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AUSÊNCIA (4ª PARTE)

O pão seco de manhã cedo. O cheiro de café. Olhar o relógio. O ônibus atrasado alguns minutos. Não ter o que dizer. Não querer escutar. Um dia de silêncio é tudo que ele precisa, mas ainda há três dias de trabalho.
Um homem ama uma mulher. E vice-versa. Dor e gozo em um mesmo copo. Beber até o fim. É preciso.
Ela segurou o celular um pouco antes de dormir. Pensou em ligar. Afinal até anteontem os dois eram só amor e paixão profunda. Eram desejo. Eram prazer. E ela ainda queria sentir aquela mão perscrutando cada centímetro de sua pele, e aquela boca roçando as suas coxas, aquele olhar querendo um algo mais, o tudo que ela tem. Mas a manhã veio e o sono foi tão parco, que tudo parecia doer. Sofrer de amor em tempos tão pragmáticos é patético. Mas se era amor mesmo, por que morreu tão de repente? Quem nunca sofreu de amor, levante a mão!
"If you leave me now, you’ll take away the biggest part of me. Oo, oo, oo, no, baby, please don’t go!". Uma canção do Chicago passa a ter sentido. Ele pensa em desligar o walkman, mas falta muito para chegar ao trabalho. As casas, lojas, pessoas passam pela janela do ônibus. E o tempo parece cada vez mais longo. Toca o celular! É ela? Não. Reinaldo avisa que está com dengue e, por isso, não vai com ele ao futebol das quartas-feiras. Hoje é quarta? O tempo está invisível hoje.
O difícil é a hora de voltar atrás, de pedir perdão, de confessar que errou. Alguém tem de ceder. Amar é ceder um pouco a cada dia. O encaixe só é perfeito com as arestas aparadas. Ainda dá tempo. Basta uma ligação. Pelo menos uma tentativa. É dizer: eu errei, me deixe tentar de novo! É simples. Dói um pouco. Mas o amor exige que se baixe a cabeça às vezes. Os ditames do amor são rígidos, mas são recompensadores e, numa hora dessas, o orgulho se torna uma barreira inútil. Vai estourar a barragem e as águas do amor vão inundar, lavar, arrastar o orgulho para bem longe e, com o orgulho, vão embora a solidão, o medo e a incerteza e o dia vai clarear de repente.
Pegou no celular.
O nome dele.
O nome dela.
A distância não existe mais. Uma tecla. E o dia volta a se movimentar.


 

Francisco C
Enviado por Francisco C em 13/09/2006
Reeditado em 07/11/2006
Código do texto: T239173

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Sobre o autor
Francisco C
Porto Velho - Rondônia - Brasil, 48 anos
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Francisco C