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Fato Cotidiano 1 - O Fim de uma Família

Cheguei em casa as sete da noite. Minha esposa estava sentada no sofá, fumando. O sofá era velho, verde musgo. Já foi um outro verde um dia. Tinha umas partes rasgadas, não era nada confortável sentar naquele sofá. Ela vestia uma camiseta regata que fedia a dona-de-casa. Um shorts velho, com um chinelo velho completavam os trajes de minha adorável mulher. Não sei com que intenção ela passava um batom barato e penteava os longos cabelos quebrados e oleosos.

Joguei meu paletó em cima de um monte de coisas que tinha na mesa da sala. Não era difícil que o prato em que jantei macarrão ontem a noite ainda estivesse por lá. Se sujasse meu paletó não tinha outro para ir no batente amanhã. Coloquei a pasta no chão e entrei na cozinha.

Fedia à minha janta. Tinha um prato feito com ovo, repolho, feijão, arroz e batata. Depois de tantos anos cheguei à conclusão que minha família gosta do cheiro do meu peido. Tinha um copo (só um copo!), de limonada na geladeira. Guardanapo de papel era coisa que só tinha quando alguém pegava um monte no fast-food perto de casa. Isso não acontecia há alguns meses.

Empurrei as coisas com cuidado na mesa. Consegui um espaço para sentar e comer. Estava abafado e o apartamento todo fedia a cigarro. Não demorou duas garfadas até que alguém viesse me interromper. Lar, doce lar. O fardo que me acompanhava há dez (longos) anos levantou e, com o cigarro na mão esquerda e o cinzeiro na direita, sentou do meu lado e falou: “precisamos conversar”.

Várias respostas passaram pela minha cabeça neste momento. “Precisamos nos separar”.“Precisamos nos livrar um do outro”.“Pode ficar com o apartamento e as crianças”.“Não me enche o saco”.“Vai a merda”.

Não olhei para ela para evitar qualquer uma delas. Continuei comendo e ela começou. “Não agüento mais esta vida. As crianças reclamam o dia inteiro que não tem nada pra fazer. O telefone está cortado há mais de uma semana. Todo dia vem um cobrador com um cheque devolvido na mão. Você precisa fazer alguma coisa”.

É impossível descrever o que senti naquele momento. Parei por uns segundos. Senti que estava dobrando o garfo. Tomei um gole de suco. Peguei o garfo torto e antes da comida chegar até minha boca ela começou a gritar. “FALA ALGUMA COISA. VOCÊ FICA ASSIM PORQUE NÃO É VOCÊ QUE FICA AQUI O DIA INTEIRO. ESTES PESTES NÃO PARAM DE BRIGAR. EU NÃO AGUENTO MAIS, NÃO agüento mais, não agüento...”.

Depois disso ela caiu e começou a chorar. Senti pena dela. As duas crianças olhavam assustadas pela porta do quarto e choravam.

Levantei e fui até meu quarto. Abri o armário e a gaveta caiu. Sentei na cama. Acendi um cigarro. Fui até a porta e olhei para fora. A cena era todos no chão e um coro de soluços com a televisão falando sobre a inflação de fundo.

Coloquei uma camiseta, um tênis e um calça velha. Peguei minha carteira, meus cigarros e fui em direção à porta. Escutei quando ela perguntou aonde eu ia. Passei no boteco, tomei uma pinga e fui até o terminal Barra Funda. O primeiro ônibus para o Amapá saía à meia-noite. Comprei uma passagem e fui sentar na plataforma dez para esperar. Eram onze horas quando sorri pela primeira vez depois de pelo menos sete anos.
Eder Capobianco (Antimidia)
Enviado por Eder Capobianco (Antimidia) em 17/09/2006
Reeditado em 03/10/2008
Código do texto: T242437
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Sobre o autor
Eder Capobianco (Antimidia)
Assis - São Paulo - Brasil
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