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OH, PARA O FIM COM TUDO! Parte um. OS SONHOS.

(Dedico á Samuel Beckett, um dos grandes escritores que ainda não lí).

 Incessantemente, por várias noites, Murphy tem sonhado com uma prisão. Mas não era uma prisão em sua totalidade, mas sim uma cela em particular, e ele estando bem no meio dela, de pé. Era uma cela estranha, alguém diria uma cela medieval, e ele próprio vestindo umas vestes bem medievais: uma túnica grossa, quente e pesada, marrom e muito suja. As paredes dessa cela eram bastante irregulares, sobrando grandes frestas entre as pedras que as compunham. A única janela, que dava para ver relances das nuvens e, em algumas épocas do ano, o próprio sol, ficava no alto, no teto, e apesar das paredes parecerem facilmente escaláveis, a altura dava a impressão de que era inalcançável. Estava preso? Provavelmente não, pois a porta de ferro dessa cela estava aberta, e em alguns sonhos Murphy chegava a olhar pelos corredores –sujos e cheios de gritos suplicantes, por sinal-em busca de alguma alma viva, não encontrando ninguém, voltando para dentro, logo em seguida. Era uma situação ruim, pois Murphy desejava com violência fugir dali, mas parecia impossível, mesmo com a porta aberta. Parecia que ele estava preso por sua própria vontade, apesar de que à vontade de fugir aquelas sensações também fosse forte. Na altura máxima de sua mais pesarosa sensação, ele acordava, suando muito. Nesse ultimo dia, se encontrou com Ana e outras amigas –Ele só tinha amigas-e sentiu, irrepreensivelmente, uma grande vontade de lhes dizer sobre o sonho, mas nada disse. De repente, do nada, surgiu uma grande tempestade, e suas amigas sumiram, deixando ele sozinho no meio da rua. Ele correu, e quando chegou numa rua deserta –A escuridão em pleno meio-dia; apesar de algumas nuvens brancas ainda aparecerem no céu, eram as negras que encobriam o sol, escurecendo toda a cidade-os papeis voando descontroladamente, as lojas sendo fechadas as mais rápidas possíveis, e ninguém, absolutamente ninguém na rua; ele sentiu vontade de ver, naquele caos todo, os quatro cavaleiros do apocalipse surgindo a sua frente, trazendo á galope as desgraças tão aguardadas pela humanidade, trazendo o fim do mundo, o fim de tudo. O fim de tudo! Deixou essas palavras reverberarem  na sua mente, e quando acordou desse ultimo sonho, somente delas que se lembrou por vários dias.
                              * * *
 -Sim, esse é meu nome! Murphy, não é engraçado? Meu pai era fã de um ator americano, por isso me deu esse nome! –E ele riu, desavergonhadamente.
 Murphy não sentia vergonha de se alegrar com quem quer que fosse, e qual fosse a situação. Essa frase de cima ele disse para o rapaz que estava lhe tirando seu RG, horas atrás, e apesar do rapaz não ter achado tanta graça, Murphy continuou rindo, até que Ana chegou, e os dois saíram juntos. Conversaram demais naquele dia, como alias era sempre assim. O tema girava em torno dos sonhos:
 -Murphy, me responde uma coisa; você tem sonhado coisas estranhas ultimamente?- Perguntou-lhe Ana, de forma seria, como alias era a forma dela falar:
 -Claro, sempre sonho coisas estranhas. Mas não ligo. Não á de ser nada. Mas sempre tenho uma leve impressão de que algo ruim está para acontecer!
 Ana ficou pensativa por uns instantes:
 -Tenho sonhado com lama –Disse ela, enfim-com uma lama grossa, dura e quente. Sonho que estou nadando nela, até que de repente me afogo, ou alguém me afoga. O que será que significa?
 -Se significa alguma coisa eu não sei e nem posso dizer. Agora, lembre-se de tomar banho sempre que acordar, viu!- Deu uma risada. Ana não achou graça.
                             * * *
 Começa a garoar fino na cidade,, e Murphy já está só novamente, pois Ana, depois de conversarem mais ainda sobre outros assuntos, fora embora. Murphy sente um prazer irresistível em caminhar sozinho pela cidade, ainda mais quando se envereda por ruas solitárias, e quando pela primeira vez experimenta caminhar debaixo de uma garoa tão fina, que parecia acariciar sua pele. “Olhe as nuvens”, pensou, enquanto olhava para cima; “parece que, de tão cinzas, á de se abrir um caminho entre elas, levando para um ponto ainda mais alto, num caminho sólido”. Surgiu o sol, mas continuou sentindo a garoa em seu rosto, até que ela se tornou nada mais do que umidade no ar. “Queria que se formasse uma tempestade, daquelas bem grandes, que inundasse á tudo, e que algumas casas caíssem, para dar um soco no estomago de algumas pessoas!” Pensou, e sorriu com satisfação, enquanto balbuciava alto “algumas pessoas”, passando em frente a um galpão. Dentro dele, um bêbado ouviu o que Murphy balbuciara, e disse “cada maluco com seu porre”. Murphy não ouviu, pois se ouvisse, teria dado uma gargalhada. Foi para sua casa e, coisa estranha, não havia ninguém lá. Deitou-se no sofá da sala e adormeceu. Não sonhou com nada.
CONTINUA...
JLAlmeida
Enviado por JLAlmeida em 23/09/2006
Reeditado em 28/12/2006
Código do texto: T247292
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Sobre o autor
JLAlmeida
Itaí - São Paulo - Brasil, 31 anos
8 textos (424 leituras)
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JLAlmeida