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Barriga d´Água

      Piolho. Assim era chamado.

      Sentado na terra amarela, em frente ao barraco despedaçado em que vivia, acompanhava o sol secar seus anos. Nascido sob as mãos velozes de D. Chica, parteira da vila, veio ao mundo sem chorar. Não conhecia a vida longe do sertão cearense. Água limpa, televisão e fast food desencadeariam um derrame social em sua rotina árida.

      Acordava cedo com o canto da avó e, após beijar-lhe a bochecha enrugada, sentava-se no chão morno. Se pudesse escrever um livro, Piolho discorreria sobre o calor e a seca. Embora não soubesse nem rabiscar o próprio apelido, sentia os raios malignos na pele juvenil e  a garganta colada. Mesmo imóvel percebia o suor ensopar sua testa. Achava que somente os calangos aprovavam a temperatura infernal, pelo modo alegre como meditavam sobre as pedras em brasa.

      - Por que não nasci um deles?

      Não ousaria perguntar alto pois seria estapeado pela avó, que o obrigaria a agradecer as pernas e braços, saudavelmente acoplados ao tronco minúsculo.

      - Deus te livre, menino! Deus te livre!

      Mas de que lhe adiantava a locomoção se os olhos não enxergavam nada além de terra? Riscar a caroçuda sola do pé nas pastilhas de barro seco? Nem pensar. Já se considerava distante o bastante pra fugir sem destino.

      Algumas vezes divertia-se com o ronco engasgado do velho magricela do barraco da frente. Chegava, até mesmo, a copiar a coreografia do coitado, chamando a atenção da avó para o barulho nojento da tragada de catarro.

      - Pára com essa nojeira, menino!

      Piolho não respondia, mas parava. Não havia conhecido os pais, nem mesmo por foto. A avó, mesmo com o cheiro amanhecido que tanto o nauseava, representava seu último elo familiar. “Vou tirar você daqui, vovó”, costumava dizer baixinho, mesmo que não conhecesse outro lugar fora do sertão e soubesse que envelheceria naquele chão.

      Riscava a areia com um graveto, também seco, e vivia a repetição do filme diário. Velho roncando, seca insuportável, calango dourando as escamas no sol, avó falando sozinha, cachorros sarnentos lambendo as feridas, calor sufocante. Todos os ingredientes da aridez infrutífera encenados diariamente na mesma ordem.

      Piolho, que ganhou o apelido por ter mais do que dúvidas na cabeça, consolava-se com a escuridão tímida. O sol, embora insensível, partia pontual. Ao levantar-se do chão sentiu uma tontura, resultado do calor forte e da fragilidade de seus órgãos. Retirou uma colher do bolso e engoliu três bocadas de areia em seguida, sem reclamar.

      Preso na garganta, só o choro.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 26/11/2006
Reeditado em 16/02/2007
Código do texto: T302279

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
232 textos (20872 leituras)
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Felipe Valério