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Os olhos do monstro


A vernissage é um sucesso, galeria cheia, os intelectuais e aquele povo que as pessoas normais chamam de gente esquisita andam pra aqui e pra acolá apreciando meu trabalho. E (que vexame, se vissem!) a artista saindo à francesa, pegando o elevador e sentando levemente assanhada, num banquinho da praça em frente, para chorar. Motivo?Você, Teo, só você. Você conversando ali num corredor com seus novos melhores amigos, mostrando um belo (?) quadro de uma sobrancelha arqueada encimando um olho verde, onde eu tentei representar o inferno. Ah, se eu pudesse falar com você agora.... E dizer o que se passa aqui.

Sendo você escritor e eu, pintora, é de esperar que nossa amizade fosse povoada de elementos artísticos, vinho seguido de beijos vermelhos, poesia e textura, tinta, metáforas, cor. E foi mesmo. Teve o contorno ora suave ora violento das coisas que você pensava e eu tentava transformar em imagem, enquanto a gente respirava amor, o amor da amizade. Mas agora acabou. E você, domingo passado, deitado no meu sofá e claramente sem agüentar levantar-se e dar um ponto final nessa loucura, me pareceu muito mais um poeta bêbado do que o rapaz que eu sempre admirei.

Agora, estou lembrando um livro velho achado na sua estante, uma adaptação de Otelo, em que o autor (ou a tradutora) dizia: “... mas o monstro de olhos verdes se apossava do seu coração...”. Não lembro o que vinha antes, nem o que vinha depois. Sei apenas que eram as frases principais, as frases que levavam aos fatos, e essa descrição do ciúme (Otelo, lembra-se?) era apenas um parênteses,finda em si mesma. O ciúme representado como um monstro de olhos verdes. Também ele é assim, se infiltra como uma coisa sem importância entre as coisas que realmente conduzem os fatos, um mero aposto numa frase mais digna de nota, e vai corroendo, roendo... Fica grande... E a história acaba em punhaladas.

Teria sido o que nos destruiu? Você sabe, várias coisas me incomodam. Me incomoda ter meu tempo com você subtraído devido à presença de terceiros, incomoda ver você a cada dia mais bonito na presença deles, mais feliz do que quando vivia comigo, incomoda seu desinteresse, sua indiferença, incomoda eles serem bons.... Mas, dentre todas essas lembranças e constatações, apenas uma realmente me devora: você se esqueceu de mim.

Não se altere, não se desdobre em desculpa: tá na minha frente, é realidade, é fato. É fato que você não mentia quando dizia amar,mas que também não ama como eu amo, é fato.

Ando tão estranha. Agora, começo a entender os velhos. Quando eles falam coisas aparentemente sem sentido para nós, ou quando a nostalgia deles fala tanta coisa indizível, ou quando eles vomitam verdades tão duras e tão verdadeiras que eu, no meu viço, na minha juventude, recuso-me a entendê-las. Mas são verdades.

Agora, acumulando alguma experiência, só posso agir como eles, arrastando uma alma velha nesse corpo jovem e tão volúvel. Não me acuse de dramática, Teo. Arrasto sim uma alma cansada num corpo jovem, e isso é uma contradição barroca, e contradições assim pesam. Eu quero (e sempre quis) é a homogeneidade, a segurança das coisas fortes e tranqüilas, das coisas que não estão, mas são. Assim é o meu amor.

Não sei se já lhe contei isso, mas, às vezes, eu gosto de refletir sobre a maneira como eu amo, sobre o meu amor. É cordial. Talvez, prime por um desprendimento de tudo e entrega à outra pessoa. Sem perder minha dignidade, eu me coloco à tua disposição, trago o doce que você gosta, pergunto aonde nós vamos. E presto atenção ao que você fala, boto fé demais no que promete, e acredito quando diz amar.

Sim, acredito. Mas também sei a quantidade e a natureza desse amor, que é impulsivo e fraco. Não como o meu, que, de tão forte, me faz vergonha. Talvez por isso eu viva a escondê-lo. Talvez por isso me chamem fria. Mas aqui dentro é pura emoção.

Meu amor é também livre. Eu te deixo ser o que você quiser. Quanto a mim, sou o que posso ser, o que consigo ser, o melhor possível.

Então, o sistema comigo é esse: amor sólido, forte, livre. E eu queria também que fosse leve. Mas não pode ser porque eu, humana, tenho defeitos, e sofro sim daquele monstro de olhos verdes, o ciúme.

E falo nisso com certa naturalidade. Afinal, admitir os defeitos talvez seja o primeiro passo para extirpá-los. Digo até mais, sobre o ciúme: talvez ele seja em terreno amplo e vasto, como o são todas as coisas complexas. Assim como o amor. Se existem diversas formas de viver o amor, talvez haja, também, muitas maneiras de vivenciar e sentir o ciúme.

Algumas pessoas fazem escândalos, promovendo formas baixas de prender os pares à força.  Isso é veneno para o amor. Meu ciúme, eu o guardo exclusivamente para mim, desta forma, evito tornar-me intragável e mal vista. O lado negativo é que ele, monstro muito grande pra caber aqui, acaba por azunhar e entupir meu peito, e assim me maltrata, à proporção em que morro por perceber que você não se importa – ou mesmo sabe- de nada disso. E rezo para que você perceba- mas é inútil. E quero que você me queira- mas é ridículo.

 Aí me escondo. Olho minha pessoa no espelho. Não sei o que sinto. Tão triste finalmente entender, quando eu era para você, você era para mim porque não havia  inguém melhor. E que você realmente ama, mas é pouco. E que a tudo isso se dá o nome de decepção e se supera, ao longo da vida. Esquecer você será bom para mim, mas eu não quero.

Você sempre abre a boca e diz que me ama... Eu ainda acredito. E eu te amo também, infelizmente. Mas, se eu falar, vão dizer que eu sou exagerada, que estou apaixonada, que eu sou dramática... Só eu sei o que ando vendo... Melhor voltar lá pra dentro.
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 10/09/2006
Código do texto: T236772
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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
44 textos (139782 leituras)
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Jéssica Callou