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A DIALÉTICA DA CAIXA

                   "Tu já tens Doroteu, ouvido histórias
                   que podem comover o triste pranto
                   os secos olhos dos cruéis Ulisses.
                   Agora, Doroteu, enxuga os olhos,
                                ...
                   Infeliz, Doroteu, de quem habita
                   Conquistas do seu dono tão remotas!
                   Aqui o povo geme e os seus gemidos
                   não podem, Doroteu, chegar ao trono.
                   E se chegam, sucede quase sempre
                   o mesmo que sucede nas tormentas,
                   Aonde o leve barco se soçobra
                   Aonde a grande nau resiste ao vento."(1)

    Depois de dois dias inteiros a rodar por estradas incrivelmente  ruins; depois de ver pelo para-brisa desfilar paisagens que se modificam; de pastos desertos de gado e de gente, de campos de sojas, verdes, simétricos e perfilados, de cinzas queimadas nas matas nativas, horríveis chagas das batalhas de fogo e sangue empreendida pela  civilização contra a natureza; cenários doloridos n'alma, mas cujo resultado se aprecia e comove; chego a mais longinqüa cidade da fronteira agricola do norte matogrossense.
    No cartório, instalado no centro comercial, requeiro as certidões de praxe e aguardo no balcão.
    Volto minha atenção para rua.
    Chão de terra vermelha, pessoas transitando, em movimentos entrelaçados, dir-se-ia desnorteados, cães, muitos cães, vadios a perambular sarnentos, lixo, muito lixo e sacos plásticos acumulados aqui e acolá, lojas e lanchonetes populares, anunciando produtos de gosto e procedência duvidosa.
    Faroeste cabloco.
    Sinais de riqueza e de pobreza por todo lado, destacadamente no trânsito caótico. Vans, motocicletas, bicicletas, carroças e carrinhos de tração animal, carros e camionetes, de trabalho, de passeio e de luxo; estes últimos, ostentação e aparência necessária para se impor ao menor e ao mais fraco.
    Alma nacional.
    Imensas carretas, luzindo de novas, carregadas de grãos: milho e  soja.
    Retorno o meu olhar ao cartório, às prateleiras atulhadas de papéis: processos, alvarás, leis, regimentos, regulamentos, escrituras, contratos, procurações, guias, livros e documentos de todos tipos e espécies.
    Exigências da burocracia, a "cabeça pensante".
    Lembram as caixas que durante o período colonial, acondicionavam as ordenações do reino, e atravessavam léguas e léguas marítimas, para moldar a américa aos padrões ultramarinhos.
    É a persistente presença do Estado, sufocador e burocrático, se sobrepondo, estranho, alheio e distante da sociedade que, alguns metros, ali fora, se desenrola, se modifica e se consolida em litígios constantes.
    Estas caixas, disciplinadamente ordenadas, guardam espadas que amputam a tudo e a todos que tentarem ao seu domínio.
    Mas, neste reino distante, que  recebe notícias da civilização através de caixas eletrônicas, televisão e internet, há um mundo novo, de outros padrões e valores, a se criar pelos seus moradores, segundo suas necessidades.
    No entanto, quem decide, pensa, regulamenta, e finca  esta papelada nestas caixas, está confortavelmente instalado a milhares de quilômetros, na segurança da sala com ar condicionado, ricamente decorada e servida pelos bedéis dos cafezinhos.
    Incoerência.
    O resultado é que, neste distante rincão, a nação não é uma criação consciente das pessoas organizadas em sociedade, mas uma imposição da administração para gerir um governo em benefício próprio, alheio às necessidades do povo que, lá fora, luta pela sobrevivência.(2)

    Esta dialética, no entanto, é afastada dos meus pensamentos com a chegada do homem dos olhos secos.
 
                  . . . . . . . . .

    Sua figura se impunha.
    Não por sua postura ou presença, que era vulgar.
    Mas por algo que trazia em si e no semblante.
    Era um homem baixo, magro, jovem ainda, roupas decrépitas, sujas da terra vermelha que lhe recobria o corpo, rugas no rosto, no peito aberto e nos braços, e uma secura nos olhos impressionante, como se houvesse, nesta minúscula parte do seu ser, o resumo de uma vida de sofrimento.
    Parecia alguém que já vimos todos, em gravuras ou estátuas, moldadas por artistas de talento.
    Trazia suspenso nos braços, como uma bandeja carregada por finos cristais, uma singela caixa de papelão.
    Uma dessas caixas comuns, utilizadas para acondicionarem latas de óleo, (de soja, talvez!), e que depois se descarta nos lixos dos mercados.
    Estava firmemente amarrada por barbante grosseiro.
    Parado ali na porta, ele examinou o ambiente e depois perguntou se o local era o cartório.
    Entrou e pousou, cuidadoso, a caixa no balcão.
    Esperou com as mãos enlaçadas, como se orasse.
   
    Aguardou muito tempo.
    Tentaram ignorar a sua presença.
    Atendido, tirou do bolso um papel que trazia dobrado.
    Um formulário longo e branco.
    Experiente, identifiquei um atestado de óbito.
    O funcionário explicou a ele que, como se tratava de "nati-morto", era necessário antes fazer a certidão de nascimento e, depois, registrar a morte.
    Se compreendeu, não deu sinal.
    Esperou silencioso.

    ____ Tem duas testemunhas?
    ____ Testemunhas de quê?
    ____ Pegue qualquer uma aqui na sala, ou alí, na calçada!
    Era ilógico, ele não tinha testemunha sequer de sua existência, quanto mais do nascimento do filho morto.
    Ele volveu os olhos secos para mim e assenti.
    Na rua encontrou mais alguém.

    Era a lei no lugar do fato, o formalismo escondendo a realidade.

    Depois de intermináveis assinaturas, o funcionário perguntou se podia pagar.
    O homem respondeu que não.
    O funcionário ia reclamar, demonstrou no semblante contrariedade,  mas a impressionante figura e o silêncio  do homem dos olhos secos calou-lhe o protesto.

    ____ Vai ter que levar estes papéis todos ao cemitério. Na prefeitura vão lhe arrumar um caixão.
    O homem mantinha as mãos sobre a caixa de papelão.
    Demonstrou mais uma vez não compreender.
    ____ Vai precisar de um caixão para o sepultamento. Lá na prefeitura vão lhe arrumar um.
    ____ Já estive lá, não tem caixão algum. Deram-me esta caixa de papelão.

    Agora, quem não compreendeu fomos nós.
    O homem acariciou a caixa.
    ____ Meu filho está aqui. É assim que vou enterrá-lo.
    Dobrou os documentos e colocou no bolso.
    Pegou a caixa por baixo, como quem carrega uma carga muito preciosa.
    Saiu e na calçada aguardou a passagem de alguns caminhões carregados de cereais para alimentar o mundo.
    Solitário desapareceu na poeira vermelha.
    Rumo ao cemitério, para enterrar o nosso futuro.

                  . . . . . . . . . . .
                 
                  "Fiquemos, Doroteu, aqui, por ora,
                 Pois, de tanto escrever, a mão já cansa.
                 Em outra contarei o mais que resta
                 e vi no grão passeio e mais no curro.
                 Aonde as cavalhadas se fizeram,
                 aonde os maus capinhas maltrataram
                 em vez de touros, mansos bois e vacas."(3)

  (1 e 3) Trechos de "Cartas Chilenas", 5a. carta, conjunto de 13 escritas no ano de 1.789, durante a Inconfidência Mineira, por Critilo (Tomáz Antônio Gonzaga) e endereçadas a Doroteu (Cláudio Manoel da Costa).

   Quem desejar conhecer mais, acesse:
 
                 www.hotbook.com.br/cartaschilenas.pdf

   (2) A tese de que a sociedade brasileira está encaixotada há séculos pelo Estado é de Raymundo Faoro, no livro "Os donos do poder", volume I.

                 . . . . . . . . . .

                 10/11/2006 - Obrigado pela leitura.

     
     
   

Sajob
Enviado por Sajob em 23/11/2006
Reeditado em 16/12/2006
Código do texto: T299295
Classificação de conteúdo: seguro

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