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O CLONE DE JESUS

E aconteceu. Mas calma, eu explico. Tudo começou num teste realizado por cientistas no Santo Sudário. Um deles, o mais engraçadinho com certeza, conseguiu uma amostra do sangue divino e fez o clone, e isto muito antes de descobrirem a tecnologia da clonagem. Como? Não sei, talvez a qualidade do sangue, ou talvez uma simples falha Divina. E não me venham de novo falar que Deus não erra. Prova inexorável, irrefutável, cabal e indiscutível do fato é o ornitorrinco, um bicho que não sabe se é pato ou lontra, que outra explicação teria o ornitorrinco? Mas antes que um raio me parta, digamos que foi intencional.
Mas com ou sem ornitorrinco, aconteceu. O cientista clonou Jesus, verdade inabalável, dizem ainda que foram doze clones como doze eram os discípulos, mas só conheço a história deste porque nasceu no Rio Grande do Sul, em Passo Fundo, e desta vez sim, legitimamente gaúcho.
Porém não nasceu Jesus, seu nome foi Huédson, não ri não que é verdade. O problema é que filho de Florimena com Teosbaldus é sempre Huédson; sacanagens nos nomes são hereditárias, prova conclusiva disto é que filho de Henrique com Francielli nunca dá Huédson, é sempre Ricardo, Leila, Carlos, Joyce, nunca sacanagem. Mas quando os pais foram sacaneados nos nomes, a vontade de transmitir o legado é quase irresistível. Nasceu Huédson, fazer o que?
Passou uma infância tranqüila, uma ou outra coisa estranha acontecia, mas ninguém sabia que era um milagre, nem ele mesmo, pois tendo nascido longe do consentimento do Senhor, ninguém foi designado para explicar-lhe seus poderes, aos poucos foi descobrindo sua origem por uma provável onisciência hereditária.
O primeiro grande feito seu, foi o dia que, em uma praça com os amigos, transformou um garrafão cheio do melhor vinho colonial gaúcho em água, como disse, ninguém tinha explicado nada do funcionamento dos feitos miraculosos, e aí estavam adolescentes loucos para tomar vinho com um garrafão cheio d’água.
- É um milagre. – gritava extasiado Huédson
- Milagre?! Cê tá loco! Todo nosso dinheiro num garrafão de vinho que vira água e cê chama isto de milagre. Milagre é o cacete, cê vai é apanhar, miserável.
- O gente, calma ai, eu posso explicar...
Não teve tempo para explicações, nem tempo para falar o famoso “tomai e bebei todos vós...” como sempre quis dizer, levou uma surra e foi embora. Depois os amigos o desculparam, raciocinaram melhor e concluíram ser impossível alguém transformar um garrafão de vinho em água, mesmo tendo poderes miraculosos, ninguém faria uma palhaçada desta, ainda mais entre amigos, colocaram a culpa no vendedor. Mas, por via das dúvidas, nunca mais chamaram Huédson para beber com eles, pois nem a bíblia contava direito o motivo de Jesus ter ido para o deserto, se foi só para meditar por vontade própria ou se foi para fugir de trapalhadas como esta.
Mas a história continua e por um tempo Huédson parou com estas coisas de milagres. Porém um dia, jogando videogame na casa de um amigo, transformou os três sanduíches de presunto e queijo, que a mão de seu amigo havia preparado, em trezentos sanduíches de presunto e queijo. Até ai tudo bem, não estava tudo perdido, tudo se perdeu quando descobriram que sumiram das respectivas geladeiras e armários todo o presunto, pão e queijo da quadra inteira, resultando na lógica equação de  três garotos, trezentos sanduíches e  o sumiço dos ingredientes respectivos é igual a cinqüenta vizinhos sedentos de vingança, presunto e queijo.Huédson tentou argumentar:
- Mas foi um milagre.
- Ah é? Então chegou a hora da Via Crucis, espertinho.
Claro, foi só uma surra, dada pelos próprios pais, os dois difamados ladrões nos lados e Huédson no meio, o chefe da gangue. Não foram crucificados que a época não era para tanto, mas receberam castigo muito pior, seus videogames foram vendidos para pagar os pães, presuntos e queijos da vizinhança. O que provocou algumas surras a parte em Huédson dadas por seus amigo. Mas tudo isso é um fato explicável, na bíblia fala que Jesus multiplicou os pães e peixes, mas de onde saíram todos aqueles pães e peixes nunca foi ato compreendido, nem mencionado, como Huédson iria saber, que mesmo em milagres, nada se cria, tudo se transforma, ou se teletransporta como é o caso. Ninguém tinha explicado as regras.
Mas Huédson, muito decepcionado em sua santa jornada, animou-se ao lembrar que Jesus só foi aclamado em Jerusalém, o grande centro da época, e que chegou num burrinho e que foi adorado por todas as gentes. Concluiu, estava no lugar errado. Resolveu, comprou um fusca e foi para Porto Alegre, não por preconceitos contra burrinhos, mas porque o fusca estava mais barato, e menos conservado, diga-se de passagem. Claro, seu fusca não durou todo o caminho, na verdade nem a metade do caminho agüentou e já pediu aposentadoria. E não teve milagre mecânico que desse jeito.
Como nada dizia na bíblia do milagre do teletransporte, tentou na carona mesmo. Apesar de cabeludo e barbudo, conseguiu umas caronas, mas logo era largado no meio do caminho quando contava a história que era clone de Jesus, para aprender a não brincar com as crenças dos outros. Tinha desistido de contar sua história, mas conseguiu carona com uma vã de espíritas que estavam indo para um congresso em Porto Alegre. Diante daquelas maravilhosas histórias onde um era reencarnação de Napoleão, outra de Joana d’Arc, não agüentou, emendou a sua:
- E eu sou clone de Jesus Cristo. – falou rindo, feliz que achara um grupo que lhe entenderia.
Mas não entenderam, levou um soco no olho de Napoleão, um chute nas partes baixas de Joana d’Arc e foi largado no meio do caminho, sobre avisos de não brincar mais com a crença dos outros. Ele também não entendeu nada, porque ela podia ser Joana d’Arc, outro Napoleão e ele não podia ser clone de Jesus Cristo, fato cientificamente explicado ainda. Mas a vida continua, e as caronas também.
Conseguiu carona numa Kombi com representantes tardios do movimento hippie. Mas não iam para Porto Alegre, iam para a praia vender artesanatos, lembro da história de andar sobre as águas e resolveu que iria junto. Resolveu contar sua história, mesmo correndo o perigo de ser bofeteado e largado na estrada de novo. Fato que não aconteceu desta vez, todos acreditaram, ele mesmo não acreditava que encontraria um grupo assim, começou chamá-los de discípulos e todos entraram na onda com muita alegria. Claro que não era pela história que os hippies se fascinaram, suas imaginações estavam centradas no que aquele garoto poderia ter fumado para ficar tão doido e se poderia ter um pouco ainda para eles. Depois de um tempo perceberam que ele não tinha fumado nada e não tinha nada fumável para ninguém, era simplesmente doido mesmo, mas era gente boa, como todo o cabeludo barbudo, pensaram. E Huédson continuou a jornada com seus discípulos.
  Chegando na praia os hippies começaram a montar suas barraquinhas de artesanatos, Huédson até pensou em Jesus e os mercadores no templo, ele quebrando todos as banquetas dos hippies e gritando impropérios, mas eles eram muitos, ele pouco, a surra seria feia, e além do mais, foram os únicos que o compreenderam. Desistiu. Despediu-se, agradeceu os convites para juntar-se a eles, mas explicou que sua missão na terra era outra, e foi caminho ao mar.
Entrou, e tranqüilamente, foi caminhando sobre as águas, o que foi um sucesso extraordinário, todas as pessoas se juntaram nas margens e gritavam elogios, batiam palmas, assovios, alguns até diziam que era o novo David Copperfield. Como ele não sabia de quem se tratava pensou ser reconhecimento de sua divindade, e continuo andando, cada vez mais longe das margens, andando de costas, de frente para seus fãs, extasiado pelo reconhecimento das gentes.
Mas chegou um tubarão, comeu nosso Huédson e acabou com a alegria, seu milagre só repercutiu nos jornais do dia seguinte: Mágico bêbado é devorado por tubarões no litoral sul. Mas novamente foi falha bíblica; Jesus não disse para Pedro: “ande sobre as águas, mas cuidado com os tubarões”. Como ele iria saber que os tubarões não eram cristãos e não ligavam para milagres, não dá para adivinhar tudo nessa vida.
Morreu, coitado, mas calma, foi para o céu, claro.
No céu contou sua história na portaria, São Pedro já foi advertindo: vou deixar você entrar porque seu nome está na lista, mas pare com esta história de clone de Jesus Cristo, tô avisando, se não vou te dar uma surra para você parar com essa mania de brincar com a crença dos outros. Parou, resolveu que só contaria sua história para o Próprio, o Único e Insubstituível Deus, e contaria pessoalmente.
Depois de alguns meses conseguiu encontrar Nosso Senhor, estava numa sala ampla, branca, diante de uma gigantesca tela de plasma com home theather e tudo, jogando futebol com Jesus em um videogame de última geração.
- Senhor? – chamou Huédson.
- Espera um pouco meu filho. – responde o senhor compenetrado na defesa dos ataques de Jesus.
- Senhor? Meu nome é Huédson.
- Como é? – Deus cai na gargalhada – Desculpa filho não deu para agüentar. Mas o que lhe falta aqui no céu?
Huédson contou sua história, Deus atento ouviu. Quando Huédson terminou de contar, Deus chamou o arcanjo Gabriel, um sujeito com cara de alemão, dois metros e dez de altura e cento e vinte quilos aproximadamente, e disse:
- Gabriel, me faz um favor, dá uma surra no Huédson para ele parar com esta mania besta de ficar brincando com a crença dos outros. – e para Jesus – Vê se pode um negócio deste, só comigo mesmo que acontece estas coisas, é o fim do mundo.
E Jesus responde:
- Goooooolllllll, tá lá, Ronaldiiiiinho, camisa dez, golaaaaaço.
- Filha da ... hei, não tava valendo não, hein? Eu não tava prestando atenção. – fala Deus.
- Negativo, e a onisciência onde é que fica? – inquire Jesus.
- Não valeu não... não valeu não. – e num milagre – Olha o placar lá, tá zero à zero, cadê o gol, o juiz anulo.
- Ô ca... ô Pai, cê tá me roubando, pode desfazer essa maracutaia ai, não jogo mais hein? – embravece Jesus.
(EXPLICAÇÃO DOS DIÁLOGOS: Sendo Deus e Jesus muito civilizados, nunca falam palavrões, sempre param no: filho da.. ô  ca..., no máximo, em momentos de grande indignação até a primeira sílaba: mas que mer..., mas mais que isso nunca.)
- Tá bom, tá bom, então vamos começar outra. – cede Deus.
- Beleza! – concorda Jesus.
- Mas o Brasil sou eu. – diz Deus.
- Negativo, hoje é meu dia de jogar com o Brasil. – diz Jesus.
- Não Senhor o Brasil é meu. – fala Deus.
- Vamos jogar X-Man então? – sugere Jesus.
- Beleza.
- Mas o Wolverine é meu. – ambos falam juntos.
- Sem essa Jesus, ontem foi seu dia de jogar com o Wolverine e você sabe disso. – indigna-se Deus.
- Eu sei, mas você pegou a Mysthica e ficou o tempo todo transformado em Wolverine, por isso não valeu. – arremata Jesus.
- Tá bom então. Vamos jogar NBA, eu sou o Chicago Bulls. – fala Deus.
- Tá bom, eu sou os Lakers. Mas fique claro que o Jordan não tá jogando mais. – diz Jesus.
- Mas é claro que tá! – afirma Deus.
- Não tá não, meu Pai, cê tá errado.
- Eu sou Deus, Filho, Eu não erro. – gaba-se Deus.
- Ah é? E como você explica o ornitorrinco? – pede Jesus
- Essa história do ornitorrinco de novo, assim não dá, toda hora: e o ornitorrinco?... e o ornitorrinco?... Haja onipaciência.
Huédson parou com a mania besta de brincar com a religião dos outros, mas ainda argumentava:
- Eu nego tudo, mas que é verdade é...
 

   
 
INFORME CELESTIAL: DEUS, EM TODAS SUAS ONIQUALIFICAÇÕES, INFORMA QUE ESTÁ OUT NO MOMENTO, OCLUSO A PRECES E ORAÇÕES. DEVIDO AO FABULOSO SUCESSO DE VENDAGENS DO ANTIGO E DO NOVO TESTAMENTO, ESTÁ OCUPADO COMPONDO E ESCREVENDO O MODERNÍSSIMO TESTAMENTO, ONDE CONTARÁ, ENTRE OUTRAS HISTÓRIAS, A INÉDITA SAGA DE SEU FILHO MAIS NOVO: JENÉSIO.
NÃO PERCAM NAS MELHORES BANCAS E EXCLUSIVAMENTE NO SITE WWW.DEUSDIARIO.ZIP.NET
Guizzo
Enviado por Guizzo em 27/11/2006
Reeditado em 05/12/2006
Código do texto: T303356

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Sobre o autor
Guizzo
Santa Helena - Paraná - Brasil, 36 anos
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