uma verdadeira uva... na verdade uva-passa, mas das boas!
Ao chegar no Sírio Libanês, toda pomposa do alto do seu salto oito, porque mais que isso ia comprometer a sua elegância, ela lembrou-se inconformada de algo imprescindível que ela não perguntara ao tal pretendente... mas no mesmo instante viu descer de um taxi, um senhor que lhe dirigiu o maior sorriso do mundo. Teria sido muito bem vindo, não fosse a bengala, os passos trôpegos e a grande dificuldade de locomoção... _Arre, onde eu fui amarrar meu burro?- pensou D.Zica, ao mesmo tempo que ouvia seu nome ser pronunciado pelo cavalheiro.
Pra correr não dava... oxalá os deuses do Olimpo abrissem um buraco no chão para ela poder entrar, mas que nada... bem que ela achava que esses deuses eram só farol da literatura, porque teve que encarar o velhote mesmo, não tinha a menor chance de sair ilesa dessa tocaia.
E muito mal o cumprimentou, já foi logo disparando:
_ Você me desculpa, mas a sua foto... não... perdão, mas você é muito... muito... muito diferente do que está na foto.
E ele, solícito como o quê:
_ Ah sim, mas é claro, está aqui, veja... _ e puxou a bela foto do bolso do paletó, cheirando a naftalina. E já foi explicando que aquela foto havia sido tirada no dia do seu segundo casamento, exatamente no dia em que fizera quarenta anos, mas já fazia muito tempo, ah como o tempo voava, quarenta e cinco anos já haviam se passado...
D. Zica procurou um lugar para sentar-se, ou certamente cairia. Não poderia ser indelicada e sair imediatamente, mas faria isso na primeira oportunidade, e queria chegar em casa logo, pra poder convidar Laíde para o almoço do dia seguinte. Ia preparar-lhe o prato preferido, o que ela mais gostava, mas temperado com arsênico...

Santos, 06.09.2006_23:00 hs
www.amoremversoeprosa.com
Tere Penhabe
Enviado por Tere Penhabe em 06/09/2006
Código do texto: T234446

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Sobre a autora
Tere Penhabe
Santos - São Paulo - Brasil, 61 anos
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