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O MELHOR DO MUNDO

- Você nos serve?
Perguntou o Chuiti, erguendo a taça de vinho e fazendo um gesto que ficou no meio do caminho entre brinde, apontar para a travessa  de carneiro com hortelã e perguntar-me o que é que eu estava pensando, dando batidinhas com ela contra a sua testa. Eu estava distraído. Rasgava pedacinhos do  Pão Sírio e os degustava, ora puro, ora com um fio de azeite, ora com a pasta de gergelim temperada. O garçom acabara de servir o prato principal e, como era do nosso costume, retirava-se para que nos servíssemos à vontade. Um dos dois sempre era honrado com a tarefa e, naquela noite, parece que o escolhido fora eu. A Eda acabava de cochichar alguma coisa com a Neide e olhava-me curiosa:
- Volta, Chiquinho! Por onde andas?
Provocou a Eda.
- Hummm? Desculpem-me...
Disse sorrindo, rasgando mais um pedaço do pão, passando um fio de azeite, mastigando demoradamente para arrematar com um gole de vinho, como num ritual.
- Eu estava no fim-da-linha.
Arrematei.
Noutras vezes em que vim sozinho ao Restaurante Árabe, pedia apenas o pão, a pasta de gergelim temperada, azeite extra virgem e uma garrafa de vinho tinto seco. Eles já sabiam que eu gostava do pão bem assado, não seco, evidentemente, mas, de forma que chegasse a apresentar pequenas bolhas tostadinhas pela superfície. O carneiro com hortelã deles era sempre divino; mais a geléia de hortelã com pimenta – oh, delícia! Depois do camarão no bafo, do Peixe Frito, aquele era o nosso prato para enchermos a pança, como diria o meu pai, e contarmos histórias regadas com vinho.
Nossos melhores amigos. Eles já me conheciam o suficiente para saber que, se me provocassem um pouco, viria uma história, normalmente, a primeira da noite, depois viriam outras. A minha história sempre acordava memórias que eles nem se lembravam mais. Momentos impagáveis a companhia deles; o vinho e eu e o mar de lembranças que aflorava na minha mente e eu nem as contava, ficava só ouvindo as belas histórias que eles traziam após a minha.
Depois de um longo gole de vinho, ergui a taça vazia. O Chuiti apressou-se em enche-la. Uma luminária trazia uma luz muito boa da esquerda, ressaltava aos cabelos claros da Neide e prestava-se fazer cintilar o rubi do vinho. Demorei-me examinando-o e, balançando a taça, perguntei:
- O que é o melhor do mundo?
Os olhos azuis da Eda brilharam, pareceu-me que ela teria uma resposta, mas, ninguém atravessaria a deixa. Largando a taça, comecei cortar a carne:
- Quantos bons vinhos já provamos desde os risotos no porão da casa em Passo Fundo? Os presuntos Parma, os queijos. Aquela Vodka Russa que o Fernando encontrou perdida no porão da casa de campo em Carazinho, numa das noites mais frias do ano... Os convidados assistindo novela na sala, ao lado da lareira e nós, mais a Sulcimara e a Betinha, na cozinha assando um pernil no forno do fogão à lenha... Três preciosas garrafas de uma vodka inesquecível! Era ou não era a melhor do mundo? Pode até haver outras tecnicamente consideradas melhores, mas, o momento...
- Quando eu era pequeno...
Continuei. Lembrando-me de uma história nunca esqueci e narrei a eles, não como narro aqui, por conta de que eu só queria abrir o assunto da noite, mas, agora, me evoca detalhes que pensava esquecido:
Morávamos no interior de Santa Catarina e tínhamos uma fazenda que distava 5 Km da cidade. Bem no princípio, não tínhamos carro, apenas cavalos, assim era com a grande maioria das pessoas. A cidade também não era aquilo, hoje, seria pouco mais que uma vila. Energia elétrica havia quando havia... Asfalto não havia, nem era conhecido nosso. Somente a Avenida do Comércio e mais cinco ou seis avenidas, somente até uma certa altura, eram calçadas de paralelepípedos  retirados por cortadores em pedreiras locais. O mais, quando não era poeira vermelha, era lama, lisa que só.
O sábado sempre foi o dia da semana que eu mais gosto, em parte por que era o dia da semana de ir para a fazenda, exceto nas férias. Eu ia na garupa, num peleguinho estendido sobre as ancas da égua, fora do arreio. Naquela ocasião, o pessoal trabalhava fazendo cerca durante a semana inteira, havia muita cerca para fazer. Montanhas de palanques de Tarumã, Grápia, Guajuvira, Aroeira e outros, eram levados de carroça e espalhados ao longo de uma linha imaginária sobre a qual seriam alinhados e marcados com balizas os buracos que seriam abertos com cavadeiras e fincados e socados neles os palanques. Depois, fura-los, passar os fios, estica-los, prende-los com grampos, escolher os mestres, fazer os cantos, esticar os rabichos e todo a história de fazer uma cerca ia se desenhando para trás, subindo e descendo coxilhas, atravessando capões de mato, algum banhado.
Enquanto essa tarefa era realizada próxima da sede, não havia grandes novidades, mas, quando formos para as bandas das pirambeiras, não podíamos nos dar o luxo de virmos almoçar na sede, pois perderíamos muito tempo. Então, o negócio era enganarmos o estomago com algum arroz de carreteiro, lingüiças assadas e pão, preparados nalguma sombra de árvore, perto de alguma aguada; para beber, vinho caseiro num garrafão de vidro grosso e verde todo forrado por uma cesta de palha de milho. Normalmente não sobrava nada para comer na meia-tarde e, se eu não levasse uma merenda: duas fatias de pão caseiro recheadas com geléia de uva e fatias de queijo, ficava na saudade até às 8 ou 9 horas da noite que era a hora de chegarmos em casa. Era muito mais demorado subir os morros e pegar a estrada para casa que simplesmente sair da sede até em casa.
O final daquela jornada estava chegando, só faltava atravessarmos um pedaço de mata úmida, quase no rio, e fim da história. Prevíamos terminar a  cerca da divisa naquele sábado, descendo entre pedras e capoeiras até chegar na beira do rio; um meio dia de serviço, calculávamos. Não deu. O almoço foi o lanche da manhã: pão e salame que o pai levara e a minha magra merenda.
Os homens dividiram e comeram o que tinha e voltaram para o trabalho. Eu ficava zanzando pelo mato, procurando por nascentes, adorava aquele clima em meio às grandes árvores, o canto das cigarras, os pássaros que raramente via. Terminaram a tarefa era umas 4 da tarde ou mais. Lá embaixo, carroça não descia, os palanque haviam sido levados nas costas desde cima do morro: eram largados no correr da cerca, quando se enroscavam nalguma pedra ou cipó, eu descia, mais sentado que em pé, para fazer com que continuassem escorregando descida abaixo. Os cavalos foram deixados num pasto perto de numa casa que ficava num platô, bem abaixo da meia encosta, quase na divisa. O dono da casa daria água para eles até na hora da nossa volta. Uma estradinha pedregosa e antiga nos trouxera até ali, desde a estrada principal. Dali para baixo, até na ponta da cerca, seguiríamos a pé, uns duzentos metros, talvez.
- Aqui é o fim-da-linha!
Revelou-me o pai ao chegarmos na casa,  ainda com o orvalho da manhã.
Ao final da jornada, enquanto eles encilhavam os cavalos, já dava para sentir o frescor da montanha. Há muito que o Sol não batia mais na encosta e a fome já cavoucara as minhas tripas até nas costelas. O dono da casa fez sinal para os homens se achegarem a uma sombra onde havia dois bancos de madeira. Trazia numa das mãos um chimarrão recém feito e uma chaleira de ferro na outra. Eu olhava para tudo o que fosse galho de árvore, parei em baixo de um pessegueiro, mas, o danado era só folha. Eu comeria até casca de Limão Rosa, se houvesse um por perto. Três crianças estavam em pé à porta da casa e u’a mulher varria o pátio com uma vassoura de galhos, todos descalços, gente muito simples. Pedi um copo d’água. Era um rancho a casa, chão batido, sem forro, janelas de madeira que fechavam buracos mais ou menos quadrados nas paredes barreadas, dava para ver bem um cômodo só, sala-cozinha, com um fogão de barro que ficava sobre quatro pés de madeira, dentro de uma espécie de caixa de taboas. Sem porta, uma grande chapa de ferro, encaixada nas laterais de pequenas paredes forradas de tijolos e barro, ficava em cima do buraco onde estavam três tições acesos. Uma mesa de taboas de Pinheiro sem pintura e duas cadeiras de palha, iguais as que estavam do lado de fora, no centro da sala. Lá dentro havia mais uma porta fechada por uma cortina de pano verde com estampas miúdas em branco que lembravam flores de laranjeira, devia ser lá o quarto. A água estava num filtro de barro sobre num aparador que ficava ao lado do que deveria ser a pia da cozinha; uma mesa com uma bacia de alumínio em cima e um balde d’água em baixo. Bebi logo dois copos para ver se tirava a broca do estômago e voltei para perto do pai que me aconselhou a ir brincar com as crianças.
Atrás da casa, só chão batido, pedras grandes afloradas no solo e Tico-Ticos saltitando atrás de alguma sementinha de capim; uma casinha coberta de palha que servia também de banheiro deixava ver um gancho que segurava um chuveiro de latão pendurado numa corda. Mais para o fundo do carreiro começava a roça; pés de abóbora, milho, uma pequena horta. Mas, havia, bem antes disso tudo, entre a casa e o tanque de lavar roupa, um forno de barro solenemente instalado sobre uma plataforma de madeira, coberto por um telhado feito de tabuinha de pinheiro lascadas. Estava com a porta fechada e lacrada com barro. Um monte de brasas ainda fumegava no chão, em baixo dele, e a vassoura de Fumeiro-Brabo estava encostada ao lado dele, toda sapecada. Havia pão lá dentro. Dava para sentir o cheiro deles. Lembrei-me mil vezes das fornadas de pão lá de casa que eram postas para assar, calculei o tempo entre o fazer o pão, esperar crescer, por no forno, assar... Se a coisa funcionasse igual em casa, já estaria na hora de abrir o forno. E estava. A mulher se aproximara com uma cesta de vime na mão, bateu o barro seco da porta e abriu o forno. O cheiro encheu ao ar da montanha. Eram apenas três pães e não tão grandes quanto os da minha mãe. Tinham uma cor creme, quase branca e tinham formado bordas para fora das formas de lata, ali eram um pouco mais tostados. Segurando-os com um pano branco, bateu daqui, bateu dali e eles se desprenderam das formas; cobertos pelo mesmo pano, foram levados para a mesa da cozinha. Bem na hora em que o pai me chamava para iniciarmos o caminho de volta.
Já estava ao lado do pai quando ouvi a senhora pedir a ele que tomasse mais um mate até que pudesse servir um pedaço de pão às crianças.
Assim, ainda quente, chegou até as minhas mãos, trazido pelas mãos da menina magrela e sorridente um pedaço de pão cujo sabor eu procuro até hoje em todo o pedaço de pão que provo. Talvez não tivesse ovos, nem açúcar, nem todo o sal e a farinha fosse de segunda, meio escurecida; talvez tivesse um pouco de banha de porco... Casquinha dura, a borda tostadinha era divina, divino era aquele pão. Pode haver de melhor por aí, mas, para mim, aquele ainda é o melhor do mundo.
Contei essa história no tempo de servi-los e todos estavam beliscando o Pão Sírio. De fato, um pouco pela cor, outro pouco pelo sabor, havia nele alguma coisa que me transportava ao outro pão, confessei a eles.
- O Pão-do-Fim-da-Linha.
Complementou a Eda.
- Pensando bem, meus amigos.
Disse.
- O fim-da-linha é aqui. Tanto aquele caminho começava lá para vir à cidade e se espalhar pelo mundo, bem como, foram aquelas as minhas primeiras lições de vida, meus primeiros aprendizados de solidariedade e grandeza humana. Não são, por tanto, o fim, mas, o princípio da minha linha.
Entre outros melhores do mundo que apareceram naquela mesa, naquela noite, estavam a ambrosia da avó da Eda, as compotas da avó da Neide, uns doces japoneses que a avó do Chuiti fazia, os pirulitos açucarados do Seu Manoel Preto, os doces de cidra da minha mãe e tantas outras coisas.
Uma coisa que não contei a eles é que, não muitos dias depois, apareceram lá em casa o casal e as três crianças. Iriam ao Posto de Saúde. Almoçaram conosco e retornaria no final da tarde. A mãe nos servira o lanche da tarde e todos sairiam de barriga cheia, mas, eu coloquei numa sacola de pano o pão mais bonito que tínhamos na despensa, um vidro de geléia de uva, salames e um queijo e fiz questão de dá-los à menininha magrela dizendo que os comessem depois de brincarem à tarde.
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 26/11/2006
Código do texto: T301542

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 58 anos
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