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O Convite

Quando cheguei não havia nenhuma indicação de que ela me esperava, mas disse que havia recebido meu convite pelo e-mail, mas eu não havia mandado nenhum, aliás, tinha recebido um dela.
Só a conhecia pela Internet, então, este seria o motivo ideal: um engano. Fiquei imaginando como seria minha anfitriã, alta, morena, cabelos compridos, olhos azuis, corpo malhado, medidas perfeitas, voz suave: um anjo sem asas. Sim, porque não sou de esperar pelo pior.
Aquela surpresa me excitava e no caminho até sua casa fiquei fantasiando muitas coisas. Aquela seria uma noite inesquecível para os dois.
Eu a pegaria em casa e sairíamos para andar pela orla da praia, depois um restaurante e no final um lugar especial só para nós.
Cheguei no prédio e toquei o número do apartamento, minhas pernas tremeram, pensei: ela deve ser incrível. Linda, solteira e morando sozinha, é tudo que um homem deseja.
Ao atender o interfone pude ouvir um cachorro latindo desesperadamente e uma criança gritando, e no meio de toda aquela bagunça uma voz rouca perguntando: - Quem é?
Fiquei empastelado e mudo na frente do aparelho enquanto ela não parava de repetir.
- Quem é? Tem alguém aí? Fala logo que eu to ocupada!
O que eu diria aquela hora da noite? Surtei.
- É o gás.
- O gás? Essa hora?
- É um serviço especial de entrega.
- Mas eu não pedi gás.
- Sim. Nós só estamos passando para verificar se está tudo bem.
- Bem? Claro que está.
- Então ta minha senhora, qualquer coisa basta ligar para nossa empresa e viremos entregar a qualquer hora.
- Eu não preciso de gás, meu prédio tem encanado.
Bom! Agora a vaca foi pro brejo mesmo. Tentei disfarçar.
- Mas é gás combustível.
- Mas eu não tenho carro.
Enquanto isso ainda pude ouvi-la pedir aos berros para a criança e o cachorro se calarem.
- Então tá minha senhora, acho que foi engano.
- É. Acho que foi mesmo.
- Então até logo!
- Espere aí. O senhor não entende de encanamento?
- Não senhora, a empresa apenas entrega gás.
- Eu estava precisando de um torneiro aqui em casa pra arrumar minha descarga do banheiro.
Nessa hora todo o encanto já havia se perdido há muito tempo. E aquela foi a gota d’água.
- Por que a senhora então não liga para uma empresa especializada?
- Já liguei mas eles não atendem urgências.
Então foi que pensei: por que não? Eu já tinha perdido minha noite mesmo, e ‘eu’ entendia de hidráulica. Resolvi subir.
Ao abrir a porta vi uma morena escultural, alta, de cabelos compridos, olhos azuis, com medidas perfeitas. Só a voz não combinava.
- Olá – disse gaguejando.
- Oi. Você pode vir por aqui.
Ela me levou até o banheiro para arrumar a hidra. Pra disfarçar tive de enfiar a mão lá dentro. Depois de 5 minutos eu estava cheirando igual urubu morto. Foi então que perguntei:
- É sua filha?
Foi então que tudo mudou.
- Não! De jeito nenhum. Minha vizinha saiu à tarde e deixou a filha dela e esse cachorro dos infernos aqui pra eu tomar conta e ainda não voltou, e pra piorar tenho um encontro com uma cara que ainda não chegou. Ta atrasado o imbecil. Eu detesto esperar e...
Alexandre Costa
Enviado por Alexandre Costa em 26/10/2006
Código do texto: T273970
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Sobre o autor
Alexandre Costa
Santos - São Paulo - Brasil
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Alexandre Costa