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Tempo perdido – Parte Um.

5:55.  – abriu e fechou os olhos repetidas vezes tentando focalizar bem o visor do rádio-relógio em cima do criado mudo.
Click.  – antes que o primeiro apito estridente do despertador soasse, estendeu o braço preguiçoso com certa destreza e rapidez acertando-o em cheio.
- Cê já devia tá de pé.  Deixa de ser preguiçoso e levanta logo.  Seus outros concorrentes já estão de pé.  Prontos.  De banho e café da manhã tomado. Sabe, talvez eles nem dormiram essa noite.  Unf...  Esse vestibular tá te levando a loucura. Neorose a flor da pele.  -  ainda espreguiçando-se alongadamente na cama, ouviu na porta a batida forte e compassada da mãe.
- Mas aqui num tem conversa.  – pensou quase alto (um leve sorriso no canto da boca e mais um bocejo demorado).
Vestiu-se rapidamente, ainda com muita preguiça.
Entrando na cozinha, cumprimentou a mãe com um breve “bom dia”, procurou na geladeira algo que pudesse lhe servir de recheio para o pão de forma (que em cima da mesa na noite anterior o havia acompanhado em seus estudos noturnos).  Com desleixo, recheou três pares de pão que seriam seu almoço e lanches.  Tomou seu leite com bastante café como de costume.  Escovou os dentes apressadamente.  Pegou alguns livros que achou necessário levar ao cursinho.  Colocou-os todos na velha mochila de batalha e, atrasado como sempre, montou sua bicicleta e saiu na contra-mão da garagem em direção à escola.
- Making my way downtown, walking fast and I’m home bound.... di di didi di dim.... di di didi di dim.... starting making’ my way, making’ my way through the crooowwwwwnnnndddd... di di di di dim... di di di di dim....  Odeio essa música!!  - bufou, sentindo o vento gélido da manhã cortar seu rosto.
– Tam tam tam tam tam tam. And I need you.  Tam tam tam tam tam tam. And I miss you. Tam tam tam tam tam tam.  And now I wonder.... Cê é meio retardado, né?!  Besta.  -  agora sentia seu nariz escorrer levemente.
– If I could fall into the sky.  Do you think time... would pass us by. Cause I can walk to a thousand miles if I could just... see.. eeee... you..... tonight!  É...  Eu sei que eu tô pirando.  Nunca vi ficar cantando uma música que num gosta.  Vai se lerdo assim lá longe!!! -  adentrara a escola ouvindo o segundo sinal soar.  Agora era correr para pegar a porta da sala aberta – pensava enquanto trancava a bicicleta.
- Como eu sempre digo:  “Você é um pleno idiota.” É assim que vai conseguir passar no vestibular.  -  pensou descansando a mochila do ombro.


- Atrasado de novo,  em Mathias?  - perguntou um jovem sentado à mesa em frente a porta da sala.
-  Pois é, Jão...  Fiquei estudando até as duas e poco hoje.  To meio mole ainda.
- Vamos lá que eu abro pra você.  Última vez heim, cara.  -  o inspetor ia pegando a chave referente à porta 666, relativa ao cursinho.
-  Jão...  valeu mesmo, cara.  Sem querer xavecar, mas... Cê é meu anjo, mano!  -  a porta se abriu, João pediu licença ao professor e sob uma forte salva de vaias, palmas e bolinhas de papel, Mathias entrou na sala, dirigindo-se ao seu lugar de costume.
- Que bela bosta!  Esses caras não tem mais nada pra fazer?  - pensou  sorrindo e acenando para a sala enquanto subia o inclinado anfiteatro em busca do seu lugar no canto da sala.
Cumprimentou seus compadres de sala.  Acomodou-se bem.  E, assim passou todo o período de aulas.  Vez por outra discutia um exercício cabeludo de Química ou Física com os professores, ou comentava com um aluno e outro se ia aparecer na aula de Livro à tarde.
No intervalo, como de costume, subiu as escadas até a biblioteca.  Lá lia o jornal rapidamente.  Era estritamente necessário que estivesse a par de tudo.  Tudo poderia servir de tema para a redação no vestibular.  Era seu primeiro ano de cursinho, mas ele sabia:  devia se preparar com afinco.  Medicina não era fácil.  E, não era para todos.  Ele devia fazer o diferencial.

12:45. Olhou o relógio em tempo de ouvir o sinal de saída tocar.  Já não agüentava mais os comentários literários do professor mais cheiroso e mais galã do cursinho.  Naquela tarde, sabia que não ia às aulas de Livro.  Havia dito a alguns compadres que iria. Mas, estava certo:  não ia.  Talvez passasse pela sala para saber como as coisas iam.  Talvez entrasse só para fazer média, depois sairia discretamente.  Era mais importante para ele estudar as matérias biológicas e não as humanas.  Certamente não seria necessário decorar todos aqueles verbos e livros para responder perguntas como “a raiz tripla exata de 57,375”.
Isolou-se num canto do pátio para almoçar seu lanche amassado e gelado.  Comprou na cantina um refrigerante, como de costume.  Mastigou cada pedaço de pão amanhecido pensando no esquema de aulas e matérias que estudaria agora à tarde.  Em dois tempos já havia devorado os três sanduíches.  Levantou-se, cumprimentou os funcionários (que vez por outra passavam) e dirigiu-se calmamente novamente à biblioteca.  Lá se deitou na mesa para fazer uma cesta e só acordou quando ouviu o sinal bater indicando o início das aulas.
- Dormiu bastante em cara?  -  sentado à sua mesa encontravam-se mais três garotos.
- Devo tá com a cara toda amassada ainda.  Acho que até babei.  -  comentou Mathias feliz por ver-se acompanhado para aqueles infernais estudos da tarde.
- Alguém conseguiu fazer os exercícios de Física?  Tirando o Mathias...  – perguntou o garoto de frente a Mathias.

Em poucos minutos os quatro afundaram-se nos livros estudando na sala não muito silenciosa da biblioteca.  E assim prosseguiram por toda tarde e um pedaço da noite.
Às oito horas em ponto, com a biblioteca já vazia, Mathias (exausto, necessitando de um bom banho e uma boa refeição) recolheu seu material, pegou sua bicicleta e deixou a escola de volta para casa.
- Making my way downtown walking fast and I’m home bound. Di did di di dim... di did di did dim...  Starting making my way, making my way thought the groooouuunnnund....   Idiota!
Pandora Ibsen
Enviado por Pandora Ibsen em 12/11/2006
Código do texto: T289393
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Sobre a autora
Pandora Ibsen
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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