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As vias de fato

Hernani era um cara de classe média. Um dia sua família teve algum dinheiro, mas hoje só restaram dívidas. Razoavelmente grandes. A mesma história de muito de seus amigos. Os planos econômicos das duas últimas décadas do século XX transformaram o sinal de mais para o de menos nos extratos bancários dos Brito Cavalcanti.

Isso o transformou em uma pessoa revoltada e descrente da vida. Seu maior espelho era seu pai. Ele o via sair e trabalhar duro todos os dias. Mas o resultado era nulo. Juros era a palavra que ele mais odiava. Uma vez ouviu o pai dizer que só em juros já tinha pagado duas vezes a dívida inicial da família.

Com 23 anos ele começou a sentir de perto a agonia do pai. Trabalhava feito um louco treze, quinze, dezesseis horas por dia. Escutava desaforos de chefes frustrados. Algumas vezes em uma situação que ele já conhecia de longa data. Mas o dinheiro nunca vinha. Suas contas estavam sempre atrasadas. Queria ajudar a família, mas não tinha com o que.

Conforme os dias passavam o descrédito de Hernani na política, na sociedade, na instituição familiar, e na vida em geral, se transformava em raiva. E a velocidade que isso acontecia era assustadora. Não demorou muito para ele culpar a tudo e a todos pelos males pelo qual via sua família passar.

Hernani tinha bastante amigos, mas raramente se divertia. Sentia-se culpado de se divertir enquanto seus familiares sofriam calados, como ele. O resultado disso era um acumulo cada vez maior de ódio e raiva dentro de seu coração. Ele realmente tinha vontade de matar. Ele realmente odiava a humanidade como um todo, em alguns momentos. Em outros instantes poupava os mais próximos.

Aos poucos foi se transformando num psicopata. As coisas aconteceram rápido. O ódio evoluiu com tal velocidade que nem ele mesmo percebeu que tinha perdido o controle. Um lapso aqui, uma agressão gratuita a um cara que pisou no seu pé no ônibus lotado. Outro lá. Quebrou um orelhão por que ninguém tinha dinheiro para pagar a conta de telefone de sua casa e ele foi cortado.

Tudo isso acontecia longe das pessoas que o cercavam. No trabalho, em casa ou com os amigos nunca perdeu o controle de si mesmo. Longe disso. Todos consideravam Hernani extremamente equilibrado. Não entrava em uma discussão por nada. Era sempre gentil e cordial. O bom humor era sua marca registrada. Defendia os que estavam em minoria. Sempre foi uma pessoa legal com todos.

Um dia, depois de trabalhar dezesseis horas e receber um salário miserável, Hernani resolveu passar no supermercado para comprar algumas coisas, para que a geladeira ficasse ligada por algum motivo. Andou toda a loja, e tudo que seu dinheiro podia comprar ele podia carregar com as duas mãos. Do contrário não pagaria todas as contas.

Colocou a cestinha de lado e passou a andar com as mãos livres, para não ficar lembrando o quanto à vida era injusta o tempo todo. Passou pela seção de flores e jardinagem e resolveu cheirar algumas rosas, na esperança de melhorar o ânimo. No que ele se abaixou uma senhora trombou com seu carrinho nele. Ele olhou para a mulher, que com uma expressão rude disse: “Você precisa ocupar o corredor inteiro para cheirar uma rosa?”.

Como que por reflexo ele pegou um vaso e quebrou na orelha direita da velha. Ela caiu. O sangue se espalhou por entre as prateleiras. Ele não tinha o menor pingo de remorso, e não fazia questão de esconder. Tentou sair andando numa boa, como se não tivesse acontecido nada. Afinal, a velha tinha caído, e ele tinha dado a resposta que achava justa a pergunta dela. Para Hernani não havia acontecido nada demais. Ele realmente achava que tinha tomado a atitude certa e que não seria justo ser punido. Afinal a velha foi rude. E ele só queria cheirar uma flor. Ela mereceu. Se tivesse sido mais educada tinha evitado tudo. Ela tinha que ser punida, e ele a puniu.

Mas um cara não concordou com a linha de raciocínio descrita e partiu para cima dele. Veio correndo e o empurrou contra uma prateleira. Sua mão se encontrou com uma um tesoura de jardineiro. Pior para o cara. Ele a enfiou no estomago dele.

Então ele sabia que tinha ido longe de mais, e tentou fugir. Percebeu os seguranças já se aproximando e agarrou um facão. Destes de cortar cana. Sentia-se um guerreiro cortando braços, cabeças e barrigas. Fazia movimentos que imitavam um espadachim. Atingiu um de cima para baixo, outro de baixo para cima. Depois lateralmente. Ia abrindo caminho entre os que se aproximavam. Urrava como um guerreiro medieval em batalha. Sentia-se um guerreiro medieval em batalha.

Matou mais três pessoas. Não viu da onde veio o primeiro tiro, mas sentiu uma bala entrar perto de seu umbigo. Várias outras o acertaram. Hernani morreu como um marginal. Um louco.

A mídia rapidamente o sentenciou e rotulou. “Maníaco do supermercado”. “Psicopata enrustido”. As manchetes eram diretas. “Psicopata ‘explode’ em supermercado”. “Sociedade estarrecida”. As mídias internacionais também fizeram sua festa. “Brasil vive problemas de primeiro mundo” (sic). “Columbine chega a América do Sul”.

Os programas vespertinos entrevistavam amigos e pessoas que estavam pelo supermercado. Uma mulher disse que ele a seguiu por meia hora. Ela não avisou a segurança por que ele a olhava como um louco. Então ela ficou com medo de que ele pudesse atacar.

Um cara que disse ter estudado com ele seis meses falou a uma apresentadora tosca que Hernani já havia tentado matar a professora com uma caneta. Matar a professora com uma caneta! Imaginem o escarcéu que a tal apresentadora fez. Detalhe. Nenhum outro estudante foi entrevistado. E este imbecil alegou que eles tinham 9 anos (9 anos!), por isso não lembrava o nome da professora.

As revistas semanais diziam. “Passo a passo: o que aconteceu no supermercado”. “Entenda por que alguém pode surtar”. Especialistas (no que?) iam a programas com mais credibilidade dizer que qualquer um esta sujeito a isso. “A pressão de um mundo excessivamente competitivo pode causar transtornos irreversíveis”. “Na cabeça dele poderia estar passando que esta seria a única solução para seus problemas”.

Os pais e irmãos de Hernani foram seguidos por jornalistas sanguessugas por várias semanas. Tiveram que se mudar para um endereço desconhecido. Eles não puderam enterrar Hernani. Ficaram com medo. Ele foi sepultado a três da manhã como indigente. A funerária pública teve a decência de informar a família o jazigo onde ele estava. Mas os impediram de por uma lapide.

Estranhamente várias comunidades virtuais admiravam Hernani. “A coragem que eu não tenho”. “Hernani queria um mundo melhor”. Os maridos passaram a acompanhar suas senhoras no supermercado. Afinal, no resto do mundo ela estava segura.

Em dez dias nenhum veículo informava sobre o assunto. Começava a preparação da seleção brasileira para copa do mundo.
Eder Capobianco (Antimidia)
Enviado por Eder Capobianco (Antimidia) em 26/09/2006
Reeditado em 26/09/2006
Código do texto: T249401

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Eder Capobianco (Antimidia)
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