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A CURA

"Hoje acordei com os pardais". Thamine acordou e este foi o seu primeiro pensamento que lhe ocorreu, antes mesmo de fazer sua oracao matinal, bem como acender UM cigarro, como era de seu costume. Antes diria que ela nao acordou com os pardais, e sim que "acordou os pardais". Coitados... nem sequer foram testemunhas de sua eterna noite insone; melhor dizer que foram os morcegos e as estrelas as testemunhas daquela noite mal dormidaSe bem que eu poderia dizer que estrelas ela viu, muitas estrelas (mas nao as do ceu que brilham la em cima) mas sim estrelinhas de uma dor de cabeca insuportavel que lhe roubara a noite de sono... e de sonhos.
Levantou-se lastimavelmente devagar, olhos queimando e maos frias... ainda teve tempo de tirar sua temperatura - nossa, 39,5 C - E, estava mal - precisava ira ao medico - pensou e tremeu de um subito calafrio, e se dirigiu ao banheiro, desanimada, se arrastando.
Abriu o chuveiro, e o som da agua caindo lhe parecia dizer que a consequencia dessa febre talvez seria aquela tosse que a acometera ha uns cinco dias. Realmente ficou preocupada, pois de ontem pra hoje a tosse ficou mais carregada, pigarreante e dolorida.
Ja nem conseguia precisar ha quanto tempo nao ia ao medico, comecou a se irritar, pensou em acender UM cigarro - Riu de si mesma: Que besteira, estou no banho - ao mesmo tempo lhe ocorreu uma vaga lembranca da ultima vez que esteve ali acompanhada, e sozinha, agora tentava relembrar dos bons momentos em que ela e seu amor se banhavam juntos, os dois naquele pequeno espaco. Uma ponta de excitacao teimava em querer aparecer, ao mesmo tempo que a febre lhe tirava o animo de querer continuar aqueles pensamentos... -- Que solidao meu deus. Um grito de contrariedade ecoou no banheiro -- fechou a torneira e se enrolou na toalha e novamente seus pensamentos se perderam, enquanto fitava o espelho embacado, ia riscando qualquer coisa, e disse pra si mesma: -- O reflexo da nebulosidade --
Se arrumou com muita indisposicao, e impelida pela propria indisposicao se encaminhou para o hospital, a fim de se consultar
Sua fobia de agulhas e aquele cheiro caracteristico lhe fizeram correr um frio pela espinha, mas fortemente deixou-se picar, para ser tirado o sangue para os exames
No exame clinico o medico nao coseguiu constatar qualquer indicio de enfermidades -- Acalme-se, talvez seja uma virose, essa epoca do ano e comum. Em todo caso, aguardemos os resultados dos exames --
Passou na farmacia, comprou antitermicos e analgesicos, sombria, se dirigiu ao trabalho, ligou o som do carro, olhou o cigarro, pensou e acender UM -- nao, melhor nao -- o medo de ser algo relacionado a isso a impedia de fumar naquele dia. Queria voltar pra casa, se jogar na cama e passar o dia inteiro trancada no quarto... Mas o profissionalismo a fez desistir da ideia; e foi trabalhar. Antes de subir pra sua sala, comprou um sanduiche, mas sem fome, jogou ao lado do computador.
Via seu reflexo na tela do computador, e nao conseguia concatenar as ideias... estava preocupada com a tosse... e o peito doia.
Cumpria a risca suas obrigacoes no trabalho, apesar de nao ter o mesmo entusiasmo dos dias normais, e olhava o relogio e os segundos se arrastavam.
Fim de expediente, sentiu uma melhora em relacao a parte da manha, ate pensou em acender UM cigarro, olhou para o sanduiche ao lado do computador, teve fome, mas nao teve vontade de comer. Jogou o lanche no lixo e saiu... tinha de passar no hospital para pegar os resultados dos exames.
Esperou meia hora (que lhe pareceu uma  eternidade) e o medico a chamou. Estava ansiosa, tensa, preocupada e esperando pelo pior e ouviu do medico -- Nao se preocupe, nada ha de errado com os exames, pelo contrario, tudo anda bem... Mas pelos sintomas, tome apenas os remedios recomendados, evitara assim a indisposicao e nao se esqueca de retornar caso se sinta mal. No mais, cuide-se, evite o cigarro (o que conseguiu fazer fielmente durante todo aquele dia), nao tome friagem, nem gelado, repouse, tome bastante liquidos, e em dois dias estara melhor -- e saiu do consultorio e foi pra casa.
Entrou em casa, nao entendia aquela dor, aquela indisposicao, febre e tudo mais, ja que clinicamente nao havia nada consigo. Suspirou, deitou-se no sofa... chorou... irritada, olhou o telefone ao seu lado... se sentiu sozinha e triste, mas o que a inquietava nem tanto era a saudade ou a indisposicao, mas sim o fato de nao ter medido suas palavras naquela ultima vez em que esteve acompanhada, se sentia culpada por ele ter ido embora...
Tossiu e sentiu novamente o pigarro e a dor no peito, mais fortes agora.
Olhou o telefone novamente -- Alo??? Por favor, me desculpe... foi ciumes... entenda... eu te amo! (continou falando um tempo, se controlou... -- desligou o telefone. olhou o relogio, correu pro banheiro, seu coracao apertava. Tomou um banho, se arrumou, voltou-se e sentou no sofa, seus olhos olhavam pra porta da sala como se ela fosse apenas um vidro transparente. Nao, ela nao via a porta, via suas culpas, seus lamentos, ao longe... Suava frio e tentava nao chorar. Quase caiu de susto ao ouvir a campaninha, e viu a macaneta da porta girando devagar.
La estava ele... se sentiu bem, se aparou nos seus bracos e um beijo acompanhado de um giro nos calcanhares  nao lhes deixaram dizer palavra
Se amaram... Se perdoaram...
Acendeu DOIS cigarros. Estava curada!
Alexandre Andrade
Enviado por Alexandre Andrade em 14/09/2006
Cˇdigo do texto: T240299
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Sobre o autor
Alexandre Andrade
Estados Unidos, 40 anos
2 textos (52 leituras)
(estatÝsticas atualizadas diariamente - ˙ltima atualizašŃo em 07/12/16 16:21)
Alexandre Andrade