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As Vidas de Suzy

Suzy era definitivamente uma das pessoas mais populares de quem se tinha notícia na região dos lagos. Além de ser uma bela professora de educação física, tinha uma invejável disposição para fazer o que fosse preciso. Por isso, nunca fora um problema o fato de morar em uma pequena cidade e lecionar em três outras. Em cada viagem, uma nova aventura se descortinava diante dos seus olhos. Em cada cidade, um namorado diferente. Para cada namorado, uma nova personalidade. Sim, isso mesmo. Em Jardinópolis era gótica, assim como Lobus, o seu namorado depressivo que passava as noites visitando túmulos, sempre em vestes muito pretas e com um rosto que mantinha um ar pálido. Em Santa Cruz do Norte era uma perfeita “cowgirl”, assim como Santana, seu namorado filho de fazendeiros e que vivia às voltas com rodeios, criação de gado e exposições de animais. Em Novo Mundo era uma jovem intelectual, assim como Patrick, seu namorado. Filho de cientistas de renome, o rapaz dedicava sua vida aos estudos e pesquisas sobre as propriedades curativas de uma certa planta só encontrada nesta cidade. E em Rio Real, não precisava ser ninguém. Lá poderia descansar, pois era seu lar, onde não namorava ninguém. Lá Suzy passava boa parte do seu tempo com Roberto, seu único amigo de verdade, que assistia contrariado ao seu esforço em ler sobre as mais novas descobertas científicas do mundo da medicina, sobre inseminação artificial de novilhos e poesias mórbidas que falavam de dor, morte e sofrimento. Fazia tudo isso com a naturalidade de uma aluna dedicada que estudava as matérias escolares. Após longas e acaloradas discussões o fiel amigo desistira de convencê-la do absurdo em que estava envolvida. Suzy não o entendia. Buscava somente a felicidade tão cantada pelos compositores e versada pelos poetas.
O final de semana do seu aniversário se aproximava mais uma vez e dessa vez não saberia como contornar o fato de que todos os namorados gostariam de tê-la ao seu lado e de fazer algo especial. Não conseguia decidir com quem gostaria de estar nessa data tão importante.
Enquanto assistia à partida de Tênis, esporte favorito do Roberto, decidiu aceitar a sugestão do amigo de ficar em Rio Real com ele, alugar um filme, pedir uma pizza e evitar de tomar a difícil decisão de escolher um deles. Mas ela não imaginava que o amigo tomara a decisão em seu lugar. De forma desleal, mandou um convite para cada um dos namorados, convidando-os para uma festa surpresa na sua casa, dedicada à Suzy. Chegara a hora de por fim à esta loucura, pensara o rapaz. Era muito sofrimento viver conciliando roupas, cds, livros e até mesmo idéias, dia após dia e ele via que apesar dela não se dar conta, era algo ilusório e que ainda lhe traria muita tristeza.
Chegara o grande dia! Roberto estava agitado e apesar de saber que estava certo em por fim àquela situação, estava um tanto nervoso com a grande possibilidade de perder a sua amiga para sempre. À noite, ambos estavam no apartamento de Roberto comendo pizza, bebendo vinho e assistindo a um filme, quando a campanhia tocou. Era Patrick. Suzy não conseguia disfarçar a sua surpresa e olhava de um para o outro sem nada dizer. Em questão de segundos chegaram Santana e Lobus e a confusão estava armada. Todos discutiam e trocavam ofensas entre si e acusavam um ao outro de seduzi-la. Agiam como se ela não estivesse lá. Apesar de ser menos difícil ser isenta de toda a culpa, ela não conseguia deixar de achar que o momento chegara. Com quem quero ficar? – questionava-se a moça, observando a violenta discussão que acontecia diante dos seus olhos. Roberto aproximou-se devagar, olhou-a nos olhos e disse que chegara a hora de acabar com a farsa. Ela deveria ouvir o seu coração e tomar uma decisão.
Suzy – disse Roberto em voz alta – pense com cuidado e responda o que te faz feliz, do que você gosta. Você prefere os livros científicos e a intelectualidade de Patrick, os rodeios e a simplicidade de Santana ou os poemas e a morbidez do Lobus?
Todos os homens calaram-se e olhavam-na com olhos ansiosos, torcendo intimamente para que ela os escolhesse.
- Bem, antes de mais nada gostaria que soubessem que não fiz isso para brincar com os sentimentos de vocês. Eu realmente me encontrava em cada momento que passava com vocês, e eu gosto de cada um igualmente, mas o Roberto está certo. Eu não posso viver uma vida diferente a cada dia. Não posso viver como se fosse uma novela, cheia de personagens fictícios.
- Com qual de nós você vai ficar, Su? – perguntou Patrick com uma expressão de tristeza e agonia.
Suzy fechou os olhos e deixou a sua mente vagar. Sua vida passou como um filme bem diante dos seus olhos e ela relembrou cada momento feliz que passou com todos os que estavam ali. De repente tudo ficara claro na sua mente. Como não pensou nisso antes? – pensou surpresa.
Ao vê-la abrir os olhos, Roberto perguntou:
- Suzy, do que você gosta de verdade, querida?
- Eu gosto de tênis! – revelou a moça olhando para Roberto e para o mundo pela primeira vez, com olhos verdadeiros.
Kilya Stella
Enviado por Kilya Stella em 19/09/2006
Reeditado em 19/09/2006
Código do texto: T244005
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Sobre a autora
Kilya Stella
Curitiba - Paraná - Brasil, 42 anos
27 textos (2504 leituras)
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Kilya Stella