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O homem que esqueceu de morrer

Ele era esquecido demais, ninguém acredita. O seu casamento, os dois anos que foram a vida conjugal, resumia-se um interminável discurso de desculpas. As datas importantes, os recados, os deveres, os compromissos esquecidos foram, depois de muita conversa, perdoados, mas dizer que esqueceu-se era casado, ao ser pego com uma loira dentro de seu carro, na garagem de seu edifício: foi demais, a gota d’água. Era verdade, mas tem verdade que não dá para acreditar, qualquer outra mentira, pedido de perdão, promessa, drama, choro convulsivo, alusão aos bons momentos vividos poderiam ter sido aceitos, mas uma verdade desta, uma verdade desta não, melhor qualquer mentira razoável.
Vários incidentes causaram transtornos inacreditáveis na sua vida. Tudo bem, o normal é as pessoas terem transtornos por seus erros, mas esquecer que tinha morrido, aí foi demais, aí atrapalhou todo mundo.
  Tudo aconteceu numa sexta à noite, ou foi numa quinta? Bom era à noite, uma chuva fina e contínua caia no asfalto ainda quente de um dia insuportável de verão, ou era à tarde? Na verdade não me lembro se chovia mesmo. Esse negócio de esquecimento é contagioso. Convencionemos então que era noite, sexta feira, e deixamos de lado a chuva. Ou seria melhor ficar com a chuva e deixar de lado a sexta? Bom, seja quando foi, Aconteceu no dia do acontecido, na mesma hora, no mesmo clima, aconteceu e pronto.
  Morreu atropelado, nada mais do que o comum, uma pessoa distraída uma rua movimentada, e pronto: está aí o atropelamento. Seria comum, mas não foi. Ele foi atropelado pelo próprio carro, numa ladeira, estacionou, esqueceu do freio de mão, e pronto: está aí o atropelamento, seria absurdo, mas seria um atropelamento. Mas ainda não, ele estacionou, esqueceu o freio de mão, viu o carro vindo em sua direção, saiu correndo na frente do carro, esqueceu de pular para qualquer lado, viu a loira da garagem, esqueceu porque estava correndo, e agora sim: aí estava o absurdo. O fato de ter se lembrado da loira, e a investigação psicológica de como certas loiras são inesquecíveis em todas as vidas, não vem ao caso; o fato da loira não ter se lembrado dele, e a curiosidade de como podemos ser tão esquecíveis na vida de certas loiras, muito menos. O fato é que ele morreu, e como todos os bons homens, tinha agora uma missão tranqüila: chegar ao céu.
Morreu, notou que tinha morrido, e então desceu do Céu aquela eterna escada envolta em uma tênue névoa de nuvem, já rolante, para o bom atendimento da clientela. Subiu, chegou num enorme hall todo branco e a uma grande fila de pessoas todas de branco. Entrou na fila.
Mas o sistema de checagem estava fora do ar, alguns advogados já advertiam os anjos do limite máximo de trinta minutos em filas, alguns anjos impacientes já começam a mandar as pessoas entrar sem checagem, outros começavam um disputadíssimo jogo de paciência, e entre esses percalços: ele esqueceu o que estava fazendo ali, saiu da fila, foi para a escada rolante, tropeçou, rolou, e quando deu por si estava dentro de um caixão, numa funerária, com um chumaço de algodão em cada narina e meio tonto. Aquele lugar lhe parecia de certa forma familiar, mas claro não se lembrava do que se tratava, levantou, não viu ninguém, foi embora, agora com um terno bonito pelo menos, mas ainda com dois chumaços de algodão no nariz.
A moça da funerária, inesperadamente aquela loira, entrou na sala e fez o esperado: gritou histericamente. Imaginou o óbvio: furtaram o morto. Nunca passaria pela sua cabeça, uma moça tão acostumada com esses negócios de morte, que seria isso um desaforo por parte do defunto. E agora? O que fazer?
Poderiam continuar todos os preparativos normalmente, só sem o falecido. Mas não daria certo, chegariam os amigos no velório e...
- Meus sinceros pêsames, um rapaz tão novo, toda a vida pela frente, onde ele está? Gostaria de me despedir.
- Não veio.
- Como assim?
- Sabe como é vida de empresário, né? Muitos compromissos, reuniões, mas ele prometeu que no seu próximo enterro viria, sem faltas.
 Não dava, um defunto que não vai ao próprio enterro é muita falta de consideração com a família e com os amigos, pega mal. Poderiam então fazer um velório com caixão selado, muitos ferimentos, sabem como é? Mas também não dava. E se o ladrão notasse que seu objeto de ilícito não tinha nenhum valor comercial e devolvesse o presunto, como explicar as autoridades?
- Eu sei seu delegado, isso nunca nos aconteceu antes também, mas o senhor entende, não é? Tanta coisa para lembrar, velas, flores, caixão, candelabros, roupas, e o rapaz acabou esquecendo o presunto atrás do balcão, achamos ele hoje e pensamos por bem que ele deveria ser colocado dentro do caixão que está enterrado na linda cripta que fizemos para ele, e o senhor notou que beleza de construção, se o senhor precisar é com grande alegria que... é... alegria não, digo...
Ele não entenderia, e além do mais com que respeito ficaria o estabelecimento: uma funerária que esquece os mortos atrás de um balcão, seria a falência.
- Foi pro céu de corpo e tudo.
- Que?
- Parece-me que foi uma decisão tomada em reunião das autoridades divinas e o prefeito, os cemitérios estão ocupando muito espaço na cidade, era inevitável, até estranho nunca terem pensado nisso antes, mas eu acho que foi uma inteligentíssima medida, o senhor não acha?
- Bom, na verdade estava na hora de um projeto decente nesta cidade, uma pena que nosso governo federal não tenha as mesmas atitudes. E quem vai pro inferno como é que fica?
- Eles estão tentando marcar uma reunião com o Excelentíssimo Diabo, mas ele é um capeta de difícil acesso, sua assessoria sempre diz que ele está ocupado em alguma maldade qualquer e está com a agenda cheia. O Diabo tem demonstrado uma grande falta de consideração conosco, afinal de contas, alguns de nós vamos para lá e ele deveria se preocupar com uma possível reeleição, ou até mesmo um golpe de estado, você não acha?
Não acharia nunca. O prefeito com certeza não desmentiria o fato, até falaria que tinha conversado com o Próprio Deus e feito com que ele concordasse com vários projetos de longo prazo para a cidade, mas como era longo prazo, claro, necessitaria novamente da confiança da população nas próximas eleições, e devido ter provado ser um homem com grandes influências políticas neste mundo e no outro, tinha certeza deste apoio.
Também não tinha jeito, a Igreja, com certeza, argumentaria contrariamente, ao menos a princípio, depois, dependendo da crença ou não da população na história, explicaria o fato pelas escrituras. Mas a oposição não engoliria nunca, na melhor das hipóteses provaria que também tiveram uma reunião com Deus, e que Ele estava insatisfeitíssimo com o atual governo. Não dava, Deus ia acabar caindo em descrédito. E depois, como todos os outros defuntos acabariam não indo de corpo e alma para o céu, a única explicação seria que foram para o inferno, alguém poderia se ofender. E depois, com certeza, o Diabo em pessoa viria desmentir tudo, porque afinal de contas o rei da mentira era ele, e essa loira deixaria sua supremacia em dúvida, seria perigoso para sua vida política, logo cogitariam troca de governo no inferno e cogitariam o nome da loira para o posto.
Estava claro, não havia outra forma, mesmo com o risco de perder o emprego, a loira decidiu contar a verdade, e no final das contas, se necessário, colocaria a culpa no morto que não avisara a entrada do gatuno ou na concorrência que desta vez apelara.
O escândalo foi inevitável: a família ficou inconformada, foi aos jornais dizendo que processaria a funerária. A ex-mulher do defunto, também, foi aos jornais, discorreu longuíssimo discurso contra a imoralidade de certas mulheres que já não se contentam mais em tomar maridos em vida, até depois de mortos elas continuam a sua destruição incessante de lares. A funerária também foi aos jornais exigindo do governo que tomasse medidas contra a falta de segurança e o descaso das autoridades na cidade, argumentando ser um direito constitucional do cidadão um funeral descente, e de corpo presente. O governo se sentiu acuado, policiais de todos os cantos do país foram deslocados para a região e iniciaram as buscas ao defunto.
Aí foi a gota d’água para os ladrões> Já estavam indignados por serem motivo de chacota pelo acontecido, e agora, com tanta polícia na cidade estavam à beira da ruína, alguns até pensavam em um trabalho honesto. Decidiram pela medida mais sensata, elegeram um representante e foram aos jornais, negaram a autoria do fato, ameaçaram processar a funerária pela calúnia, e prontificaram-se a formar uma equipe a fim de ajudar a polícia nas buscas ao morto, e, além do mais, entrariam em greve até um pedido de desculpas público pela agressão ao pundonor marginal.
Porém, o que pareceu uma maravilha para a população, foi uma desgraça para os colunistas de páginas policiais, autoridades de segurança, seguradoras, vendedores de alarmes e afins; e para o prefeito então, foi uma tragédia, pois como também fazia parte do grupo, teria que aderir a greve, e com as eleições chegando, não teria como arrecadar fundos para sua reeleição. Logo convenceram o recém fundado Sindicado dos Ladrões a trocarem as desculpas públicas pelo afastamento dos policiais de fora e facilitação de fuga nas cadeias.
Porém, com este alvoroço todo, o destaque da cidade foi inacreditável, jornalistas de todo os lugares vinham à cidade para fazerem matérias de um defunto que faltara ao seu enterro. Ninguém estava mais preocupado com culpados, o destaque foi internacional. O prefeito jurava que era amigo íntimo do morto, e que este lhe confidenciara que seu último sonho era ver seu amigo eleito novamente. O padre da cidade confirmou a história do prefeito e completou dizendo que o último sonho do excelentíssimo defunto, que Deus o tenha, na verdade eram dois, o primeiro da reeleição, mas o maior deles: ver todos os habitantes de sua cidade convertidos ao catolicismo. A oposição e o pastor se indignaram, foram aos jornais, mas não tinha mais jeito, todos na cidade sabiam que o defunto era católico, e com o dinheiro que o prefeito deu a família do morto, sua história também foi confirmada. Não teve jeito, foram embora derrotados.
A cidade tornou-se o destino preferido de todos os turistas do país, e de muitos de várias partes do mundo; o comércio estava em êxtase; os habitantes da cidade davam entrevistas para todos os canais; ao lado da igreja foi construída uma basílica com o nome de um tal santo protetor dos defuntos desaparecidos; o prefeito, reeleitíssimo, decretou que todo o ano seria celebrado um enterro simbólico do queridíssimo morto; o padre tornou-se, em pouco tempo, cardeal, e sua candidatura para o papado estava garantida, nada mais justo para o conselheiro espiritual de um homem santíssimo como o defunto; a família ganhou status de realeza; a ex-mulher virou apresentadora de tv; a loira, também, na emissora concorrente, dizem que com mais audiência inclusive.
O defunto? Dizem que depois de uns dois anos apareceu de novo na cidade, mas não deu outra, mais do que rápido deram um sumiço nele de novo.

INFORME CELESTIAL: DEUS, EM TODAS SUAS ONIQUALIFICAÇÕES, INFORMA QUE ESTÁ OUT NO MOMENTO, OCLUSO A PRECES E ORAÇÕES. DEVIDO AO FABULOSO SUCESSO DE VENDAGENS DO ANTIGO E DO NOVO TESTAMENTO, ESTÁ OCUPADO COMPONDO E ESCREVENDO O MODERNÍSSIMO TESTAMENTO, ONDE CONTARÁ, ENTRE OUTRAS HISTÓRIAS, A INÉDITA SAGA DE SEU FILHO MAIS NOVO: JENÉSIO.
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Guizzo
Enviado por Guizzo em 30/11/2006
Reeditado em 05/12/2006
Código do texto: T305310

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Sobre o autor
Guizzo
Santa Helena - Paraná - Brasil, 36 anos
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