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O CARÁ TER DE CADA UM

O CARÁTER DE CADA UM

Ao chegar a madrugada, após um dia inteiro de boa conversa e estórias descontraídas com amigos que não via há muito tempo, acordei com a palavra “amante”  na minha mente. Muitos se assustam ouvir esta palavra. Talvez, sem necessidade. Acontece que a palavra “amante” fere em determinados momentos. Mas, amante é aquele que trai, ou aquele que ama? Cada um pense como quiser, o fato é que àquela madrugada, eu acordei com a palavra “amante” na cabeça.
Tudo isso me fez lembrar de Gisele, uma jovem que conheci quando tinha 15 anos de idade, ela 16, já chegando aos 17. Nunca soube se fui traído por alguma mulher que me relacionei ao longo do tempo, exceto nesta passagem de início de relacionamento com Gisele.
Começamos a nos relacionar em um curso que fazíamos para o mundo do trabalho. O centro da cidade era nosso cenário constante, porque era lá que estudávamos. Idas ao circo, passeios de bonde e, às vezes, até uma esticadela na praia no final de tarde para uma água de choco, fortalecia esse lindo romance juvenil.
Eu sabia que ela morava em Nilópolis, que fica perto de minha casa. Então, sempre comentávamos sobre nossas moradias, ela não demonstrando muito conforto, eu, sempre de maneira regrada e sutil, contava mil maravilhas de minha humilde choupana, não que ela fosse pronta para um rei ou coisa qualquer, mas, digna de uma família unida e feliz. Depois de algum tempo, seduzida pelos comentários do meu doce lar, ela pediu para conhece-lo. Assim o fez. Mas, no dia combinado, não sei se por sorte ou azar, meus pais não estavam em casa. Sempre fui uma pessoa muito respeitadora, entretanto, não era ingênuo a ponto de não saber onde tudo aquilo poderia acabar. Dizer que eu não pensei em ter relações sexuais com aquela mulher, dita jovem, seria hipocrisia de minha parte, afinal, éramos namorados e estávamos chegando ao fim do século XX. Naquele dia, exatamente naquele momento, fui possuído por uma estranha sensatez que me fez desistir de ter aquela jovem em sua plena intimidade. Coloquei minhas vestes, então, lhe pedi desculpas.
Nosso próximo encontro seria no sábado, para um passeio em Niterói, na casa de uma professora que atendia pelo nome de Sara. Ela nos esperaria na saída das barcas, em Niterói, com certeza teríamos um belíssimo passeio. Sara era uma de nossas melhores professoras do curso. Muito dedicada ao trabalho e amiga de todos, estava sempre disposta a nos ajudar no que fosse preciso. Nós sabíamos, de fato, que do outro lado da Baía, lá estava ela nos esperando para nos ajudar a crescer em maturidade e nos mostrar, verdadeiramente, como ser feliz. Enquanto, deste lado da Guanabara, esperávamos a próxima barca para navegarmos pela primeira vez nas águas, umas tanto fétidas, desse maravilhoso cartão postal carioca.
Quando a vi pela primeira vez naquele dia, percebi que algo de estranho havia em seu olhar, mas nada perguntei, devido a minha implacável discrição. Contudo, ao entrar na barca, não hesitei em perguntar se havia acontecido algo com ela. A viagem prosseguiu e eu, angustiado, insisti na pergunta a fim de que pudesse ajuda-la de alguma forma. Mal sabia que eu precisaria de ajuda, mais tarde. De repente, ela me disse que precisava terminar todo o romance. Parecia que havia levado um tiro. A barca corria e eu olhava para as águas da Guanabara e minha vontade era de pular dali para que ela se compadecesse de mim e voltasse atrás em sua decisão. Claro que nunca tomaria tal atitude. Subterfúgios não combinariam com a maturidade que estava se instalando em mim. Mas ao longo do dia não consegui evitar a tristeza que pairou sobre minha face e o dobrado que se formou em meu queixo. Sara tentou me consolar, querendo me convencer de que eu era novo e isso não era nada diante de tantas decepções que eu teria em minha vida. Sem dúvidas ela acertou mais uma vez, mas naquele momento aquilo era incompreensível para mim.
Depois desse fatídico passeio, voltamos a nos falar pelo telefone e ela se convenceu, então, de que eu merecia uma explicação mais plausível. Finalmente, conversamos como dois jovens que viviam um amadurecimento com veemência.
__ Tudo bem, sente-se que eu irei te contar tudo, disse ela com a respiração ofegante. Naquele momento minha cabeça rodava. No fundo sabia que não a amava. Contudo, gostaria de elevar meus sentimentos a tal grandeza. Então, com os olhos arregalados parei para ouvi-la. Ela prosseguiu dizendo:
__ Eu menti para você.
__ Como assim?!
__ Eu tenho um compromisso. Por isso eu não posso ficar com você.
__ E... Que tipo de compromisso?
__ Eu tenho um noivo.
Embora tivesse pensado nessa possibilidade, quando suas palavras atingiram meus pensamentos, meu coração apertou. Fiquei com a voz embargada e ela tentava me consolar fazendo carinho na minha mão e no meu rosto. Estranhei sua atitude, então uma grande confusão se fez em mim, principalmente, quando ela disse que gostava muito de mim. A solução estava ali, nas nossas mãos. Mas, não era tão fácil como eu imaginava. Além de gostar de mim, ela gostava muito de seu noivo também. Depois de ter sido um homem de caráter e respeita-la como mulher e ser humano, tive que manter minha dignidade e abdiquei desse romance, no qual eu traí e fui traído. E grande traído dessa estória, cujo nome era Arapuá, continuou com ela, sem ele nada saber, casou e teve filhos. Talvez eles sejam felizes até hoje. Na verdade, esse é meu desejo.
Da mesma forma que eu me lembro bem deste fato, ela também se lembra. Disso eu tenho certeza.
Para mim o destino reservou outros caminhos. Sou homem de vida santa e profana, que soube e sabe aproveitar os momentos que a vida deu e dá.
Com essa experiência, aprendi que o amante é aquele que ama ou, pelo menos, tenta amar. Em que circunstancias? Isso vai do caráter de cada um
Eduardo Dias
Enviado por Eduardo Dias em 05/11/2006
Código do texto: T282912
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Sobre o autor
Eduardo Dias
São João de Meriti - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
15 textos (467 leituras)
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Eduardo Dias