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MERCADINHO BRASÍLIA

Era um mercadinho comum numa cidadezinha do interior. Seu proprietário, recém chegado àquelas pairagens, era ainda jovem, aparentando ter entre trinta e trinta cinco ano de idade. Niguém sabia ao certo como ele chegara. Um dia, pela manha, deu-se com aquela placa por cima das portas da casa onde funcionara uma velha sapataria. " MERCADINHO BRASÍLIA".

O moço até que era simpático! Apresentou-se apenas como José,   e em pouco tempo, todos na cidade conheciam o Zé do Mercadinho e elogiavam a sua simpatia e a sua coragem de investir no comércio. Um ano após a instalaçao do mercadinho via-se que o moço properara. Além de variado sortimento, Zé havia comprado uma caminhoneta que usava no vai-e-vem das mercadorias para o Mercado Central, que fossem suas ou dos sitiantes vizinhos. foi quando ficou conhecendo Lelé Teimoso, um sitiante cujo verdadeiro nome era Leonardo, de onde lhe veio o "Lelé". "Teimoso", foi um epiteto acrescentado pelo povo do lugar em decorrência do sitiante ter investido toda a indenização  de sua aposentadoria na Prefeitura em dois fracassados plantios em sua propriedade.
No primeiro ano, a plantação ia bem, mas a cheia do riacho que cortava o terreno dizimou com tudo. Os cinco alqueires de terra  foram quase que totalmente cobertos pelas águas. Passada a cheia, os pés de feijão desapareceram sobre o lamaçal e o milharal que já ia à altura do joelho estava agora ao rés do chão, com suas folhas enlameadas. um quadro desolador para Lelé que, naquela semana, houvera terminado a capina da roça, junto com mais seis empregaos de eito que contratara para aquele fim. A colheita daquele ano limitou-se à plantação fora do alcance da enchente e mal deu para as necessidades domésticas. Mas Lelé guardava consigo o sonho de ainda colher uma grande safra e poder comprar umas vaquinhas de leite para dar início a uma criação só sua. E foi com este sonho que resolveu investir o restante dos recursos guardados em mais uma tentativa. Sua mulher, Marias das Dores, esboçou algum protesto:

_ A gente vai acabar perdendo tudo, Lelé... já temos tão pouco!

_ Ora mulher, quem não arrisca não petisca!

_ Pois eu acho que mãe tem razão. Arriscou Roberto Carlos, o único filho do casal.

_ Ora, Beto, você acha que sua mãe tem razão porque está querendo fugir do serviço. Então acha que eu não sei? Desta vez vai dar certo, não vai haver enchente, garanto.

E não houve. Foi a maior seca que a cidade já vira. A plantação de Lelé não suportou. Roxeou, enrolou as folhas e morreu seca. Esmorecido, cabisbaixo, Lelé passou a viver de sua mísera pensão, tendo ainda que aturar as lamúrias da mulher. Mas tinha fé em Deus. Um dia ainda iria  realizar seu sonho. Mostrar para aquela cidade quem era Lelé Teimoso.

Numa tarde,  Lelé estava debruçado à janela quando Zé do Mercadinho parou junto a porteira do sítio e buzinou várias vezes chamando a sua atenção. O sitiante desceu até lá para ver do que se tratava.

_ Oi zé, vamos descer!

_ Desta vez não,  Lelé. Passei só pra ver como vão as coisas. Sua terra é muito boa, muita água... um desperdício ficar assim, á tõa. Aparece lá no mercadinho, tenho uma proposta para fazer. De pai para filho!

_ se tá pensando em comprar, nada feito, eu não vendo>

_ Ora,  Lelé, quem falou em comprar? Vou te ajudar a tornar estas terras produtivas, aparece lá...

_ Tá bom, passo lá, então.

_ Então, té mais ver.

Naquele mesmo dia Lelé foi á cidade coversar com o comerciante. Sua conversa acendeu no coração do velho uma nova esperança de voltar a lidar coma terra. Quando voltou da cidade, lelé nem parecia o mesmo homem derrotado de sempre. Foi entrando casa adentro e reunindo mulher e filho para dar a boa nova. Encheu o peito, deu uma volta em torno da mesa, girou em torno de si mesmo e ante a expectativa da diminuta platéia, anunciou:

_ Vamos plantar novamente. O Zé do Mercadinho vai me ajudar.

_ Cumé que é? Quis saber das Dores.

_ Isso mesmo, das Dor, vamos plantar novamente. mas não se apavore. Eu explico. O Zé vai... como se diz? Puxa vida, é uma palavra difícil que eu não me lembro agora. Trocando em miúdos, ele vai fazer por mim o mesmo que o governo faz com os grande produtores. Vai dar o dinheiro para preparar  e plantar a terra. Quando vier a colheita ele recebe o empréstimo em mercadoria. Não é um grande negócio? Ele quer que a gente plante batata, só batata.

_ Só batata?

_ Ora Beto, arroz e feijão, todo mundo planta por aqui.

_ Sei não, Lelé...

_ Das Dor de Deus, a gente não pode perder esta oportunidade, de jeito nenhum...

Já tivemos outras oportunidades e voc~e sabe no que deu, Lelé...

_ Desta vez vai ser diferente, das Dor. O Zé vai comprar as sementes, pagar os homens de eito, tudo nas mãos...

_ Você é quem sabe. Quer arriscar, que arrisque!

Na outra semana chegaram as sementes. Zé cuidou de tudo e, no mês seguinte, o sítio já estava plantado Nunca se viu uma plantação tão bonita. Em noites de lua cheia, Lelé ficava horas e horas namorando a plantação e antevendo a safra redentora.

Na época da colheita foi necessário desocupar dois quartos na casa para armazenar a produção, além dos três quartos de pau-a-pique que ficaram abarrotados de sacas de batata. Terminado o trabalho, Lelé foi á cidade negociar com Zé do Mercadinho a parte necessária ao pagamento da dívida. Moço desinteressado o Zé. Nem sequer apareceu no sítio para fiscalizar como iam as coisas... era o pensamento de Lelé enquanto se dirigia à cidade.

Quando voltou para casa já era noite. estava embriagado e mal conseguia articulare as palavras. Diante do espanto da mulher, contou que em todo o estado, a safra de batata houvera batido todos os recordes de produção e que na maioria das fazendas, devido á queda de preço, a batata estava sendo usada para tratamento de porcos. A colheita do sítio mal deu  pra pagar a metadade da dívida com o comerciante. Não tinha outro jeito. negociara a safra nesta condição. Tinha trinta dias para pagar o restante.

_ Eu preveni, Lelé! E agora? Vamos pagar com quê?

_ Não sei, das Dores, não me pergunte por que eu não sei!

A desolação caiu sobre o sítio e sitiantes. Enquanto isso, na cidade, Zé do Mercadinho lançava o programa "ao comprador as batatas". Quem fazia qualquer compra em seu estabelecimento ganhava três quilos de batata.

Quando findou o prazo para o pagamento da dívida, Lelé não tinha um tostão. Andava desorientado, adoentado, sem perceber ao certo o que se passava ao seu redor. Foi quando Zé do Mercadinho apareceu.

Simulou uma visita preocupada com o estado de saúde de Lelé, aconselhando das Dores a levá-lo para um tratamento na capital. naquela idade não se podia brincar com doença alguma. Deu um prazo de mais quinze dias para o pgamento da dívida e, ao sair, propôs a das Dores a troca do sítio por uma casa que ele tinha num bairrto próximo ao centro, na capital.

_ É uma casa muito boa, com água, luz, telefone, e fica bem perto de um hospital. Lelé poderia fazar um bom tratamento, a senhora ficaria livre da dívida e ainda teria um bom dinheiro de volta para usar nas primeiras despesas. Pelo amor de Deus, não fosse pensar que ele queria se aproveitar da situação. isso não! Só queria mesmo era ajudar. Poderia, inclusive, fazer amudança  com a caminhoneta em duas viagens, sem nada cobrar pelo carreto.

Na outra semana, das Dores dava uma última olhada para trás e enxugava uma lágrima no rosto. Lelé permanecia indiferente, como se nada daquilo lhe dissesse respeito.

A mudança e o tratamento não surtiram efeito. Um ano depois, Lelé veio a falecer vitimado por um enfarto. Da roça, somente Lalado, o irmão mais novo, veio para o enterro. Contou que Zé do Mercadinho se elegera vereador na cidade, que tinha ampliado seu comércio que era agora um súpermercado e que criava gado de corte no sítio adquirido na mão de Lelé.

Depois da morte de Lelé, os dias vão passando sem nenhuma importância para das Dores. Roberto Carlos conseguiu trabalho na construção civil e ajuda na despesa da casa.

Todas as noites, enquanto espera o filho voltar do serviço, das Dores senta-se na cama, acomoda o queixo entre as mãos, reza o rosário e fica pensando na vida, no sítio, em Lelé... às vezes parece ouví-lo com naquela noite em que o vira feliz  pela última vez: "... puxa vida, é uma plavra difícil. Não me lembnro agora. Trocando em miúdo: O zé vai fazer por mim o mesmo que o governo faz com os grandes produtores..."

Há dias em que Roberto Carlos chega mais tarde do que de costume. Sobra tempo pra das Dores pensar que não vai durar muito tempo mais.

silasol
Enviado por silasol em 23/09/2006
Código do texto: T247391

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silasol
Sabará - Minas Gerais - Brasil, 65 anos
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