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Lagartixo.

Essa história tem como pano de fundo uma noite de inverno, precisamente o pseudo-inverno carioca, que consiste basicamente de frentes frias esporádicas que baixam a temperatura, também temporariamente, contudo sem ser constante; esse inverno que chove muito e muitas vezes nos faz ficar em casa, ora para ver um filme, ora para comer, tudo na falta do que fazer.
Certa vez, como última esperança de sair da monotonia, liguei para um amigo e lhe disse que iria à sua casa para conversarmos e ficar conversando – nessa época do ano a falta do que fazer é algo incessante, principalmente quando a pessoa em questão - eu -  não tem emprego. Por vezes ouço música ou vejo t.v, mas tudo estava tão repetido...
Pois bem, voltando à tentativa de ida à casa desse amigo... Coloquei um casaco, calça jeans e saí: logo tive a decepção de ter aumentado a chuva, que já caía o dia todo – tive que desistir dessa idéia. Liguei para ele e avisei que não iria, expliquei os motivos e conversamos um pouco. Ele entendeu e nos despedimos. Deitei no sofá com a mesma roupa.
Mais uma vez nesse dia me ponho a pensar em algo pra fazer. E como quando era adolescente, me pus a escrever algo (já que esse clima é tão propício). Liguei o som e coloquei meus álbuns favoritos de MPB e blues. Pensei, então, nessa história/acontecimento aí embaixo que certa vez eu presenciei:

Uma época atrás eu ainda tinha um pc – hoje em dia não mais, pois tive que me desfazer de certos “excedentes” para pagar as contas –, e gostava de digitar poemas que fazia quando mais jovem; aqueles que estavam guardados em minhas pastas e gavetas. Fazia isso de noite, pois o silêncio era muito maior e mais propício à escrita; e ficava umas duas horas digitando.
Sempre soube da presença de lagartixas na minha casa, que já era uma casa velha, mas as tolerava e até tentava ignorar esses pequenos predadores de insetos, até porque sempre achei ser essa a sua única utilidade, e então lhes daria esse voto de misericórdia.
Certa vez, senti a presença de uma lagartixa (ou um lagartixo, não sei seu sexo; mas vou chamar de “ele” pois, na minha opinião, parecia ser macho) correndo de um lado pro outro. Ele se espreitava pela parede atrás do computador e saiu correndo de novo. Depois de uns dois minutos reaparece e corre de novo: atrás de um mosquito! Demorou mais de dez minutos, mas ele conseguiu – foi muito paciente, vocês podem reparar. E eu fiquei de expectador (tão paralisado que nem estava mais escrevendo) e me fascinei... Ele saiu daquele estado de zumbi, semi-acordado, paralisado na parede da minha sala e atacou o inseto com tanta determinação que me senti um ser inferior, aqui parado e sem emprego, dependo de ajuda de familiares, escrevendo e sem o que fazer, num tédio só. Isso mudou minha vida, precisei ter uma nova perspectiva... Pensei em ser mais determinado nos meus projetos, como aquele lagartixo. Essa foi umas das pequenas coisas que me fizeram despertar pra certos assuntos ditos mundanos. Mas ainda faltam tantos...


É sempre chato pegar mosquitos, mais fácil mesmo são as traças, de tão bobinhas que são. Já os mosquitos, por voarem, trazem muitos problemas.
Odeio ter que me apresentar dessa forma àqueles monstros gigantescos, os humanos, mas é a sobrevivência – a fome move até a gente de trás dos sofás! Sei que é muito ruim e egoísta pensar assim, mas não tive boa criação – minha mãe nem mesmo me viu! – e sempre fui obrigado a pensar na existência, ou o existir propriamente dito, como algo que tem uma face muito violenta. E entregar-se completamente a um projeto – o jantar – e suas conseqüências – a decepção do não cumprir, por exemplo – requer determinação.
Mas não quero assustar ninguém; sou pacífico. Desculpe-me, nem me apresentei. Meu nome é: Tpstu (esse é meu nome de batismo, eu mesmo dei!), mas também sou habitualmente conhecido como lagartixa, da família das Geconídeas. Tenho a cor bege e listras pretas na minha cauda; meu cumprimento é de 9 cm – sou mediano – e tenho as pálpebras transparentes. Essa é minha descrição... Bem resumida, podem ver.
Todas as lagartixas são excelentes trepadoras – somos acrobatas consumadas; nada nos é mais fácil do que subir (facilmente) por paredes de vidro ou pelas janelas – quando chego ao teto, ando sobre ele de cabeça para baixo. Nunca perco a aderência porque tenho, entre os dedos, fileiras de pequenas lâminas transversais forradas de pêlos microscópicos em forma de ganchos. Esses pêlos se prendem à mínima saliência de qualquer superfície e podem aderir melhor do que ventosas – isso eu ouvi da tv, numa casa que passei pra fazer um lanche.
Existem mais de 300 espécies de outras lagartixas nas regiões quentes do mundo. Algumas de nós têm hábitos diurnos; outras, noturnos – dado da tv também.
Freqüentemente nos instalamos em suas casas e lhes somos muito úteis, pois somos insetos caçadores e nos alimentamos desses seres “daninhos” à sua rotina, como as traças, moscas ou pernilongos – podem agradecer, pois já percebi que também não gostam nada deles.
Durante o dia escondo-me atrás do sofá, mas alguns de nós gostam de rachaduras no teto ou outros móveis, tudo isso para fugir do calor. À noite, saio.
Apenas vivo só e defendo zelosamente meu território quando tenho um, pois sou do tipo que gosta de variar.
Grudo nas às paredes por meio da força de atração entre cada uma das milhões de cerdas de meus dedos e a superfície – acho que estou sendo chato, não é? Já falei sobre esse assunto, mas é porque eu adoro me gabar de minhas habilidades.
Quando você se prepara para dormir, deita na cama, mas o sono não vem... Distraído, olha para cima e um bicho muito arisco chama a sua atenção por alguns minutos: sou eu! Estou lá, grudado no teto (provavelmente trabalhando), e sua impressão é de que, a qualquer momento vou despencar e cair em cima da sua fuça. Fique tranqüilo, porque dificilmente isso vai acontecer, pois tenho minhas habilidades para conseguir ficar agarrado em qualquer superfície – ops, fui redundante de novo! Desculpe.
Ah, essa habilidade de subir em superfícies nos é muito útil pois, graças a ela, podemos utilizar o ambiente não apenas horizontalmente, mas também verticalmente. Desse jeito, ampliamos bastante os lugares por onde utilizamos. Além disso, conseguimos achar comida com facilidade, já que podemos buscá-la em lugares pouco explorados por outros animais – (caraca), você já viu alguma lagartixa cotó? Parece bizarro, mas fazemos isso é pra escapar do perigo; assim, aves, gambás, gatos e cobras ficam olhando o rabo se mexendo enquanto nos mandamos! Ainda não fiz isso, mas conheço alguns que já. Sei que sou bichinho que nem se defende, não tenho espinho nem veneno nem força para reagir, contudo sei que não precisamos de grandes poderes para termos grandes resultados.
Mas já chega de minhas habilidades. Agora vou falar sobre esses seres que tenho que aturar às vezes: vocês, os donos dos sofás! – procurem mais informações na tv.
É interessante o seu gosto pelas coisas de outras épocas; o novo sempre é desconsiderado e descaracterizado. Só lhe é dado crédito quando algo é valioso ou já morreu. É um mistério da vida não-sagrada. Vocês são metódicos e cotidianos cansados de fazer nada. Vocês acham que não percebo daqui sua preguiça? Por que não se movem mais? Seria uma boa tentativa. Avaliei essas e outras características no decorrer de minha vida aqui.
Sinto aflição quando vocês param e não fazem nada. Eu, por exemplo, não posso me igualar, pois sou um ser um tanto instintivo – não querendo me rebaixar, é claro! Não sou como a Gata Borralheira, que tem de regressar a casa antes da meia noite – sou eu depois da meia noite, meus hábitos são noturnos. Por isso eu fico dormindo de dia... Mas vocês são apáticos. Será que são assim até na sua intimidade? É uma pena eu não poder lhes dizer isso diretamente – algum tempo de evolução lhes fez “superiores” e meus dedinhos não me permitem escrever uma carta de aviso ou condenação. Sabe... Eu teria muitas coisas a lhes dizer, muitas mesmo. Tenho muitas soluções, tipo filosóficas, sabe... Esqueçam, sei que não importa pra vocês... vou ouvir um pouco de trance na casa ao lado.
Sinto que estou cada dia mais perto de uma parede só minha, pois me aflijo tanto pensando em vocês (...).
Tantos, tantos assuntos pendentes... o que houve entre eu e esse lagartixo foi algo revelador, mas de difícil alcance e aceitação minha e de minha raça. Será que essas lagartixas pensam?
Bom, já estou com um pouco de sono, já vou indo. Até a próxima.
Paulo Vitor Grossi
Enviado por Paulo Vitor Grossi em 05/10/2006
Código do texto: T256610
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Sobre o autor
Paulo Vitor Grossi
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 31 anos
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