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                                         A MUDANÇA

         Mudamos da rua da Matriz para novos endereços. O comércio e eu continuávamos vizinhos. Ele ocupando as ruas 26 de agosto, Padre Viana, Dr. João Pessoa e Manoel Alves de Moura e as travessas São Sebastião e José Tavares e eu na Av. Santos Dumont bem em frente a ele. 

        O comércio já não tinha a forma de quadrado e suas casas comerciais eram amplas e modernas. Guardo até hoje, na minha memória, a lembrança de todas elas mas cito no momento, apenas as que mais me marcaram: a mercearia de Zezo Rufino na esquina da rua 26 de agosto onde funciona a Casa Seleta, a casa São José, no local do prédio atual da Jussara, a Farmácia Santana, no mesmo endereço e a Cearense onde são instaladas no momento a Finni e a Farmácia Santa Terezinha. 

       No final da rua 26 de agosto onde temos atualmente o Banco do Brasil ficava o açougue novo, bem ao lado do Armazém do meu pai, prédio que hoje pertence ao Sr. Valter Moura (esquina com a Heráclito Alves). 

       Naquela época, meu pai era comerciante do ramo de armazém e representante local da SANBRA (Multinacional Argentina Industrializadora de algodão). Ele transportava a matéria-prima para Serra Talhada, no Pernambuco, onde construiu um grande ciclo de amizade. 

       A nova casa era confortável. Tinha piso de mosaico, louça sanitária, quartos amplos e ventilados com camas “patente”, para meninos e meninas, separados, quarto de casal, de hóspede, dependência de empregada, diversas salas bem mobiliadas, cozinha, despensa a área de serviço.
No muro havia muitas fruteiras, como: laranjeiras, goiabeiras, parreira, serigüela e Romã. No jardim, além das roseiras, tínhamos papoulas, dedal de ouro, cravos, onze horas, boas noite, crotes e trepadeiras. 

         Na minha nova rua havia também uma praça. Ela ficava bem no centro da Av. Santos Dumont, hoje Av. Antonio Denguinho de Santana. Começava em frente à casa do Sr. Dionísio Rocha de Lucena, prefeito que a construiu parcialmente e mais tarde a denominou e terminava na rodagem, tendo à esquerda o Hotel de Amália e à direita a bomba de gasolina do Sr. Neco Jacinto. A nova praça era calçada de mosaicos, dividida em canteiros bem ornamentados e tinha os bancos de mármore.
 
         De início, eu sentia muitas saudades dos meus vizinhos anteriores, apesar de ter feito novas amizades e de ter bem próximo a nós as casas dos tios Vicente e Expedito, na mesma rua e a de tio Senhor na rua José Matias Sampaio (antiga Santa Terezinha). 

        Como na outra rua, brincávamos na praça, enquanto os casais passeavam ou namoravam. Até hoje me lembro dos casais Vicentinho e Jacira e Amadeu e Lourdes Celião sentados nos bancos, em frente à casa do Sr. João Camilo. 

        Entre os novos vizinhos tantos me eram simpáticos que se torna difícil não menciona-los.
Como era bom brincar na casa do Sr. Manoel Simplício, com sua neta Mariínha, escalando as alturas para pegar amendoim no sótão. E as malinações na casa e no quintal do Sr. João Camilo? Eram deveras medonhas! Quantas reinações! Mas a noitinha nos comportávamos como anjinhos, para ouvi-lo contando as histórias do povo de Deus e as estórias de trancoso. Como na casa de Tio Euclides eu rezava com a família dele, o terço, ajoelhada diante do oratório. Com suas filhas, brincávamos de bonecas aprendendo a costurar roupinhas e fazendo guisados, no beco que ficava entre os muros dele e o nosso. Por aquele local, desciam, nos dias de chuva, as águas que vinham da rua da Prefeitura e do Terreno de Tio Senhor. Elas formavam um lago em frente as nossas casas e aos poucos iam escorrendo pela rua 26 de agosto, na direção do açougue, desembocando nas roças, onde hoje é a rua João Lucena. 

          Brincávamos também atrás dos muros. Ali havia o campo de futebol onde meus irmãos Iderval e Erivaldo jogavam as peladas com seus amigos, inclusive com o vovô Inácio (apelido de Geraldo Zabulon). No local onde seria mais tarde construído o Cine Alvorada, entre o muro do Sr. Tobias e a Prefeitura; bem próximo ao chafariz, havia um pé de coronha. Colhíamos os seus frutos, umas espécies de vagens, que eram usados como cola para sustentação dos carretéis secos de linha aos nossos calcanhares, formando assim saltos de sapatos, quando então brincávamos de moça de fora. 

         Vestidas a rigor, calçadas de saltos altos, éramos as moças do Crato que visitavam o Brejo.
E ali se desenrolavam as conversações com um linguajar bem regional.
-Quem é aquela “Meriman”?
-Sei lá, nunca vi aquela bilé.
-Olha, como ela é paba!!!
-“Só no Crato uma dessa”.
-Olha a presepada daquela outra!
-Só quer ser as “pregas de Quelé”.
As meninas mais crescidas se agrupavam na esquina do Sr. Irineu para tricotar. Elas aprendiam com Eunice (Nicinha de Seu Irineu) a fazer sapatinhos, luvas e casaquinhos de lã para recém-nascidos.
Cada esquina, cada rua, tem uma história ... elas fazem parte da minha vida.
Éramos felizes na nova rua; mas de repente tivemos que fazer uma nova mudança: desta vez fomos para Itaguajé no Paraná.
marineusa
Enviado por marineusa em 26/11/2006
Reeditado em 29/11/2006
Código do texto: T301897

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Sobre a autora
marineusa
Brejo Santo - Ceará - Brasil, 71 anos
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