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Vermelho

Uma linear claridade, cedida pela grande e amarelada lua que iluminava com eficiência a noite estrelada, banhava o corpo da adormecida como um maquiador e seus caprichos remodelam a aparência de alguém. Seu corpo apresentava um tom mais claro que de costume, pálida, porém brilhante e, imóvel como estava, parecia de fato uma estátua, esculpida por grandes artistas renascentistas.

Delicada, a mão repousava ao lado do rosto como se propositalmente houvesse sido arranjada para que resultasse no que seu amado gostaria de ver. Seus pés gelados jaziam sobre o lençol branco. Não seria necessário cobri-los, pois o homem que tanto amava passaria a noite observando-a como um zeloso pai atravessa horas seguidas protegendo os filhos apenas com os olhos, enquanto estes dormem seus profundos sonos. E na ocorrência de alguma fina brisa incomodar, ela diria que sempre quando acariciada por ele sentia o corpo inteiro esquentar, que cada gesto, carinhoso ou não do homem a quem confiava a vida, era o organismo fundamental de sua existência.

Mas além dos desejos que enfeitam mentes com tanta precisão, se outra pessoa, além do rapaz, a visse naquele instante como um mero espectador da vida privada, diria que a moça, por alguma mórbida, ainda que inexplicável razão, não sonhava naquela noite.

A um palmo de distância dos devaneios apagados da mulher, o corpo nu do rapaz apresentava a região do abdômen enchendo-se de ar e esvaziando em seguida, mantendo um ritmo constante. A respiração seguia pesada: a cada expirada um sopro quente repousava contra o travesseiro que abrigava também sua cabeça. O crânio quase inteiro à mostra, com cabelos ralos cobrindo-o, permanecia inerte, enquanto observava a pessoa que seus sonhos criavam, em um futuro não muito distante, sua esposa; companheira para uma eternidade.

Enquanto janela afora o sol dava seus primeiros sinais de vida por entre prédios cinzas, uma porta no inconsciente do rapaz era aberta. Adentrava o quarto em atos involuntários, procurando alguma forma em sua mente de impedir que a cena chegasse ao fim e, para que isso fosse concretizado, era preciso que a história recomeçasse. Porta fechada e, pé ante pé, como se descrito em quadros, a cozinha e o corredor para o quarto são descritos na memória como tinta branca para preencher uma tela vazia. A porta novamente se abre, e, desta vez, não há como regressar e fugir à realidade; o olhar perdido encontra seu amor deitada na cama, descoberta, nua, sonhando.

A lâmina afunda sobre a pele macia como enxada em terra molhada. Desliza corpo adentro como se de lá pertencesse o objeto. Sangue escorre desenhando enormes manchas vermelhas no lençol antes branco. E o silêncio, como o irritou o silêncio, mesmo ao encontrar os olhos abertos e apaixonados da mulher e vê-la despedir-se calada, nada que denunciasse seu ato e o condenasse por uma vida inteira. Nada, a não ser um olhar, o mesmo e sincero olhar de amor. O dia claro devolve as cores ao quarto. Ambos continuam deitados sobre a cama. O telefone toca. Não há ninguém em casa.
Ricardo Sorrenti
Enviado por Ricardo Sorrenti em 27/10/2006
Reeditado em 27/10/2006
Código do texto: T275143
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Sobre o autor
Ricardo Sorrenti
São Paulo - São Paulo - Brasil, 32 anos
5 textos (233 leituras)
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