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Parabéns ou pêsames?

Olá poetas!Eu nunca escrevi contos, mas resolvi contar um episódio que aconteceu comigo e que até hoje pegam no meu pé por causa dele. Mas o bom é participar, junto com vocês desse delicioso site.


Eu já nasci, gostando da vida, e por causa desse meu amor profundo, vivia fugindo desses assuntos de morte. Mas, um dia todos nós iremos embora, e assim, foi com o meu avô. Eu tinha na época uns 16 anos e minha mãe sabia do meu medo, mas naquela hora, ela estava contando com o meu apoio e esqueceu desse pequeno detalhe.
_Filha, sinto muito, mas você tem que ir ao velório do seu avô!!!Ainda mais que já é noite, não posso deixá-la em casa sozinha..

Mas, para quê, isso?Eu já chorei, estou sentindo tanto... Tenho que ir ao velório para mostrar que dói vê-lo partir? Pensei revoltada com a ordem de minha mãe.
_Mãe, posso chamar a Cláudia para me fazer companhia? Você sabe como eu fico quando estou nervosa..e a Cláudia indo posso me distrair conversando com ela.Diante de sua afirmativa,liguei para a minha amiga.

No caminho, fui tentando disfarçar o meu medo..puxava um assunto com a minha mãe,mas ela parecia não querer muito assunto..Só ficava nos dando conselhos,de como nos comportar no velório..(acho que ela já estava adivinhando..rs)

Chegando lá não vimos ninguém a não ser o meu avozinho (depois de morto, alguém continua sendo alguém?) deitadinho, com a fisionomia de curioso como ainda não soubesse que tinha morrido.
-Aproveita que não tem ninguém e beija o seu avô!Depois chega gente e você esquece!!

Quando a minha mãe falou isso as minhas pernas tremeram..Como assim ? Beijar? Mas eu já tinha beijado ele vivo ele nem se lembrava (já estava caduquinho).Nunca que ele ia sentir falta do meu beijo,estando morto.
_Espera mãe, estou rezando..Tive que mentir! Nem imaginava o que poderia acontecer nessa hora,preferi não arriscar.
_Filha,vou lá a casa pegar um documento que esqueci,vou deixar você e a Cláudia, tomando conta do seu avô. Não saiam daí!

Senti o pavor tomar conta de mim!Eu ficar sozinha com a Cláudia? E assim lá se foi a minha mãe confiando o meu avô a duas adolescentes medrosas e atrapalhadas..mas ainda bem ,que ela esqueceu,da famosa frase "olha lá o que vocês vão fazer !
E o tempo foi passando e nada de minha mãe chegar. Nessa altura eu já nem mais olhava para o meu avô..olhava pro corredor a espera da figura salvadora de minha mãe.Cláudia,notando o meu desespero quis me ajudar:
-Beta, vamos dar uma volta pelas capelas? Se eu não a conhecesse acharia que ela estava alcoolizada, mas o intuito dela era me ajudar mesmo.
_Passear? Em capela? Foi aí que eu senti que ela estava com medo também. E lá fomos nós passearmos pelas capelas..Tinha mais 3 velórios acontecendo.A gente apenas passava pela porta,olhava as pessoas chorando,comentávamos sobre a morte,e ficávamos paradas por ali mesmo,até porque onde estava o meu avô,não tinha ninguém e o que queríamos nesse momento era ver gente viva. De repente...vejo uma mulher toda de preto vir na nossa direção.Olhei para trás e vi que não tinha mais ninguém,a não ser nós duas.Não!Ela estava vindo falar comigo!Eu, para livrar-me desse ato impensado da mulher dei um passo para o lado,colocando a minha amiga na linha de frente”isso não foi maldade,foi nervoso ta”? Mas a mulher de preto, queria mesmo era a mim.E assim ela me abraçou não sei porque, mas abraçou.E chorando muito,olhou-me no olhos e falou..

_O Oswaldo morreu!!!!Naquele momento achei que ela estava achando que a gente estava no velório certo, mas mal sabia ela, que eu estava ali para fugir dos mortos. Nesse instante, meu cérebro, foi lavado com alvejante, de tanto nervoso..Eu não conseguia achar uma palavra de conforto para aquela mulher!Cláudia olhou para mim e suspendeu os ombros, sem saber também o que fazer. Tenho que dar pêsames!! Tenho que dar pêsames!!!Ordenei ao meu cérebro nervoso.

_Meus parabéns!!!! Falei alto e em bom som! Nossa..não acredito que falei isso...
A minha amiga Cláudia saiu correndo me deixando ali sozinha cercada de tantos olhares de reprovação. Eu a mato!! Pensei...
_Que isso minha filha? É meus pêsames!!!! Falou a mulher já quase vermelha de raiva..
-Eu também acho!!! Falei de novo sem pensar..
Nessa hora, eu queria ter o poder da invisibilidade, mas como toda mortal atrapalhada virei as costas e sai correndo...

Chegando ao velório certo, lá estava a minha mãe, dando sermão na minha amiga e aguardando a minha chegada, para dar o meu. E antes que ela falasse algo, eu falei..
-Não falei que não era uma boa idéia eu vir?
E assim, por conta desse episódio, livrei-me dos velórios e minha mãe, das minhas atrapalhadas.

Moral da história.:Tem males que vem para o bem

InSaNnA
Enviado por InSaNnA em 03/10/2006
Código do texto: T255315

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Sobre a autora
InSaNnA
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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