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Insetos

Hoje de manhã, ao acordar...
Eu até estava tranqüila em relação ao meu humor... Tudo normal, como sempre.
Me levanto, tomo meu remédio.
Fico pensando na vida, não sei porquê.
Refaço passos... Ops, alguém acha que é sobre ele. Mas nada mais é sobre isso.
Continuando, refaço passos... Trilhas pela mente. Pensos em coisas que gostaria de esquecer, deixar de lado. Preciso de férias.
O dia está lindo hoje, pensei. Mas algo certamente tinha que quebrar esse encanto.
Não sei porque, os pais sempre descontam nos filhos.
Também não entendo porque deve existir algum culpado.
Mas eu já estou acostumada...
Não digo que não fiquei mal, o que aliás, seria uma mentira. Isso realmente me incomoda.
Até estou incomodada, pois escrevo esse conto/crônica meio "atrasado"... Sei lá, eu estava tão inspirada de manhã...
Enfim, fiquei incomodada. E muito.
Fui limpar o chão da casa, que estava uma sujeira... E encontro um inseto.
"Que inseto nojento!", eu penso, e imediatamente começo a bater no bichinho com a vassoura, despejando toda a minha raiva.
-Nojento e insistente, ainda por cima! Tu não morreu ainda?, exclamo, enquanto bato mais forte...
E o bichinho lá, sem entender nada, agonizante em sua dor sem motivo algum.
Fiquei vendo as patinhas daquele inseto tremerem... Ele ainda queria viver!
Até fiquei com pena dele, quando terminei por esmagá-lo com meu chinelo.
Parei para pensar no que tinha feito... "E daí? É só mais um inseto idiota no mundo!"... Não é bem assim.
Quando notei, agi exatamente como meu pai: irritada por qualquer motivo, descontei em um ser que aparentemente é inferior a mim... Havia descontado toda a minha raiva, minhas frustrações daquela semana, em um bichinho que nem se quer me conhece, e que nada tem a ver com toda aquela bobagem. Exatamente como meu pai.
Me senti um verdadeiro lixo.
Logo eu, que odeio matar um "mísero" inseto!
E logo refleti, tentei achar uma explicação para tudo aquilo... Por que as  pessoas descontam em coisas e seres que nada tem a ver com a situação, sempre?
Talvez fosse por medo, ou por pura conveniência. Por exemplo, novamente, meu pai: ele desconta as vezes em mim coisas em relação ao trabalho dele, a vida que ele tem, porque ele sabe que mesmo que eu esteja certa, a palavra final sempre vai ser a dele... Isso é muito conveniente mesmo.
Mas sei lá, eu já tentei de tudo, e as vezes até eu desconto em coisas que, pobrezinhas! Não tem culpa de nada...
Isso também me deixa chateada... Muito mesmo. Pois imagina, se eu acabo descontando em alguém que eu amo muito?
Ou se, por acaso, eu acabo "sujando" uma relação, por causa das minhas frustrações interiores?
Sei lá, eu não sou contra o desabafo... Não sou contra a amizade. Até gosto quando as pessoas vem me contando dos seus problemas, eu amo ajudar os meus amigos. Mas as vezes estamos irritados, estressados, e acabamos descontando no amigo ao lado. Acho que isso realmente é muito ruim para uma relação.
As vezes a gente fica falando sozinho, conversando com as árvores... Não, eu não estou ficando louca. Bem, entenda que esse texto possa ser um diálogo sobre qualquer-coisa com você. Imagine, estou aqui desabafando com um desconhecido.
Sei lá o que eu quero dizer aqui, pois eu não tenho um final para esse conto/crônica. Nem sei o que realmente é esse texto, mas pode ser considerado um desabafo, uma conversa... Uma filosofia que eu gostaria de ter com quem não posso, ou com que não quer.
Voltando ao inseto... O fim dele foi o seguinte:
Mesmo depois de agonizar com vassouradas, e depois de ser esmagado pelo meu chinelo, o bichinho ainda estava vivo. Mas ele tava tão mal, nem andava mais, que eu resolvi afogar ele na água do balde... Sei que não foi muito legal, eu também não peguei ele pelo pescoço e enfiei dentro da água... Mas juntei ele com o pano e ele foi junto com a sujeira...
Relacionando com minhas relações, fico meio preocupada... As vezes a gente age por impulso, sem pensar... O dia que começou ruim, uma manhã que foi chuvosa, o carro ao lado que bateu no nosso... Tem tantos motivos, dos mais fortes aos mais "bestas" para acabarmos estragando mais dias de mais pessoas... =/
Seria bom mesmo se nós sempre soubéssemos como agir nesse tipo de caso, pois evitariam muitas tristezas e muitas brigas sem necessidade... =D
Talvez tentando um dia a gente aprende, certo? Só precisamos separar o que é "inseto" do que é "gente", ou melhor, precisamos aprender a separar o que realmente foi a fonte do nosso stress, e descontar na pessoa certa.
Alecrim Crim
Enviado por Alecrim Crim em 28/10/2006
Reeditado em 28/10/2006
Código do texto: T276298

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Sobre a autora
Alecrim Crim
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 27 anos
374 textos (14585 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 15:50)
Alecrim Crim