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Farinha de alcova

Farinha de alcova



O silvo da campainha silenciou o tik-trin-tik-trin... das máquinas, os operários picaram os cartões e alguns organizaram seus armários. Quando Siciliano respirou o ar puro da rua, o sol, daqueles dias curtos de junho, já perdia o viço no horizonte, precipitando a noite que chegava mansa e quieta. Abotoou o casaco e curvou o dorso sobre as plantas dos pés que, revezavam-se afoitos no asfalto, na direção calculada.
Siciliano pretendia livrar-se do frio com uma boa dose de aguardente na venda do Bidu, e poder chegar em casa desembaraçado e convincente, porque era véspera de feriado com um quê fantasioso, sobre suas intimidades com dona Cecília. Tinha encasquetado com isso, depois que ouviu a história sobre um fulano, um tal de Geraldo, que perdeu a mulher para o Luís da padaria. Falavam que enquanto ele jogava bocha, o Luís deixava os pães e ia cuidar da pobrezinha, Cecília .
No curto caminho, ele preferiu não falar com ninguém, só pensava na esposa, no Luís padeiro, e em uma boa dose de cachaça: aquele merda do Luís que se meta comigo, ou com a Cecília, eu... Suas fantasias eram de lembranças desusadas entre os dois, por isso pensou na cachaça. Embalado, chegou rapidinho na venda, não desperdiçou mais que dois minutos no curto caminho, e já foi logo pedindo que enchesse seu copo. Bebeu, comeu amendoim torrado e conversou com os companheiros que partilhavam o gosto de liberdade.
Siciliano não descuidou do tempo, tinha o pensamento em dona Cecília; beijos, flores e gentilezas lhe pareciam perfeitos para encantar a mulher: aquele raio de conversa na fábrica está incomodando. Tinha a necessidade de chegar cedo em casa, e gracejar com naturalidade: Ela se agradará com essas coisas, é até fogosa. Siciliano encorajava-se meio ébrio, meio excitado, com as lembranças dos tempos intensos. Estava decido a renunciar o bocha, e dedicar o feriado inteiro a ela, gastaria até o último centavo nesse dia: último centavo. Lembrou-se da conta atrasada ali na venda, e o Luís padeiro cresceu feito um mostro sobre ele: que droga, preciso negociar com o Bidu.
O homem já sentia uma zonzeira quando decidiu encarar o vendeiro e ir para casa. Dona Cecília poderia não aprovar um estado de embriaguez, e facilitar as coisas para o padeiro: Bidu, bota na conta. ¾ Que conta Siciliano? Você disse que pagaria semana passada. Preciso amortizar meu aluguel. Siciliano tinha o dinheiro para quitar as despesas, mas não iria sobrar nada para gastar com sua esposa. A cobrança em público o mortificou, mas não menos que a lembrança da mulher que, andava zangada com suas preferências domingueiras, deixando-a sozinha enquanto ia jogar bocha no chalé do Duílio, igual ao tal do Jorge. Mas o vendeiro, com a testa apertada pelas sobrancelhas, desengasgava as razões da cobrança, severamente mais imediatas do que as de Siciliano.
A amizade dos dois estava por oitenta reais, com as relações comerciais encerradas até que o operário saldasse a dívida. Enquanto isso o burburinho crescia na venda entre os companheiros que tomavam seu partido, piorando ainda mais o descontrole do vendeiro que se justificava em voz de súplica: o negócio vai mal, vou ser despejado. Nestas alturas, de Siciliano, nada se ouvia. Estava estático, apoiado sobre o cotovelo esquerdo, escorado no balcão, com os olhos tesos em algum ponto da parede: ah! Os olhos de Cecília, ébrios de amor ausente, passivos, rasos de renúncias, lindos, lindos. Afinal, mulher também precisa divertir-se. Que tem haver a felicidade de um casal com as contas de um vendeiro?
Ninguém esperava que Siciliano fosse capaz de fazer uma besteira por conta de sua paciência, quieto e sem malícia, levou a mão ao bolso da calça, causando um silêncio mortífero nos presentes, e o descontrole em Bidu, que só não arriou sobre as pernas porque viu a mão do homem emergir do bolso com um rolinho torcido de dinheiro, entregando-lhe o ditador que os subjugavam.
No caminho para casa, o operário falava sozinho, praguejava o Bidu, desafiava o Luís padeiro, e sentiu raiva de dona Cida, porque as mulheres eram exigentes: não ligo para frescura. Parou frente sua casa, viu a luz do quarto aceso e não entrou, não sabia mais como cortejar a mulher. Estava amuado porque o Bidu havia desmanchado seus planos.  Siciliano virou nos pés e entrou em outra vendinha, gastou os cinco reais que lhe restavam no bolso. Comprou um chocolate: doce de luxo, a Cecília gosta. Na fábrica não falaram nada sobre o padeiro dar chocolate para a mulher do Jorge, isso lhe dera certa vantagem. Depois se encheu de cachaça com o crediário concedido no balcão.
O feriado passou-lhe como a noite, e às tardes de domingo no bocha do Duílio. Dos planos que fizera para sua mulher, mal executara um: passou toda manhã do feriado em casa, mas inconsciente, na cama, pelo excesso de cachaça. Só falou com dona Cecília quando ela o ajudou levantar-se, por volta das duas da tarde: deixa mulher, não estou doente. Depois a deixou só, comendo o chocolate, e foi para o bocha, levando sua frustração. Pretendia tropeçar em alguma possibilidade de livrar-se da frigidez que o reduzia diante de si mesmo. Deu voltas e voltas em torno de seus demônios. Já fazia pelos menos quatro horas que saíra do bocha, quando chegou frente sua casa. Viu a luz do quarto aceso, virou nos pés, entrou na vendinha e tomou só uma dose, o suficiente para matar o tempo, até que se apagasse a luz do quarto.
No dia seguinte, Siciliano saiu para a fábrica mais cedo do que o habitual. Deixou a Cecília dormindo de bruços, com as cochas e parte das costas expostas, sob o cobertor que ocultava as nádegas viçosas sobre cama. Preferiu sair com esta lembrança, por deixar-lhe mais à vontade com suas obrigações conjugais. Era como se ele quisesse o amor sem a ação de possui-lo, e só na fábrica, na venda ou no bocha do Duílio, longe dela, que ele se sentia soberano, seu possuidor absoluto.
Siciliano já não era mais o mesmo, achava-se irritado, esquivava-se sem reservas para não ouvir os companheiros falando do Luís padeiro: esse miserável é só distração de borboletas. Idiota feito o Jorge tem aos montes. Avolumava-se em seu interior o desejo de correr para casa, tomar Cecília nos braços e, da vassalagem terminar na suserania. Mas era operário, tinha vícios na venda e no bocha, e os companheiros não paravam de contar as histórias do padeiro.
Quando o silvo da campainha cessou o tik-trin-tik-trin... das máquinas, Siciliano saía da tesouraria, com uma parte do salário do mês seguinte nas mãos. Picou o cartão, abotoou o casaco, e afundou-se no lusco-fusco de junho, sem ouvir ou falar com os companheiros. Ia com o nariz delgado feito proa, em direção ao bocha do Duílio. Acertou suas contas atrasadas e nem relou nas esferas, saindo aprumado para a vendinha, onde havia recém adquirido crédito. Também pagou o que ali já tinha gastado, e pediu um litro de vinho, depois o trocou por uma garrafa de champanha: Cecília não aprecia vinho, gosta de champanha.
Antes de sair da vendinha, Siciliano parou já próximo ao umbral, depois andou até a calçada na rua, olhou o cruzeiro do sul, pensou por alguns instantes e voltou. Pediu ao vendeiro que lhe trouxesse um pacote de farinha de trigo, e um refrigerante para matar o tempo, ainda pediu para que fizesse um ramalhete de flores vermelhas. Pouco mais de uma hora depois, seu pedido estava em mãos. Ele pagou ao vendeiro e saiu em direção de sua casa, com o ramalhete na mão direita e o pacote de farinha com o champanha na esquerda.
Frente sua casa, podia-se ouvir a respiração cansada de Siciliano, que olhava para a luz acesa em seu quarto. O operário balançou a cabeça e disse para si mesmo, beijos, flores e gentilezas, abrindo o portão, a porta, cruzou a sala, virou a tranca do quarto e deu de vistas com Cecília, linda, linda, de cabelos soltos balançando na corrente de ar frio que entrava pela fresta da janela semi-aberta. Siciliano a possuiu com jactância, seguro e pouco tímido: beijos, flores, gentilezas, bebida e pão, será sempre minha, mesmo que seja preciso trazer-lhe a farinha para que não se esqueça disso.

 




     


Alexandre Modos Neto
Enviado por Alexandre Modos Neto em 01/08/2005
Código do texto: T39490
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Sobre o autor
Alexandre Modos Neto
Cornélio Procópio - Paraná - Brasil, 44 anos
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