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SÉRIE: MULHERES DO BRASIL - A SOFRIDA

Ela era uma menina simples, simpática e alegre. Mas, de um sorriso nervoso, olhar desconfiado, jeito ressabiado, de alguém que acredita na vida, quer viver, tem potencial, sonha, mas já foi tão ferida, tão magoada, que o peso da frustração que traz sobre seus ombros quase a impede de prosseguir.

Ainda bem que é apenas um “quase” na sua vida, pois ela nunca se permitiria estagnar, retroceder, esmorecer. Ela era lutadora, e apesar da desconfiança para com as pessoas, ela ainda acreditava na vida. E porque acreditava na vida, e porque queria romper com todos os grilhões que lhe impunham amarras a sua vida, ela investia o que fosse necessário para ser feliz, para vencer.

Só por este motivo já era uma vencedora. Cláudia sorria e olhava para as pessoas com olhos pequenos, interrogadores e desconfiados. Quando tinha onze anos sua mãe morrera. Ela e sua irmã de nove anos foram, então, morar com o pai que, a esta altura, já era separado de sua mãe e vivia com outra mulher.

A nova circunstância foi um inferno para as pequenas. A madrasta honrava literalmente o estigma do nome. Recebeu-as em sua casa, mas, perseguiu-as até o limite máximo da tortura mental e física, levando-as a exaustão. Fazia o mesmo com a própria filha, cuja idade emparelhava com as meninas recém-chegadas. Eram, agora, três malsinadas crianças a sofrer nas mãos de uma carrasca mulher desalmada.

Por tudo o que pudemos relatar e pelo que ainda será revelado, percebia-se que a característica mais marcante de Cláudia era o sofrimento. Seu rosto de criança trazia marcas indeléveis de dor. Ainda era muito nova para entender a desgraça que se abatera sobre ela com a morte da mãe, mas se questionava interiormente, achando que tinha feito alguma coisa muito feia para merecer castigo tão cruel da vida.

E assim, a pequena Cláudia agregava ao sofrimento da vida mais este de se sentir culpada por alguma coisa que nem ela mesma conseguia definir o que era. Um sentimento forte de culpa pesava sobre seus ombros e, volta e meia, era pega pelos cantos da casa, chorando com suas bonecas, com as quais conversava recordando sua finada mãe e desabafando seus temores e angústias.

Na escola, colegas e professores indagavam silentes sobre as marcas que a menina começou a trazer no corpo. Não sabiam elas que tais marcas eram resultantes das agressões que a pequena e suas irmãs recebiam em casa, pois a verduga puxava seus cabelos, dava com suas cabeças contra as paredes, xingava-lhes de tudo quanto é nome e as obrigava a realizar tarefas domésticas pesadas em demasia para suas idades.

Deixe estar que a miserável era mulher de muitos homens sem nunca ter sido de nenhum e, talvez por isso, por não ter sido amada apenas usada, descontava nas meninas sua frustração e ódio para com a vida. E, além disso, se dizia religiosa, freqüentando igreja e tudo, como se no domingo pudesse se purgar de todos os pecados cometidos despudoradamente ao longo da semana.

Cláudia chorava a perda da mãe e prosseguia a vida com uma certeza interior de que um dia daria a volta por cima. Os poucos anos que convivera com a mãe lhe ensinaram respeito, honradez e alegria, que, de modo algum, permitiria se afastar de sua vida, pois era exatamente neste vazio de sua presença, nesta ausência sentida, que ela mais recordava o aprendizado e mais reafirmava o desejo de ser a melhor, construir um caráter e uma história, que pudesse honrar a memória da querida mãe.

Sua madrasta vivia dizendo para ela e suas irmãs, que elas não prestavam, que não serviam para nada, que não seriam ninguém na vida e que o melhor seria que morressem, pois assim não seriam mais estorvo na vida de ninguém. Cláudia e suas irmãs ouviam aquilo e, apesar do sofrimento e da humilhação, fizeram um pacto entre si que dariam tudo de si para ser alguém na vida e que, quem chegasse primeiro, ajudaria as outras a vencer. Era bonito ver as pequenas fazendo planos para o futuro...

Quando estava para completar seus dezessete anos, Cláudia viu a diabólica mulher querendo colocar em prática um plano que de há muito vinha ardilosamente arquitetando. Nos últimos meses começara a inculcar na cabeça das meninas que elas não teriam chances nenhuma na vida, exceto se seguissem o conselho que ela tinha para lhes dar. Usou a tática baixa de desmoralizar as meninas para depois apresentar um plano salvador que se configurasse irrecusável.

O ego delas estava destroçado, mas nunca cederiam ao maquiavélico plano da mãe e madrasta. A mefistofélica simplesmente ficou meses inculcando na cabeça das pequenas que elas só se dariam bem na vida se seguissem o caminho da prostituição. As meninas ouviam aquele discurso e se contraíam nervosamente, reconhecendo a sua fragilidade e pensando o quanto eram indefesas ante tal víbora.

E o plano da megera estava para se concretizar. Quando Cláudia completara dezessete anos, a madrasta disse que ela deveria viajar com um tio para a roça, pois sua irmã estava muito doente e precisava de alguém para ajudá-la naquele fim de semana. Como ela tinha muitos compromissos e não podia ir, precisava que ela fosse em seu lugar. A história tinha sentido embora Cláudia olhasse com desconfiança para a madrasta, e para o suposto tio feio e barbudo, que a pegou pelas mãos e tomou uma pequena mochila com roupas, conduzindo-a até o carro estacionado em frente ao portão de casa.

Desde que entrara no carro, Cláudia estava a se perguntar que tio era aquele que nunca tinha visto na vida. E suas suspeitas se confirmaram quando o carro ao sair do perímetro urbano e ganhar a auto-estrada foi conduzido para uma via secundária, em direção a um Motel muito conhecido na cidade. A pequena sofrida percebeu a armadilha que tinha sido armada para ela e começou a gritar e a chorar, e o fez com tal força e com tal intensidade, que o “tio” parou o carro no acostamento tentando acalmá-la.

O homem tinha mais coração que a madrasta. Ele explicou para a menina que pensava que ela concordara com o valor arbitrado, e que só faria alguma coisa com ela se fosse de mútuo consentimento. A menina implorou “pelo amor de Deus” que ele não fizesse nada, porque ela queria arranjar namorado e casar virgem. O moço disse então que a levaria de volta para casa e que só estava levando-a para o Motel porque a sua mãe havia acertado com ele um pagamento adiantado pela sua virgindade.

O rapaz ficara tão envergonhado e tão sensibilizado com a cara de espanto e terror da menina que a deixou no portão de casa, escafedendo-se rapidamente sem sequer desejar reclamar o dinheiro investido.

O fato é que aquela experiência torturante na vida de Cláudia a fez tomar uma decisão resoluta que colocaria em prática na semana seguinte. A sofrida menina já havia apalavrado com uma senhora trabalhar em sua casa como doméstica. Pois voltou a casa da madame, assegurou o início do emprego para a segunda-feira seguinte, aproveitou as melhores oportunidades daquele fim de semana e juntando seus pertences fugiu de casa.

Fugir de casa aos dezessete anos foi a salvação de Cláudia. Alugou uma quitinete e com o que ganhava pagava o aluguel e comprava uma ou outra roupa. Vivia no limite. Ainda bem que fazia as refeições na casa da patroa. Dessa forma rompeu os dezessete, os dezoito e os dezenove anos.

Sua madrasta, por seu turno, ficara fula da vida com sua saída de casa, mas, não podia fazer nada, pois tinha medo da denúncia que Cláudia prometera fazer caso ela a obrigasse a voltar. Pois foi nessa vidinha de doméstica, que Cláudia conseguiu concluir o seu segundo grau, aos trancos e barrancos, num curso noturno; conheceu Marcos, um jovem simpático e trabalhador, e casou-se com ele.

No dia do casamento, fez pequena festa para os amigos e alguns familiares. Convidou o pai e as irmãs, com ordem expressa de que a madrasta não soubesse de nada. Quando entrava de véu e grinalda na igreja, lembrou da mãe e sorriu de emoção enquanto uma lágrima descia pela sua face. Era uma homenagem à mãe que ela tanto gostaria estivesse presenciando aquele momento.

Cláudia era uma mulher feliz! Trazia na alma algumas marcas duras da vida, mas nunca se permitira derrotar pelo amadurecimento precoce que a vida lhe oferecera. Tinha uma razão e um sentido para a vida e era isso que buscava.

Quando instalada em sua nova residência, com a mobília barata novinha em folha, luzindo de brilho simples, lembrou de sua promessa de infância, nos acordos com suas irmãs: quem vencesse primeiro ajudaria as outras. Tinha agora uma missão. Tudo faria para ajudar as irmãs menores a se livrarem da mãe e madrasta infeliz!
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 21/09/2006
Reeditado em 21/09/2006
Código do texto: T245525
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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