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DILEMA

(...)o povo "bestializado", calado por medo ou por estupidez, esquecido de que a violência pode, amanhã voltar-se sobre qualquer um de nós.
Lima Barreto, em "Toda Crônica".

RETRATO

...No pátio ajardinado, uma esfiapada cadeira embala aquela reclusa senhora sexagenária, manca, doente, sem posses. Corpo magro, gasto, maltrapilho. Mãos grandes, ossudas, estragadas por falta de cuidados e pelo trabalho pesado quando moça. Sua carapinha desgrenhada é um bolo de algodão melancólico. Tem os lábios caídos pela falta de dentes nas duas arcadas, numa expressão murcha de alegrias, que se espalha por todo semblante.
Seu aspecto despojado é um suplício aos espelhos da vaidade. Provações a escolheram para ser cobaia de suas mazelas. Teve paralisia na perna direita aos dois anos; recém-casada, Lúcio, o marido foi vitimado por brutal latrocínio. Quase sucumbiu. Grávida, esteve à beira de aborto espontâneo. Após o nascimento da filha foi acometida por depressão pós-parto e enlouqueceu.
Viveu meia década em sanatórios. Sofreu maus tratos. Contraiu pneumonia, seguida por tuberculose. Durante briga entre internos, deu pedradas e recebeu pauladas na cabeça, vindo a ficar em coma. Diagnósticos aventaram que não se recuperaria. Uma foto da filha recém-nascida, em seus pertences, segundo médicos foi o elo que a reanimou, por ser a primeira coisa que ela falou, apalpando suas vestes:
- Cadê o retrato da minha Lu?

ATENÇÕES

Numa casinha de dois cômodos morava dona Francisca junto com a filha. Ela refizera-se aos poucos. Lavava roupa pra fora e cuidava de algumas casas de prósperas famílias, inclusive a cozinha. A filha, enquanto pequena, comia as minestras trazidas pela mãe. Eram sobras de fartos cardápios. Sentida em lançá-los no lixo ao lavar as panelas, dona Francisca acondicionava em potes plásticos e levava para casa. Luciana foi crescendo e manifestou repugnâncias por aquela comida reaproveitada. Cedo se empregou. Tendo seu ordenadinho garantido como balconista de lanchonete nas horas vagas, participou à mãe que, por conveniência do trabalho a desobrigava de esperá-la para jantar. Dona Francisca acenou gestos compreensivos aos ossos do ofício e acatou.
Que importância daria às exigências mesquinhas, aos serviços degradantes que alguns patrões e seus filhos a sujeitavam, se Luciana apagava com sorrisos e cobria de beijos suas agruras?
Uma carícia dela a reconfortava. Sentia-se mais afortunada do que acertar sozinha numa loteria. Novos sentidos rascunhavam seu coração viúvo! Ninguém mais acendeu seus sentimentos. O trabalho e a filha tornaram-se a razão de sua vida.
Luciana cresceu. As atenções, escassearam! Quando criança pedia-lhe a benção, acolhia a mãe nos braços e a cobria de beijos. Adolescente, apenas cumprimentava. Com os primeiros pagamentos após lotar seu guarda-roupa, começou a comprar-lhe largas calças e saias compridas. Carinhava-a com reserva e a recriminava, quando de surpresa, aparecia alguma amiga e a via com as pernas à vista. Dona Francisca, experiente nos pelourinhos da vida, assentia.

APELIDO

Luciana não sofreu por menos. Desde o ingresso na escola pública do bairro, teve inicio a sua via crucis. As colegas, ao vê-la ir e vir em companhia da mãe começaram a chamá-la – a filha da manca. Aquilo a magoava. Queixou-se. Dona Francisca pediu calma, tolerância. Assim agiu. Porém, quando provocada, respondia enérgica:
- Meu nome é LU–CI–A–NA!!!
As meninas riam, os meninos debochavam nas esquinas, pelos banheiros, na cantina: filha da manca! Os patrícios, em minoria, oriundos de família operária, talvez temendo represálias evitavam tomar partido. Luciana recorria aos professores, alguns censuravam os alunos, ameaçavam. Mas o apelido pegou. E espalhou depois que Luciana largou os freios das boas maneiras, esmurrou e esfregou na parede as faces de uma colega, onde a frase havia sido pichada. De vítima, virou acusada sob sermão salgado, por ter sido bruta com os “inocentes”. Escapou de expulsão por ser aluna assídua, com boas notas. E não só na escola a chamavam assim.
Nas ruas, ocultos pelas sombras, ouvia: Lá vai a moreninha filha da manca! Lá vem a mulatinha filha da manca! Ih meu, pára com isso. Se eu gostasse de preto, dispensava urubu e colocava a macaca filha da manca na minha janela!
O coro aumentava. Rebeldes irmãos, filhos peraltas, eram intimidados por seus responsáveis quando a viam passar:
- Se você não aquietar eu vou mandar a negona filha da manca te pegar!
As vizinhas, nos festejos natalinos, arrecadavam doces, roupas, brinquedos para famílias carentes. E rápido aprendiam a chamá-la como as outras, se Luciana por algum motivo encontrava-se distante. Afastando os pequenos afoitos que as circundavam, apontavam com piedade e simpatia:
- Aquela escurinha, a filha da manca. Hei você, sim, leve esta cesta pra sua mãe!

MUDANÇAS

Luciana pediu à mãe que parasse de buscá-la. Contou a causa, os arremedos. Dona Francisca expirou longo e dolorido suspiro e nunca mais foi vista no portão. Tempos depois, Luciana solicitou ser transferida. Nem bem aqueceu a carteira, descobriram e pisaram no seu calo e ela mudou de escola.
Brigar por intrigas e malmequeres - consumiam tempo e energia. Decidiu entrar numa oficina de costura, pois havia saído também da lanchonete.
Em busca de sossego, Luciana reservou-se. Trabalhava com mudo afinco. Falava o essencial. As funcionárias vendo-a nas graças da chefia, por seu produtivo comportamento, temeram mudanças. Escarafuncharam sua vida e depressa espalharam o apelido, humilhando-a, pior que no colégio:
- A filha da manca deve ser dedal mandado.
  Pelas mãos do gerente conseguiu vaga para repositora de estoque numa loja de armarinhos. As colegas tomaram conhecimento do encaixe, se juntavam, insultando-a:
- A filha da manca é franguinha do patrão...
Este, apesar do reconhecimento ao seu trabalho, de favores devidos à gerência da oficina, vendo queda na produção, armou-se de prudência e dispensou Luciana, que não mais se reservava. Atacava igual pantera enfurecida.
Exausta, largou tudo. Andou em branca nuvem, confinada pelos cantos, muda, ensimesmada. Ora calma ora irritada. Tristonha, comia pouco, emagreceu. Começou a sair sozinha, sem dar satisfações. Evitava locais públicos, principalmente com a mãe.
Dona Francisca temia pela filha. Lembrava-se de Lúcio. Caminhoneiro, se despediu com promessa de breve retorno, trazendo um vestido que ela havia visto num mostruário. Queria desfilar ao lado do marido, desfrutando seu amor e a gestação do fruto conjugal que estava por vir! Passavam curtos tempos juntos.  Uma semana depois veio a triste notícia. Ladrões aproveitaram a marcha lenta numa ladeira erma e invadiram a cabine. Ele tentou defender o veículo e a mercadoria. Era forte, destemido, leal ao patrão e a quem lhe depositasse confiança. Seu corpo foi encontrado num barranco, mutilado, o rosto quase irreconhecível. Favorecidos pela guarda local, o caso foi julgado à revelia e os acusados absolvidos por insuficiência de provas.
Por volta dos dezoito anos, sentindo-a mais refeita, dona Francisca com auxilio de uma ex-patroa conseguiu vaga num salão de cabeleireiro. A senhora expôs o drama da filha e da empregada, e rogou discrição.
Luciana encontrou no salão uma certa frieza e distância por parte das colegas. Quando a encarregada chamava-a pelo nome, ela notava risos dissimulados. Ficou arredia. Sem sentido, estranho soava o descaso. Se fosse Ayodele, Kênya, Chindalena, Bandelê, Ashanti, Massai, Dandara; incomuns na localidade, e, segundo informações: restritos a redutos culturais, religiosos...
Aos poucos as suspeitas, os risos inquietantes, arrefeceram. Um bem estar naquele lugar começou aflorar. Camaleou-se. Mesmo quando algumas clientes aguardavam, por preferência a cabeleireiras mais claras, insinuando com trejeitos espíritas que mão de negro é suspeita.

AFETOS

Luciana se apaixonou. Na vida, nos namoros encontrara barreiras que a forçavam desistir, a bater em retirada sem confrontos. Sentia-se vazia, incompleta. Sua existência se constituía de projetos inacabados, domados pelas circunstâncias, amoldados a conveniências. Agora, a beira dos trinta, o quadro era concreto: ela amava.  Intensamente. E estava com fome de viver! Correspondida, renasceu e decidiu por amor guerrear se preciso fosse.
Luciana se fez presente em casa e desdobrava-se em afetos pela mãe, coroando-a de contentamentos! Dona Francisca sentia-se um estorvo depois que um derrame a forçou parar de trabalhar. Com a alma refeita, cantava durante todo o dia e religiosamente, antes de adormecer, curvava-se em humilde louvor:
 - Senhor, sou muito feliz. Agradeço por mais um dia de vida e pelo amor da minha filha. Que todas mães do mundo sejam feliz que nem eu!

PASSAPORTES

Em papel sedoso e perfumado, Luciana refinou na caligrafia passagens da sua vida, sonhos, planos de amor. Na manhã seguinte, logo cedo, enviou a carta. Ele morava sete quadras acima. Deu oito moedas a um moleque. O relógio assinalou torturantes minutos de espera. E resumiu-se num simples “Obrigado, depois responderei”.
O retorno estendeu-se em dias açoitados de apreensões. Insegura, elencou possíveis causas. “Ele é um homem ocupado, objetivo, seguro de si, charmoso, bem posto. Impulsiva, carente, beleza comum, com parcos dotes, me entreguei aos seus abraços sem maiores indagações”.
Recebeu enfim breve resposta, com aroma de maçãs. Fernando afirmava ter seu coração avistado nela o perene porto seguro procurado para completar-lhe a vida. Sua singela beleza esculpida em mogno maduro o havia cativado. Só de pensar-se longe dela se sentia ninguém. Queria se casar em breve. Constituir família em solo fértil, na terra firme. Desde que ela se desligasse da mãe! As razões eram honestas, convincentes. Sugeria mudanças. Conheciam Luciana de forma constrangedora. Rogava compreensão a sua posição e se dispunha a colaborar. Era de seu conhecimento ter ele obtido serviço de confiança bem remunerado, por indicação parlamentar, numa tradicional empresa em expansão; conseguira bolsa integral em renomada faculdade, concluído o curso tinha assegurado cargo executivo; o padrinho acenava facilitar boa morada em região promissora, e outros passaportes a famílias influentes. Por essas e outras não podia sujeitar-se a ser cunhado – o genro da neguinha filha da manca – ou algo parecido. “É o preço dos novos tempos. Acatamos ou voltamos às correntes”, resumia.
Luciana desaguou todos os choros represados! O dilema a emparedou. Seu belo príncipe caramelo possuía planos ambiciosos e visão de faxineiro!
Quando a tristeza passou, a paixão ardeu em rebeldes labaredas juvenis. Luciana viu na mãe a gênese de seu calvário! Sua existência era um inexplicável martírio. Movida pelo instinto, adaptou-se para sobreviver. Agora o mais radiante sonho, uma das aspirações mais desejadas por uma mulher, evaporava-se como névoa! Não lamentava. Amaldiçoava. Deus, a natureza, o mundo. “Tenho que resolver esse trambolho. Emprego em outra região pode ser boa desculpa. Se recuar, assinarei meu atestado de fracassada. E lamentar pelo resto da vida a oportunidade perdida. Tenho direito de ser feliz ou o sol é proibido de brilhar pra mim? Amo Fernando. Não vou deixar meu pássaro escapar!”
Ajeitaria o fardo materno. E retribuiria em rito sagrado ao amado o amor prometido. “Eu não queria sair desse buraco? Se tivesse um irmão a quem pudesse confiar, desobrigaria Fernando, passaria a carga encenando choros de novela e iríamos pra algum lugar distante, vindo visitá-la em passos de gato”.

CAMINHOS

O dia transcorreu atormentado como cenas de pesadelos. À noite, no trajeto do trabalho para casa afinava o plano. Em dados momentos, vacilava, sentia-se um monstro.
Apoiada numa muleta à beira da pia, a mãe esforçava-se em lavar alguns pratos. Luciana titubeou. Dona Francisca aprumou a muleta, ajeitando nela a perna doente. O derrame havia complicado a paralisia. Luciana aproximou-se, afagou-lhe o cabelo, retirou a esponja de suas mãos e com doce na voz sussurrou:
- Deixa, mãe, eu limpo tudo. De hoje em diante vou cuidar da senhora como se deve.
Dona Francisca se voltou, sorriu franco e largo sorriso, que rebateu nas panelas e se refletiu nos olhos da filha. Para ela o amor de Luciana era verdadeiro. Diferia dos patrõezinhos por seus pais, interessado em dinheiro e prestígio.
Limpeza completa. Luciana a fez norteada por Fernando e conselheiros. Hospedaram dona Francisca num longínquo asilo, conhecido por Casa de Repouso Happy Days Garden, sob protestos anestesiados. Perante seletos convidados se casaram – rumo à chácara Cachoeira Dourada em lua de mel partiram – para abrir os caminhos...
Cidade Tiradentes, 2005.


Publicado originalmente no livro CADERNOS NEGROS, volume 28, contos afro-brasileiros, edição Quilombhoje, São Paulo/SP, 2005, www.quilombhoje.com.br
OUBÍ INAÊ KIBUKO
Enviado por OUBÍ INAÊ KIBUKO em 18/11/2006
Reeditado em 11/12/2006
Código do texto: T294453
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OUBÍ INAÊ KIBUKO
São Paulo - São Paulo - Brasil, 61 anos
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OUBÍ INAÊ KIBUKO