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A GRANDE PROSTITUTA

“A Constituição é como as virgens.
Foi feita para ser violada.” (Getúlio Vargas).


  Prostituição e política andam juntas. Mais do que se deveria esperar. Bem mais do que deveria ser. No Brasil de hoje, política prostituída é política cotidiana, factual, pragmática. Os meandros do poder estão abarrotados de traições, promiscuidades, fornicações. Os desavergonhados políticos riem na cara do povo o seu gozo intermitente. E o que é pior: o povo gosta e goza junto!

Raimundo Galito sabia disso e não se estressava nem um pouco, fazendo sua campanha para Deputado Federal pelo PMPFPB (Partido do Movimento Para Foder o Povo Brasileiro), seguindo os moldes tradicionais:

- Não adianta criticar os políticos e a política...

- Mas a política está suja, corrompida...

- E quem não sabe disso? Há muito tempo que a política não presta neste país! E nunca ninguém se interessou em mudar de verdade; em fazer diferente.

Seu amigo de infância, Amarildo Pereira, insistia com ele na tese acerca da inutilidade da política e seus desacertos:

- Se a política não presta, entrar para ela é se identificar com a sua sujeira e tornar-se um igual. Ou o político novo se corrompe ou terá uma atuação inexpressiva, um mandato inoperante.

Galito já estava irritado com aquilo e arremeteu incisivo para acabar logo com aquele lengalenga:

- Aqui. Se você quiser votar em mim, você vota porra! Se não quiser, não vota! A política é só um reflexo da sociedade. Ela resume e concentra o que de mais sujo e podre a sociedade produz. A política é só o microcosmo visível do grande lago de excrementos a céu aberto que é a sociedade brasileira e você é um dos exemplos mais vívidos disso...

- Eu????? O que tenho eu a ver com isso?

Assustado, Amarildo deu um salto da cadeira em que estava assentado, e bateu indignado com a palma da mão direita sobre a mesa, causando um estrondo no ambiente. Ele reclamava explicações para a acusação. Era um desses tipos simplórios que acabara de ingressar numa dessas igrejas fajutas que surgem todo dia em cada esquina, e tornara-se o mais novo bispo – sem teologia e com muita estratégia de marketing – do mercado gospel brasileiro.

- Não adianta espernear e fazer esta cara de vítima não. Você faz parte da pior espécie de gente que existe na face da terra: aqueles que se aproveitam da fé ingênua do povo para se locupletarem. Você é um charlatão calhorda que vive de enganar o povo com falsas curas e milagres.

Amarildo silenciou-se. Pegou sua pasta de couro marrom que estava sobre a mesa e retirou-se amargo. Não tinha moral nem argumentos para discorrer sobre corrupção na política. Era um simples advogado, que com muito custo comprara o seu diploma, e que por não conseguir deslanchar na carreira, resolvera abrir um próspero negócio de igreja pentecostal. Mal sabia falar em público. Não tinha base familiar, social e pedagógica para isso. Mas, estava se esforçando por tornar o seu negócio rentável. Com duas semanas no mercado, já contava com mais de cinqüenta fiéis e uma receita fixa de cinco mil reais por mês em dízimos e ofertas.

Raimundo Galito assistiu o amigo retirar-se e nada fez para mudar a situação. Alguma coisa indicava em seu interior que a situação tomaria novos rumos no futuro. Começara a campanha cedo. Ainda faltavam dois anos para as eleições gerais no país, que acabara de promover eleições municipais. Talvez, tenha sido esta proximidade das eleições para prefeitos e vereadores que tenha despertado nele o inusitado desejo de conquistar uma cadeira na Câmara Federal.

O barulho da porta de seu escritório se fechando, na Rua Primeiro de Março, centro do Rio de Janeiro, despertou-o desse devaneio do poder. Estava, agora, mais consciente do que nunca, que a política lhe traria amigos e desafetos; provocaria aproximações e afastamentos. Era preciso pagar o preço.

Ele não estava nem um pouco interessado em ser herói. Queria fazer parte do sistema. Ser um político medíocre para ele já seria o bastante. Faria as suas leis, apresentaria algum projeto, freqüentaria as sessões regulares e, se lhe coubesse esse quinhão, faria parte de alguma Comissão de fachada que pudesse indicar para os seus correligionários que estava trabalhando e lhe dar espaço de mídia. No mais, queria mesmo é exercer influência direta na Comissão de Orçamento e amealhar alguma propina por destinação de verba ou apresentação de emendas orçamentárias superfaturadas. Com o dinheiro arrecadado construiria um mega-hospital particular em sua cidade, que sempre fora o sonho de seu pai médico.

Naquela tarde, após o encontro fatídico com o amigo, saiu do escritório e foi direto para o Galeão. Tinha bilhete marcado para Brasília pela VARIG, onde se encontraria com o presidente do PMPFPB e a bancada do partido no Senado e na Câmara. Conseguira essa influência porque fazia parte do grupo de sustentação financeira da campanha seguinte. O partido estava montando uma operação nacional para eleger o maior número de deputados e senadores, e também o presidente da República, um boçal mecânico que pouca instrução tinha, mas que se tornara líder dos movimentos operários no sul do país. Se soubessem trabalhar direitinho, não só elegeriam a maior bancada de todos os tempos do partido, bem como poderiam sonhar com a eleição do presidente.

As vinte horas em ponto, Galito estava na Granja do Endireitado, na aprazível região dos jardins em Brasília, reunido com mais de cinqüenta experts em política brasileira. Da pauta da reunião constava a discussão sobre o aumento real da despesa do Governo com o pessoal do Poder Executivo. Tudo indicava um aumento de mais de 10%. Os indícios de aumento das despesas caminhavam também pela constatação do impacto que causaria nas contas públicas o aumento do salário mínimo dos servidores concedido via medida provisória.

Os deputados, senadores, membros do alto escalão do PMPFPB e demais convidados, estavam analisando esta situação quando chegou à mansão da Granja uma dúzia de lindas meninas, moças elegantes especialmente contratadas para a festa. O clima da reunião alcançou astral diferente, com gracejos e piadas dirigidas às meninas recém-chegadas.

A discussão prosseguiu com a análise e temor de que em algumas leis e medidas provisórias implementadas não se apresentou a estimativa de impacto financeiro. Além disso, casos de criação de cargos em que, por não serem de imediata provisão, não se considerou que isto ocasionaria aumento de custos. Todos estavam envolvidos nos debates. Os presentes discutiam acaloradamente as medidas tomadas pelo governo, mostrando que a bandalheira que estava acontecendo em Brasília provocaria o estrangulamento dos cofres públicos.

- Precisamos preencher 40% dessas vagas. Nosso partido precisa ser o principal beneficiário do aumento de pessoal nos órgãos do governo. Dessa forma vamos influenciar diretamente setores importantes da economia como energia, saúde e transportes, e vamos alocar nosso pessoal nas instâncias do poder, abrindo espaços para fazermos o caixa tão necessário para nossa campanha de daqui a dois anos.

O presidente do partido, que conduzia a reunião, foi enfático na necessidade de se começar a ganhar o jogo político naquele momento. Se perdessem o bonde da história seria tarde demais para darem uma virada política no caos reinante, que propiciava um cenário interessante para um novo messias nacional.

A estratégia do governo de substituir funcionários temporários por efetivos, argumentando que isto significava custo zero, era a maior balela. É claro que fora forjado o esquecimento de que havia custos nas demissões de novos funcionários e também os custos agregados pelas obrigações trabalhistas.

Naquela altura, a reunião que contava com mais de cinqüenta participantes, fora reduzida a cerca de quarenta. Uma dezena deles havia se retirado com as garotas para os quartos, varandas, anexos e outra dependências. Um clima de luxúria se instalou no ar. Baco e Dionísio reinavam absolutos na mansão.

O presidente do PMPFPB tentava manter a ordem dos trabalhos. A análise das medidas governamentais para contratação de pessoal revelavam que no ano de 2006 haveria um aumento da despesa de pessoal em relação ao PIB, passando de 2,6% para 2,8%. Mas, os dados que mais preocupavam, eram os oferecidos pelos próprios economistas adversários. Segundo eles, as contas não iriam fechar caso não fosse realizado um forte corte nos gastos. Aumento na carga tributária, nem pensar, ainda mais em tempos de eleição e levando-se em consideração a pressão da oposição, já desgastada com tantos escândalos.

- O orçamento inflou a expectativa de crescimento da economia e camuflou os gastos. Há uma forte tendência de que o gasto com a folha de pagamento esteja subestimado desde 2005. Tudo indica que estejam faltando R$ 5 bilhões para fechar a conta com pessoal deste ano.

Os partidários mais dedicados ouviam as ponderações do presidente Júlio Arcádio e ficavam imaginando como implementar seus objetivos em meio a tantos disparates econômicos. Mas já estavam começando a aprender que no Brasil quanto maior o rombo financeiro da União, mais fácil fica praticar o roubo. O dinheiro da viúva era o alvo do grupo.

Naquele instante, nova leva de meninas entra no recinto. Duas vans despejaram beldades no jardim principal da mansão e elas agora desfilavam leves pelo salão de reuniões atraindo os olhares dos políticos. Política para o PMPFPB era uma atividade eminentemente masculina. Foder as meninas e o Brasil, também. Percebe-se que a presença quantitativa e qualitativa das garotas se faz preponderante sobre os homens. Há morenas, loiras e mulatas. Garota para tudo quanto é gosto. A política sempre ofereceu fodeção e maracutaia de todo tipo, para todos os gostos, nestes brasis: desde mensalões, sanguessugas, anões do orçamento, até casas da Dinda, Operação Uruguai, suicídio, acidentes na estrada, acidentes aéreos com corpos ao mar cujo defunto nunca apareceu, diverticulites agudas e outras nem tanto. As novas meninas representavam quase o dobro das que haviam chegado anteriormente.

Gastar dinheiro com contratação de pessoal sempre foi especialidade do governo. Aprendia-se a fazê-lo nestas reuniões partidárias onde garotas de programa eram requisitadas para alegrar o ambiente. Mulher e política sempre foi combinação explosiva. As meninas foram contratadas a peso de ouro e estavam risonhas, cumprindo o seu papel. Não era para menos. Foram regiamente pagas e lhes acenaram com a possibilidade de uma contratação efetiva. O presidente ainda ponderou:

- Há sérios problemas de ordem estrutural no ambiente do governo. O crescimento da economia não acompanhou os dispêndios, que ainda assim foram sendo feitos irresponsavelmente. O governo propalou aos quatro ventos o pagamento total da dívida com o FMI e toda a nação entendeu que o Brasil tinha liquidado sua dívida externa. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. O endividamento externo brasileiro é o maior de todos os tempos e isto sinaliza apertos futuros.

Raimundo Galito que comparecera ao encontro como convidado, a tudo ouvia e presenciava meio que atônito ainda com os bastidores do poder. Resolveu fazer uma pergunta ao presidente, queria entender um pouco mais da situação.

- Todos estão conscientes de que após a Constituição de 1988, a chamada Constituição Cidadã, houve um salto de despesa com pessoal, que passou de 3,5% do PIB em 1987 para mais de 6% em 1989 e 1990.

- E isto está bem evidente por causa da ocorrência de maiores benefícios garantidos ao funcionalismo pela Constituição. Aparteou um deputado de Rondônia, da bancada da selva.

- Sim, e somem-se a isso os problemas de natureza estrutural, como o crescimento da despesa com inativos e pensionistas e com o pessoal dos Poderes e órgãos que gozam de autonomia orçamentária, como foi o caso da recente aprovação de aumento de gastos da ordem de R$ 5,2 bilhões em três anos com aumentos dos servidores da Justiça Federal, do Ministério Público Federal e do Tribunal de Contas da União.

Galito queria ouvir uma opinião do presidente e dos demais presentes acerca do desequilíbrio gerado por conta dessa política de pessoal expansionista desse governo. Mas, ao que tudo indicava a reunião não tinha toda a seriedade que os problemas estruturais do país demandavam. Uma nova leva de deputados e senadores desapareceu do plenário, embrenhando-se pelos corredores a fora, e desaparecendo com as meninas nas salas escuras do poder.

Com a reunião praticamente esvaziada, o Dr. Júlio Arcádio fez um último discurso conclamando os correligionários a se empenharem na formação de grupos de discussão da política nacional nos estados, municípios e distritos, utilizando-se para tanto das instituições já organizadas como ONGs, Associações de Moradores, Igrejas e demais entidades e que o quadro estava muito favorável para o PMPFPB e que dessa vez eles alcançariam o poder e se perpetuariam no cenário político nacional por pelo menos os próximos 20 anos. E arrematou dizendo:

- Vamos foder! As meninas estão inquietas. Escolham a sua, pois quando estivermos em nossos gabinetes poderemos contratar não só uma, mas, duas, três ou mais como secretárias e assistentes, utilizando-se da verba de gabinete disponível para contratação de pessoal. Tudo isso é benesse da União. Aproveitem, pois o poder nos trará a alegria do foder.

E o presidente acrescentou:

- E tem mais... Vamos contratar uma grande cantora para um show de início da campanha do Partido. Sugiro o nome da Nalva, uma excelente cantora aqui de Brasília, que estará em breve explodindo nas paradas. Vamos oferecer para ela um adiantamento em espécie e ela será a cantora oficial do Partido nos comícios que realizarmos neste Brasil de Deus. Está aí um excelente nome para ocupar futuramente o Ministério da Cultura.

Quando percebeu o ânimo exaltado do presidente com relação à cantora de sua predileção, Raimundo Galito imediatamente ligou para ela para fazer-lhe a proposta. Mas ouviu um sonoro "não" de Nalva. Pelo que se deu a entender ela não iria se envolver com aquela gente, mesmo que perdesse a chance de projetar o seu nome e alavancar a sua carreira. Lugar de artista é junto do povo e não junto de políticos safados. A artista preferia caminhar com passos seguros, junto de seu público fiel, que, com certeza, um dia lhe abriria as portas da fama.

E a reunião transformou-se simbioticamente, após este pequeno embate, num grande swing nacional, uma bacanal político-econômica, em que pernas e braços desnudos se viam largados sobre mesas, cadeiras, no chão dos corredores, sobre pias, camas e armários em todos os recantos da Mansão das Orgias Planaltinas, grande ícone da política brasileira do Século XXI.

Galito presenciava a tudo aquilo, entendendo agora o que já suspeitava, mas que dessa vez se descortinava a sua frente como realidade tangível. E ele era um bom aluno. Meteu os olhos numa mulata rechonchuda que sorria escancaradamente para ele naquele instante e depois de levá-la para um canto qualquer meteu o resto.

Saiu daquele encontro com uma certeza, e dentro do avião, no dia seguinte, pensava seriamente nisso: Precisava de um parceiro para formar uma dobradinha de apoio para o poder. Lembrou-se de seu amigo de infância, Amarildo Pereira. Daria um jeito de uma reconciliação com ele. Era o homem ideal para executar seus planos fodentinos sobre o povo, através do renomado PMPFPB.

A política brasileira era a grande prostituta nacional. Precisava aumentar sua clientela para saciar-se orgiasticamente de prazer. A libido da política era insaciável. Quanto mais orgia, mais necessidade. Quanto mais gozo, mais bacanais precisariam ser promovidas para satisfação dos correligionários. Os membros do PMPFPB não estavam nem aí para a Constituição. Quem quisesse se preocupar com ela que o fizesse. O fodentinos continuariam violando leis, consciências e cabaços no seu avanço sobre a nação.

Naquele momento, antes de conciliar o sono dos justos na poltrona do avião, Galito só lembrou que não poderia deixar de avisar ao Amarildo para ter o máximo cuidado, quando eleito, de não deixar que as fotos das secretárias nuas, nos gabinetes de Brasília, fossem para na Internet. Ele, especialmente ele, precisava dessa recomendação enfática. Tudo era perdoado, exceto certo tipo de exposição pública que ofendia alguns puritanos de plantão. Faria isso, pois o cara era foda!
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 28/09/2006
Reeditado em 17/10/2006
Código do texto: T251339
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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