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WILSON

Wilson

 

Wilson é um rapaz em busca de um lugar ao sol. Desde pequeno vive em dificuldades. Seu pai é barbeiro no município da Serra, estado do Espírito Santo. Sua mãe é recepcionista do motel Tropical, localizado as margens da BR 101, no município de Cariacica, também no Espírito Santo.

 

O pai cobra cinco reais por corte e três reais por barba. A mãe ganha atualmente quatrocentos e trinta reais, já incluído o adicional noturno. Wilson está desempregado, aliás, nunca teve um emprego. Já fez alguns bicos como garçom em um cerimonial de Vila Velha, próximo à Vitória-ES.

 

Wilson tem 23 anos. É negro e homossexual. Ele já foi espancado duas vezes por um grupo de rapazes em função de seu andar um pouco afeminado. Ainda assim é muito amigo das meninas do bairro. Uma de suas principais diversões é arrumar uns meninos para elas. Está com a consciência pesada nos últimos tempos, porque duas de suas amigas apareceram grávidas. Os pais, colegas por ele indicados, sumiram do bairro.

 

Wilson conseguiu uns trocados e está fazendo um curso de Gastronomia no SENAC de Vitória. Pretende virar cozinheiro. Os hotéis da Grande Vitória estão cada vez maiores e melhores, o que deve criar novas vagas de trabalho.

 

Durante alguns anos Wilson foi o organizador da quadrilha da Festa de São João de seu bairro, garantindo-lhe certa popularidade. Este fato lhe fez conseguir alguns namoricos, entre os meninos e as meninas do bairro.

 

O pai de Wilson sofre de alcoolismo. A mãe já não o suporta mais, assim como o seu fígado. Já ficou internado quatro vezes no Hospital Dório Silva, apelidado de Açougue. Os filhos acham que a casa é melhor que o hospital. A infecção hospital já lhe atingiu por duas vezes.

 

No motel Tropical, a mãe de Wilson já viu de tudo. Casais normais, homem com homem, mulher com mulher, homens com mulher, mulher com homens, velho com criança, travesti com homem e até homem sozinho. No último caso, ela depois soube que o malandro era o rei dos filmes eróticos. Haja mão, pensou ela.

 

Dois assaltos já ocorreram no Tropical. O segundo deles resultou em uma bala fincada na parede da recepção. Por sorte ninguém se feriu. Resquícios de drogas são facilmente achados nas suítes, mas como tudo neste mercado, nunca ninguém viu ou ouviu nada.

 

Josué é amante da mãe de Wilson, que descobriu tudo, mas mantém segredo. Tem vergonha de contar para o pai. Pediu à mãe que repensasse esta situação. Em resposta recebeu uma estrondosa bronca. Ela lhe disse que o marido é bêbado, já não lhe procura mais e que precisa continuar a vida dela. Só não separaram, pois ambos não têm para onde ir.

 

O irmão de Wilson trabalha como embalador em uma fábrica. O dinheiro da família é curto. O pai gasta na birita. O irmão está guardando o dinheiro para casar. Wilson não contribui com nada. A mãe faz o que pode, inclusive sustenta Josué.

 

A ESCELSA é a concessionária de energia elétrica do Espírito Santo. Por três vezes já descobriu “gatos” na casa de Wilson. Da próxima vez, avisou que irá comunicar tal fato à polícia. A CESAN, concessionária de água, já localizou este felino algumas vezes. Atualmente a água está cortada. Os vizinhos ajudam com baldes, pelo menos para o banheiro e a cozinha.

 

Os agiotas do bairro também são credores da família de Wilson. Já houve até ameaça de morte. Os juros são maiores que nas financeiras, mas não é possível recorrer a elas devido à negativação de todos no SPC e SERASA.

 

A casa de Wilson tem um terraço que ele chama de laje. Já rolou alguns churrascos por lá. À moda americana é claro. Cada convidado leva o que consome. No último, seu pai foi pego tomando o resto das garrafas de cerveja. Engoliu uma barata e foi um Deus nos acuda. Depois riram da estória, mas a nojenta deu trabalho naquela noite.

 

A ausência de dinheiro faz gerar conflitos diários na casa de Wilson. Os palavrões são ouvidos a quilômetros. O pai briga com a mãe. A mãe briga com Wilson. Wilson briga com o irmão, que por sua vez briga com o pai. Parece até corrente.

 

Wilson teve que vender o cachorro que tinha. Dava muita despesa. Também já vendeu alguns móveis da casa para quitar dívidas. A família ficou sem cozinhar por uma semana porque Wilson havia vendido o botijão de gás. Novamente foi aquele alvoroço na casa. Sobraram chineladas, varadas e pedradas para todos os lados.

 

Embora o ano seja repleto de problemas, todos aguardam ansiosos a chegada do Natal. Nunca houve um Natal em que a família não se reunisse. Depois da Cidra é aquela choradeira. Fazem promessas, se abraçam, se beijam e se desculpam. Mas no ano seguinte tudo volta a ser como antes.

 

Há esperança de que após este Natal, as coisas sejam diferentes.

 

O futuro de Wilson é incerto. Não sabe o que poderá acontecer no ano que vem. Falta-lhe qualquer perspectiva. Os dias se arrastam e ele aguarda um sinal divino. Já rezou o suficiente para virar coroinha, ou quem sabe até pastor evangélico.

 

A estória da família de Wilson é muito semelhante a das quase quatro mil famílias que vivem no bairro.

 

Mas tende a melhorar. Será?

 

 

Ricardo Pimentel Barbosa

Vitória-ES

 
Ricardo Pimentel Barbosa
Enviado por Ricardo Pimentel Barbosa em 27/11/2006
Código do texto: T302376

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Sobre o autor
Ricardo Pimentel Barbosa
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 42 anos
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