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JOÃO-DE-BARRO CARA DE PAU

    Desde que passei a morar em uma chácara, nas proximidades de minha cidade, num pequeno recanto onde um riacho sereno desfila aos fundos, em numa gleba de meio hectare mais ou menos, onde reformei uma velha e pequena casa - tipo casinha de roça – sem forro e fogãozinho de lenha, porém aprazível e confortável, passei a conviver com um novo e ao mesmo tempo antigo mundo, onde as sem graças construções de pedras empilhadas, as ilusórias e frias luzes de néons, os emaranhados e destoantes fios das redes elétricas, os dissonantes ruídos dos veículos apressados, deram lugar à vida natural, festejada por pássaros, borboletas, formigas, além da orquestra noturna dos insetos notívagos em meio ao desfilar das nuvens por entre as luas.
    Certo dia, no final da tarde, já quase ao ocaso do sol, quando estava de enxada nas mãos terminando alguns canteiros para o cultivo de ortaliças, me deparei com uma agitada revoada de pássaros bem perto de mim. Eram aves de diversas espécies que cruzavam o espaço em rasantes espetaculares, provindas de todos os cantos. E ao aguçar um pouco mais a vista, notei que seus alvos eram pequenas aleluias que se libertavam de algum cupinzeiro em busca da liberdade e da proliferação da espécie, comuns nos meses de agosto e setembro.
    Eram chupins, passos-pretos, andorinhas, freirinhas, tesourinhas, sanhaços, saíras de coleira, as deslumbrantes saíras sete cores, siriris, cambacicas, sabiás-pocas, sabiás larajeiras, bem-te-vis entre muitas outras espécies que não consegui identificar.
    Foi uma festa nos céus... E o mais interessante era o controle do tráfego aéreo entre elas que não se chocavam, mesmo quando vinham em direção à mesma presa.
Ao mesmo tempo percebi que eram poucas as chances das aleluias, em seu difícil voar, tentando ainda desenrolar suas asinhas... Afinal, há poucos minutos estavam adormecidas no cupinzeiro e mal conseguiam bater suas asas moles e despreparadas. Algumas se salvavam pela grande quantidade, mas jamais pela astúcia.  A festa, no entanto, se intensificava e cada vez maior era o número de aves que chegavam para o repentino e abundante banquete.
Esqueci completamente o que estava fazendo e fiquei totalmente embevecido por aquele acontecimento, deslumbrado pelo desenrolar das ações da natureza naquele instante.
    Curioso, observando o transitar das pequenas aleluias, passei a procurar pelo cupinzeiro que as expedia... Fui caminhando, campeando o olhar por entre os arbustos e gramíneas, até que pude observar, um pouco longe, o foco de onde se desprendiam...
    Fui aos poucos me aproximando e quando estava há poucos metros do local, me deparei com uma cena surpreendente: Bem na boca do buraco de onde saíam as pequenas aleluias aos borbotões, um casal de João-de-barro, sem o menor constrangimento, capturava suas presas antes mesmo dessas poderem decolar.
Comiam compulsivamente, revezando-se nas bicadas, sem o menor esforço.
    O interessante é que quando me viram, achei que fossem bater em revoada... Ledo engano. Apenas deram uma olhadinha pro meu lado e depois se entreolharam como se dissessem um para o outro “ preocupa não, é aquele bicho inofensivo que mora naquela toca estranha”, e continuaram a devorar seus manjares sem a menor timidez.
O que também me intrigou foi que nenhuma outra ave teve a mesma idéia, ou se atreveu à mesma atitude, e enquanto elas disputavam no ar, correndo riscos, desgastando-se, para conseguirem poucas presas, o casal de cantores simplesmente se deliciava com os petiscos para eles nada concorridos.
    Aos poucos, o sol foi se escondendo, a noite foi tomando posse do espaço, as aves foram se recolhendo e o cenário foi se desfazendo.
    De súbito, caí em mim mesmo, retomei a enxada na qual me escorava sem me aperceber, e retornei ao lar, pensativo à cerca da natureza e suas múltiplas e intrigantes intercorrências.
    E dentre as lições que tive naqueles poucos instantes, uma ficou gravada: Dentre os pássaros, com toda certeza, um dos mais inteligentes e caras-de-paus são os alegres cantores, e os únicos a construírem seus ninhos em alvenaria, o inseparável casal de João-de-barros.
Tião Luz
Enviado por Tião Luz em 17/09/2006
Reeditado em 12/11/2012
Código do texto: T242519
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Tião Luz
Poços de Caldas - Minas Gerais - Brasil
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