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Silêncio de Édipo

                                                  Silêncio de Édipo



A consciência de um homem é como um animal sádico. Queiram discordar de mim, mas não neguem que ela está em nós, permite o blefe e depois nos devora, como a oportunista Esfinge. Melhor seria não tê-la e abdicar de uma vida medíocre e de privações. Acho que teria vivido assim se não tivesse nascido na casa de meu pai, se não tivesse experimentado a doçura de minha mãe e partilhado com Euclides e Mariana a crença de que nossa família era a melhor do mundo, porque era a nossa.Crescemos acreditando nesta máxima de meu pai que, segundo ele, o que nos tornávamos amigos era a lealdade um para com outro.

Foi o melhor momento de nossas vidas. Papai e mamãe tiveram a felicidade de nos curtir como crianças que éramos, capazes de amar e perdoar sem ressalvas. De Euclides a papai, havia um elo que nos comprometia no íntimo das intenções, e não havia como ficar indiferente à sensação de abrigo que o velho nos causava, com sua fala mansa e grave, empunhado de um estereótipo beijoqueiro: cadê meus filhinhos? Impregnávamo-nos em seu cheiro forte de suor, e cigarro. Não o diferenciávamos de um magistrado, sabíamos apenas que era nosso pai, e o amávamos.

Talvez porque nesta época eu já contasse com o mito dos doze anos, e suas transformações, fui distanciando-me aos poucos de meu pai, para poder admirá-lo à distância. Acho que ele me entendeu, porque sempre me pegava com alguma moral sutil por baixo de um olhar furtivo, e enigmático, como de um mestre a seu discípulo. Passei a imitar seus gestos, e a evitar as brincadeiras com meus irmãos. Só não adquiri o hábito de fumar graças à vigilância de mamãe, atenta aos filhos e a minha delicada transição.

Embora não houvesse fartura de nada em nossa casa, na verdade, faltavam coisas, ainda que meu pai desse duro em um armazém de café, ganhando um salário minguado, como dizia, reforçado com que minha mãe ganhava pelas faxinas que fazia. Mesmo assim, nem ele e nem ela permitiram que eu trocasse os estudos por algum trabalho, e dessa maneira despojada, vivíamos em união, no mais perfeito sentido do amor familiar.

Os anos consumiam-se juntamente com nossa infância. Eu saía do ensino médio, quando meu irmão ingressava nele. Neste mesmo ano, mamãe contraiu uma gripe besta, que em apenas um mês, transformada em pneumonia, levou nosso espelho e berço de ternura. Meu pai viu-se viúvo em torno de uma família por criar, só contava com o mínimo que ganhava para alimentá-la. Foi quando deixei minha infância e os estudos para trabalhar em uma marcenaria.

Nesse período angustioso de nossas vidas, fortaleceram-se os laços de nossa união. Era freqüente sermos pegos de surpresa, chorando a saudade de mamãe. Nenhum de nós escapou do mal do século vinte e um. Lembro-me deprimido, igualmente papai e os dois irmãos, sem vontade de viver. Hoje, digo sem nenhum embaraço, que este período lamentável foi perdendo intensidade, por conta da precipitação de um outro fato repentino causado pela Mariana. Resguardo-me de uma idéia possessiva, mas ela tinha apenas quatorze anos e, repentinamente nos deixou, para ir morar com o Jacinto, como se fossem casados, e nem sabíamos de seu namoro.

Tentamos às duras penas evitar este absurdo. Combinei com o Euclides deformar a presunção daquele pedófilo, mas a mestria de papai nos persuadiu que dos males este era o pior. Ainda não sei se era ele que estava certo, porque, se tivéssemos defenestrado o Jacinto, teríamos dado um outro rumo a nossa história, e eu poderia ter conservado minha consciência. No entanto, papai nos venceu, porque eu o admirava.

Aos poucos, a saudade de mamãe foi-se espaçando à medida que o tempo passava. Também a lembrança da Mariana passou a confundir-se com a indiferença que nos petrificava, envelhecendo papai com uma pressa desnecessária, atolando o Euclides nos estudos de direito, e eu, cada vez mais lacônico, amargando o desejo de voltar a ser criança, rememorando os tempos perfeitos que se distanciavam.

Havíamos tomado por hábito essa morbidez familiar. Creio que isto não doía mais em mim que em papai e Euclides. Passamos a viver como que ruminando alguma coisa que ficara mal resolvida em nosso meio, embora não encontrássemos razão para a distância que havia entre nós três. Penso que fosse pela falta de um toque feminino em casa. Acho que papai também pensava a mesma coisa, porque, em uma noite, quando cheguei da marcenaria, ele estava sentado à mesa com uma mulher esguia de cabelos castanhos lisos, mais parecia uma moça, talvez minha irmã, do que sua nova mulher.

Não tive reação alguma. Calei-me diante do semblante de mamãe que reclamava seu lugar. Não pude reagir à fantasia de meu pai em viver um novo amor. Entrei em meu quarto, desejando que a noite atropelasse o dia, e o dia a noite, até que essa idéia já não mais me atormentasse, passando para a conformidade.

Nesses dias, as coisas mudaram em casa. Papai parecia ter rejuvenescido, tinha o mesmo carisma de outrora. O Euclides desfez de toda sua carência, já nem se metia tanto em seus livros, deleitava-se da meiguice de nossa madrasta. Eu, o que sentia, era estranhamento. Levei vários meses para ter coragem de olhar nos olhos da Carolina. Não me parecia correto uma moça ocupar o lugar de mamãe, porém, os meus, sucumbiram aos seus olhos que flamejavam sua graça de mulher.

Feito a neblina que se espalha, também se espalhara nossa morbidez. Vez ou outra, ficávamos em casa rondando histórias deliciosas do dia a dia, e, cada vez mais, Carolina ganhava o centro de nossas atenções. Dói dizer, mas às vezes passava-me pela cabeça que papai só poderia ser o rufião daquela mulher, porque havia algo de alegórico nela. Ele e o Euclides não percebiam, às vezes nem eu, mas a flertava involuntariamente, sob o domínio de um magnetismo, só desfeito após meu rubor total.

Fui avançando a inconsciência, dei-me conta de que já não fazia as horas-extras na marcenaria, e nem era mais o primeiro a chegar ao serviço pela manhã. Meu gozo era folhar os projetos que pegava no trabalho, ou deixá-los espalhado pela casa, só para exibir minha suposta habilidade para ela. Por este tempo, raro me pegava o remorso, já me encontrava dominado pela ilusão que modifica a história.

Mas a Carolina já se transformara em um hábito, quando, em uma manhã, após papai ter saído para o trabalho, e o Euclides ter ido ao campus, prendi-me aos olhos dela. Ao certo nem sei sobre as coisas que me falou, talvez nem tenha falado, apenas me lembro de ter-me arrebatado, como se estivéssemos em algum lugar inventado, onde não havia limites entre o sonho e a razão, e fosse possível a luxúria ascender a moral, e substituir minha história.

Nada me permitiria o abandono àquele êxtase que muitas vezes mais forte era que o amor pelo meu pai. Não encontro, aqui, engenho para explicar a estranha força que aniquilara minha consciência e me tornara capaz de qualquer ação pelo desejo, ainda que alhures a realidade viesse me tomar.

Permiti-me transbordar, até que não restasse nenhum naco de perversão, e no vazio, retomei meu velho caminho, não sei se satisfeito, mas saí para a marcenaria naquela manhã, deixando Carolina à espera de papai, duvidoso de ser capaz de encarar qualquer um deles com os mesmos olhos inocentes, porque teria em mim, enquanto viver, a sensação do amor imperfeito e desleal transformado em estrado para minha consciência que amadurecia sob o calor da máxima de papai.
Alexandre Modos Neto
Enviado por Alexandre Modos Neto em 01/07/2005
Código do texto: T29893
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Sobre o autor
Alexandre Modos Neto
Cornélio Procópio - Paraná - Brasil, 44 anos
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