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Vaca!

Passou na boca e pegou um fumo. Do pequeno tablete tirou um naco; o resto depositou no fundo da mochila. A mochila enfiou atrás do banco do carro.

Andou mais alguns quarteirões até o posto de gasolina onde abasteceu o tanque de sua pick-up. Aproveitou a parada pra preparar seu baseado. Com agilidade de artista confeccionou seu companheiro de viagem.
O próximo passo foi checar a prancha na caçamba. Tudo em ordem, já podia partir.

Sábado, sol, estrada. Oito e pouco da manhã e lá ia o jovem rapaz, tranquilamente, depois de uma semana de trabalho duro no escritório de seu pai. Já podia sentir os primeiros efeitos da cannabis em seus órgãos sensoriais enquanto a fumaça saía pela janela do carro; tudo se harmonizara: as imagens captadas pelas pupilas dilatadas, o reggae aos ouvidos sensibilizados, o vento nos cabelos e o calor do sol no rosto...

Em sua mente, sua namorada surgia deitada na areia, e podia pressenti-la ansiosa por sua chegada. Já havia uma semana que não a via. Ela estava de férias e aproveitou pra descansar, por isso já estava lá desde o último domingo. Mais uma hora e meia e estaria junto dela, acariciando sua pele macia e perfumada, como as pétalas de uma flor. Daquelas flores coloridas que ao refletirem o sol ganham uma luminosidade especial, atraente, exuberante. Exatamente iguais as que ornamentavam as árvores que beiravam a pista e estampavam o asfalto com as sombras de seus contornos.

Os raios de sol ultrapassando as folhas pareciam emitir uma mensagem celestial que o fez parar no acostamento. Aquelas árvores multicoloridas dariam uma ótima foto. Com seu celular registrou a imagem que mais tarde ofereceria para a sua amada, amante das flores. Conhecia-a muito bem; suas paixões, seus caprichos, suas fantasias, seus desejos.

De volta à estrada, sua visão perdia-se na paisagem
novamente. O verde sem fim, as casinhas em meio às montanhas de onde o sol surgia com toda sua majestade lembrando-lhe certos desenhos que costumava fazer em sua infância. As vaquinhas malhadas, as cercas, as plantações, as pedras gigantes. Era, sem dúvida, o cenário perfeito.
A cidade e suas intrigas, congestionamentos, falsidades, poluição e ignorância já estavam lá atrás. Nem nos seus pensamentos estavam mais. Agora, só a natureza, a saudade, o amor e a paz.

As ondas; não poderia esquecer as ondas. O mar perfeito. Meio metrinho com formação regular, sentido leste e com pouco vento. Algumas ondas mais servidas rolando em séries demoradas. Tudo informado pelo cara da rádio. Seguia feliz.

Cantarolava um “All we need is/Perfect love and understanding/And if we try try try”, quando sem que ele pudesse esperar, uma daquelas vacas que até então enfeitavam seu caminho, surgiu a sua frente. Nenhuma reação foi-lhe possível. O enorme e pesado corpo do animal chocou-se violentamente contra o parabrisa do veículo e, arremessado, se arrastou por mais alguns metros atravessando o acostamento até parar em meio à mata.

O crânio do rapaz chocou-se violentamente contra o volante e o painel. No capô da pick-up o sangue grosso escorreu carregando neurônios, massa cinzenta, lembranças, sonhos, esperanças, desejos, verdades, medos...


Leonardo André
Enviado por Leonardo André em 09/10/2006
Reeditado em 09/10/2006
Código do texto: T260296
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Sobre o autor
Leonardo André
São Paulo - São Paulo - Brasil
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