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A Cartomante

Andava apressadamente, de forma desconfiada, olhando para os lados e para trás. Não gostaria que ninguém soubesse aonde estava indo. Apertava os olhos a cada vez que voltava à mente a terrível cena do marido cochichando ao telefone, com voz melosa.
- Como podia ele, o seu namorado de infância, o pai dos seus filhos fazer isso com ela? - pensava à medida que as lágrimas escorriam. Não entendia porque ele procuraria outra mulher. Repassava minuciosamente item por item, tudo o que fazia para tornar o seu casamento bem sucedido. Quem mais se preocupa em deixar pronto o café, os chinelos arrumados ao lado da cama e sobre a mesma o roupão e a toalha todos os dias antes que ele chegasse do trabalho? - Ah não, suas amigas e as esposas dos amigos do marido certamente não o faziam! Elas estavam mais preocupadas em deixar as unhas bem feitas, em ir ao salão ao menos uma vez por semana e coisas do tipo. E não era ela a tal que abria mão da vaidade pelos filhos e marido? - pensava com resignação à medida que conferia a numeração dos casebres enfileirados.
- Aqui! - Falou para si mesma quando avistou o número 100 da Rua Prefeito Miguel Pereira. Um certo receio tomou conta dela quando imaginou o que poderia ouvir da Cartomante. Fora num momento de desespero que pegara o telefone da Cartomante Madame Jurema no jornal. Ao ler o anúncio realmente lhe parecera que era tudo o precisava no momento. "Trago o seu amor de volta em 7 dias." Certamente era disso que precisava, afinal quando um homem tem um amante é porque o seu amor era destinado a outra e ela deveria tomar uma atitude. Ela não era mulher de ficar sentada placidamente esperando o marido chegar em casa e
comunicar-lhe que a estava deixando. Afinal de contas, já tivera a sua parcela de desafios e soube enfrentá-los muito bem. Era uma guerreira. - pensava decidida.
FInalmente tocou a campanhia da casinha amarela e segurou a respiração nos segundos que se seguiram, até o momento em que uma moça sorridente abriu-lhe a porta.
- D. Ana Maria? - perguntou-lhe a jovem em tom de certeza.
- Sim, respondeu a mulher nervosa e com voz vacilante.
- Madame Jurema está a sua espera. Aceita um chá, água, café?
- Não, obrigada. - respondeu imaginando que com o estômago embrulhado do jeito que estava, não seria uma boa idéia beber algo.
A jovem seguiu para um corredor fazendo-lhe um sinal para que a seguisse. Ao pararem em frente a uma porta fechada, observou curiosa e excitada um símbolo desses que se vê nessas lojinhas místicas da moda. Mesmo não sabendo identificar o que era, achou bonito e tentando convencer-se, decidiu que certamente ela seria uma boa pessoa que lhe ajudaria a resolver o seu problema.
A moça deu leves batidas na porta e a abriu avisando que a cliente das 15:00 havia chegado. Curiosa, ela ficou na ponta dos pés tentando ver por cima da jovem com quem ela falava.
- Entre, Ana Maria. Eu a estava esperando.
A mulher entrou um tanto desconfiada, enquanto observava as paredes repletas de quadros de caboclos, santos e prateleiras com imagens de entidades que sequer sabia que existiam. Num canto da salinha iluminada, caixas de velas de cores diversas, fumo, fitas coloridas, moedas e mais uma série de miudezas diversas. Ana Maria finalmente olhou para a pessoa sentada à sua frente. Era uma senhora de aproximadamente 40 anos, longos cabelos negros, dezenas de pulseiras e roupas coloridas. Sim, definitivamente ela parecia uma cigana. - pensou.
- Bem, madame - começou gaguejando - eu vi seu anúncio no jornal e achei que talvez a senhora pudesse me ajudar. Sabe, eu sou casada há 25 anos e agora descobri que meu marido está tendo um caso. - completou tentando segurar as lágrimas, sem ser bem sucedida.
A mulher calmamente a observava em silêncio. Pegou um caderno cheio de rabiscos, uma caneta e perguntou:
- Qual o seu nome completo e data de nascimento?
- Ana Maria Kolihaush. Nasci em 17 de dezembro de 1961.
- Hum. E por que você acha que seu marido tem uma amante, Ana?
- Por...porq...porque eu o ouvi cochichando ao telefone na semana passada para que eu não o ouvisse e falando de um jeito muito carinhoso, do jeito que ela fala comigo. - respondeu explodindo em lágrimas.
- Certo - assentiu a mulher pegando um baralho de tarô meio gasto. Calmamente começou a embaralhar as cartas e pediu que ela cortasse em três partes, da direita para a esquerda, enquanto lhe entregava uma caixa de lenços de papel.
- Desculpe-me por ficar assim. Sabe, são 25 anos de casamento. É duro ser trocada por uma mulher mais jovem que não tenha que dedicar o seu tempo aos afazeres domésticos e aos filhos. - explicou chorosa, tirando conclusões precipitadas sobre a suposta amante do marido. É muito fácil ser amante quando se tem todo o tempo do mundo para se cuidar...
A cartomante assentiu com a cabeça distraidamente enquanto virava as cartas concentrada.
- Olha, realmente eu vejo aqui uma mulher de forte influência sobre seu marido e que não é você. Mas me parece ser uma mulher bem mais velha e que não gosta de você.
- Mais velha?? - falou Ana Maria surpresa. - Se ela não gosta de mim então eu conheço! Deve ser a chefe dele. Eu sempre disse que ela estava interessada nele e que não gostava de mim e ele sempre dizia que eu era paranóica.
- Sim, realmente é alguém muito próximo, mas não consigo ver que tipo de relação eles têm. E te digo mais, ele vai fazer uma viagem com essa mulher em breve.
- Ah não! Aí já é muito abuso! Mas aí fala quando isso vai acontecer? Ele vai me deixar, não é mesmo? Eu sabia! - complementou a mulher descontroladamente.
- Não, não vejo separação nas cartas. Mas ele vai viajar com essa mulher. Além disso vejo que ele tem planos. Ele está planejando alguma coisa, um grande evento ou pode ser a própria viagem. - afirmou a cigana com ar de mistério.
- Como assim? Ele espera que eu aceite essa situação numa boa? Ah, não. Assim não é possível. Ele vai viajar com outra, faz planos com ela e espera que eu fique em casa esperando? De jeito nenhum! E eu tinha tantos planos... Sabe, o meu aniversário é no final da semana e eu esperava dele, no mínimo, um jantar romântico, um presente especial. Belo presente eu vou ganhar!
A cigana completou a leitura do tarô falando sobre cuidados com a saúde, parentes, sobre a vida profissional do marido, mas Ana Maria já não lhe dava ouvidos. Como ela poderia ouvir algo mais depois de saber que era traída?
Após a consulta, ela foi para casa sentindo-se a última das criaturas. Como sempre, arrumou o jantar, separou os chinelos do marido, o roupão, a toalha e prostrou-se na frente da tv, olhando sem prestar atenção a um desses programas de auditório vespertinos. O telefone tocou.
- Alô! - disse tentando disfarçar a voz de choro e o fungar.
- Olá, mamãe. É a Cris! Tudo bem por aí? - disse uma voz alegre e jovial.
- Olá, filha. Tudo bem, sim. E com você?
- Estou bem. Escute, eu entro de férias da facul na sexta-feira e no sábado estarei aí para o seu aniversário, ok? Dessa vez fui aprovada em tudo direto e poderei sair de férias mais cedo.
- Que bom, filha. Ao menos você pensa em mim. - acrescentou com amargura na voz.
- Aconteceu alguma coisa, mamãe? Que jeito de falar! Todo mundo te adora! Bem, tenho que desligar. Mande um beijo pro papai e pro Rick. Até mais. Beijo! A filha pra variar tentava de maneira displicente fazê-la sentir-se melhor. Se pelo menos alguma das vezes em que ela perguntava de algo aconteceu ela efetivamente esperasse para ouvir, seria bem mais fácil. Mas ela estava novamente sozinha com seu drama. Algum tempo depois, Ricardo, o seu filho adolescente chegou da escola e trancou-se no quarto ligando o som alto. Alguns minutos depois, Oscar, o marido, entrara em casa como se nada tivesse acontecido, beijou-lhe a testa e foi tomar o seu banho. Ela não sabia o que fazer, que atitude tomar e enquanto decidia, os dias se passaram. O sábado chegou e junto com ele o seu aniversário.
Havia uma discreta agitação com os dois filhos e o marido juntos em casa. Mas Ana Maria, alheia a tudo, sofria sozinha com o seu drama interior. Nada mais importava. Que diferença fazia se era o seu aniversário se a sua vida perdera o sentido? - se perguntava todos os dias a esposa.
No final da tarde, depois de muita insistência a filha lhe convencera a ir levá-la para comprar roupas. A mãe fora sentindo-se mortificada, mas achava melhor deixar o marido e o filho vendo o jogo na tv e sair um pouco daquele martírio que era olhar para o marido adúltero que a tratava normalmente, sem um pingo de remorso.
Ao voltar para casa, deparou-se com algo que não esperava. A casa estava lotada de amigos e parentes e uma bela festa-surpresa havia sido cuidadosamente planejada. Ana Maria chorou incontroladamente pela surpresa e bem mais pela tensão que sofrera durante todos aqueles dias. O marido a abraçara carinhosamente e disse em seu ouvido o quanto ela era uma excelente mãe, esposa, amante e amiga. Ela não compreendia como ele pudera ser tão cínico e maldoso!
Durante a festa a filha a chamou para juntar-se à ela e a avó. A sogra de Ana lhe dava medo. Era uma mulher extremamente segura, autoritária e altiva.
- Eu estava contando à vovó como foi difícil planejar tudo isso em uma semana.
Eu e o papai ficávamos cochichando no telefone praticamente todas as noites escondidos de você sobre o andamento da festa. - Como assim? - pensara Ana, confusa. Então era com ELA que ele cochichava? Ah, mas ainda tenho a história da mulher mais velha para esclarecer. A cartomante fora muito certeira nos comentários. Devia ser verdade sobre a outra mulher. Ainda mais por ter percebido os olhares lânguidos da chefe do Oscar para ele.
- Eu acho um absurdo uma mulher dessa idade ter festa surpresa. Isso é coisa para adolescentes, o que não é o caso da sua mãe há muito anos. - falou a sogra com mordacidade. - Que mulherzinha amarga - pensou a nora. Nunca fica feliz por mim. Nunca!
O telefone tocou e Oscar atendeu. Era um sobrinho dando a notícia de que o seu tio, irmão da sua mãe, havia falecido devido a um enfarte fulminante.
o marido, depois de acalmar a mãe comunicou à esposa:
- Querida, terei que viajar com a mamãe por uns dias para resolver as questões do meu tio. Não levarei mais do que uns 3 ou 4 dias. É, quem diria que o meu tio iria morrer tão cedo!
- Graças A Deus! - disse a esposa aliviada por enfim, entender tudo.
Kilya Stella
Enviado por Kilya Stella em 14/09/2006
Reeditado em 21/09/2006
Código do texto: T240171
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Sobre a autora
Kilya Stella
Curitiba - Paraná - Brasil, 42 anos
27 textos (2504 leituras)
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Kilya Stella