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Adeus, Maria!

Mais uma vez o sinal abriu. Correr, correr, sair da frente... Eu já devia estar acostumado. Carros e pessoas, criatura e criatura-criador. Um mundo tão grande e eu, franzino e cansado, tropeçando por um simples pedaço da calçada. Droga! Perdi outra moeda! A noite apenas começando e minhas pernas querendo me deixar na mão...

Já é manhã e eu nem sei se estou acordando na minha cama ou na rua. Mas hoje é outro dia! Tudo vai melhorar! Claro que vai, mas é só nas novelas. Tudo bem, poderia ser pior, mas ajudaria se a sorte viesse bater à minha porta... “Toc, toc, toc!” Será?
-Levanta, Jesus! Vem fazer o serviço de casa!
Minha mãe. Não se chama “Sorte”, mas pelo menos alguém apareceu à porta.

Fazer tarefas o dia inteiro é um pouco difícil para mim, já que aos 16 as pessoas costumam pensar em garotas, esportes, músicas, garotas, Maria... O tempo passou rápido demais. Um dia eu estava brincando de esconde-esconde com meus vizinhos e hoje sou apaixonado por uma garota que conheci há dois dias em um ponto de ônibus. É... Tempos modernos...

Sair do colégio correndo. Esse é o meu passatempo favorito! E foi numa dessas “maratonas” que acabei conhecendo minha amada:
-Seu pivete! Derrubou as minhas coisas!
-Foi mal!
E ela continuou ali no ponto de ônibus. Tão linda e meiga! Pena que eu nunca mais conseguirei vê-la.

Mais um dia corrido. Serviço em casa pela manhã, colégio e agora o meu ganha-pão. Vender coisas e fazer malabarismo no sinal. Milhares de luzes piscando, buzinas ensurdecedoras e gente desconfiada. Um ambiente um pouco assustador no começo, mas acabei me acostumando. Os “negócios” não rendiam muita coisa, eu já estava cansado de ser confundido com um trombadinha e meus pés ardiam sem parar. Difícil dizer por que até hoje faço isso. Não me lembro da idade que tinha quando comecei, mas sei que agora as coisas são diferentes. Quando não se tem comida ou uma casa decente, apenas uma avó doente, cinco irmãos e uma mãe bêbada dizendo que seus clientes a maltrataram, acaba-se descobrindo que a vida é muito cruel. Cedo ou tarde a esperança vai embora e a gente aprende que a única coisa verde que realmente importa é o dinheiro.

Jesus. Gosto do nome. Faz com que eu pareça ser alguém de valor. Sempre li a Bíblia, insistências da minha avó. Acabei descobrindo que possuía uma paixão incrível pela leitura. Aqui no morro as pessoas não se importam com livros, mas eu sempre fui diferente. Curioso e interessado. Sempre dizem que devemos ser educados e inteligentes. Eu não. Nunca fui um bom aluno. Gostava de ler, embora não compreendesse o que meus olhos percorriam. Era uma forma de viajar, sair deste mundo, mesmo sem saber para onde estava indo.

Mais uma vez os carros estão parados. O movimento está diminuindo, as ruas ficando desertas – acho que é hora de mudar de posto. Vender drogas. Drogas. Nunca entendi o porquê desse nome. Sem elas eu não sobreviveria. E, afinal, será que são tão ruins assim? Nunca experimentei. Na verdade, não suporto o cheiro da fumaça, acho que sou alérgico. Mas a vida continua e é agora que meus bolsos começam a encher. Nessas horas a gente descobre que a Matemática só é difícil no colégio e que, quanto mais dinheiro você tem, menos problemas terá para dividi-lo entre os “chefes”, mais chances para multiplicar as vendas surgirão e que a raiz dos seus problemas é muito simples de se resolver.

Voltar para casa. Às vezes quero ficar nas ruas. A sensação de liberdade é tão incrível! Só depois de conhecer a delegacia é que a gente presta mais atenção nessas coisas. É como perder alguém que se ama. A vida é sempre tão engraçada! Tudo só se torna importante depois que se perde...

Ultimamente os dias têm sido agitados. As coisas dentro de casa pioraram. Mesmo conseguindo mais dinheiro não é o suficiente para pagar remédios, comprar comida, pagar dívidas. Faz tempo que não vou ao colégio. Não sei o que fazer. Não tenho tempo para ler, meu corpo dói e a vida como vendedor de maconha não é tão lucrativa quanto eu esperava.

A noite chegou novamente. É hora de recomeçar a batalha. Carros, sinal e agora drogas. Drogas, viciados, luzes vermelhas, sirenes. Sirenes? A polícia resolveu se divertir hoje. Correr, correr, sair da frente... Eu já devia estar acostumado. Becos escuros, buracos, tiros. Tudo isso no caminho. A noite apenas começando e minhas pernas... Sangrando! Não só as pernas, mas meu peito! Dois, cinco, dez, quantos tiros? Isso não importa agora. Vejo que a vida é realmente muito cruel. Mas não há volta. Nem um ônibus de volta. E todos os pontos estão vazios. E eu só queria me despedir de uma pessoa.
Rafael Fontana
Enviado por Rafael Fontana em 23/09/2006
Reeditado em 13/07/2008
Código do texto: T247775

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Sobre o autor
Rafael Fontana
Caeté - Minas Gerais - Brasil, 28 anos
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