Natais (Saartjie Baartman)
Jorge Luiz da Silva Alves




     Papai Noel jamais existira para Jurema, nem nos melhores dias de sua vida, nem em dezembro, janeiro, julho ou quaisquer que fossem os meses festivos do calendário ocidental cristão ou pagão. Cozinheira de mão cheia, aprendera a culinária com o mesmo amor percebido por sua família, mãe, tias, avós e bisavós; mergulhara na transformação de frutos da terra e todo tipo de caça terrestre-aérea-marinha não por sustento mas porque adorava o ofício. Não conhecera seu pai e, sinceramente, não tinha a menor curiosidade em sabê-lo, pois desde a tenra idade vira uma miríade de poltrões freqüentando o leito materno brandindo prepotências penianas e achando-se reis dum imaginário castelo.  Aliás, a ala masculina da família arredou o pé de sua vida tão logo perceberam que sua bela mãe de olhos castanho-claros e cor de canela, embora inteligente e bem resolvida profissionalmente, possuía um descaso aquariano para convenções sociais, protocolos e cotidianos, confundido liberdades e iniciativa com bandalheira e permissividade. Bandearam-se do sul de Minas Gerais na ânsia de fugir do tradicionalismo cafeeiro das famílias imaginando ser a antiga Guanabara a terra das oportunidades democráticas. Talvez, se chegassem um pouco antes: duas semanas depois de instaladas no Méier, os tanques foram para rua, junto com a Marcha da Família com Deus Pela Liberdade. E algumas das simpáticas vizinhas com indefectíveis saias-de-pregas e cabelos armados, de hora para outra, viram-se armadas em censuras e jocosidades para com mãe e filha.
      E enquanto a mamãe se desdobrava em subempregos (mesmo formada em Direito, ela não conseguia boa colocação no mundo militécnico dos generais de fancaria, juízes cruéis da maternidade-solo), Jurema lutava contra os estigmas; o mais recente versara sobre a impossibilidade de uma mulatinha desgarrada da socialidade ser tão inteligente assim, do nada, o que colaborou para uma série de isolamentos pedagógicos naqueles tempos de testas-de-ferro. Foi uma dureza conseguir o diploma do Ginásio, do Científico e do Magistério, cercada por tantas razias de professoras despeitadas e preconceituosas, mas vencera e acontecera. No início dos oitenta, encarara a sua primeira sala de aula e a sua primeira grande guerra, num país que privilegiava muito mais o tecnicismo do que o academicismo; mas muitos foram os frutos que vingaram de seus desbravadores galhos, forjados em raiz forte, sábia e teimosa: aos poucos, o mesmo liberalismo materno preenchia a sua índole, obrigando aos alunos o saboroso exercício do raciocínio, do questionamento. Até que o pai de um dos seus alunos, autarca local de rabo preso com ministérios portáteis, cismara com um dever de casa que enlevava a figuras satânicas de Lamarca e Marighella, e fora ter conversa mais séria com diretora do colégio: Jurema virara ‘persona non grata’ na rede pública do estado ainda não-colegiado politicamente. Encerrava, assim, o futuro da mulatinha na Licenciatura.
       Mamãe de Jurema vinha perdendo a batalha contra a artrite e uma progressiva senilidade, o que obrigara a bela mulata de olhos claros a usar seus maravilhosos dotes culinários pessoais como arma secundária contra a insolvência financeira. Nos anos noventa parara com as explicações de português e literatura para mergulhar fundo nos temperos e misturas que faziam a alegria da nova geração daquele trecho do Méier, antes respeitável mas agora um antro de cinzentas transações sociais. O que não impedia da casa das mineiras ser a mais freqüentada por quem adorava uma comida bem preparada: a exceção virara regra, e Jurema – que jamais esperara por Papais Noéis ou Príncipes Encantados para ajudá-las a atravessar a floresta da vida -  era a professora da culinária local, motivo de orgulho e inveja, respeitada pela firmeza de suas mãos poderosas em fornos e grelhas. Com tamanho status, precisara de auxiliares: entre eles, viera-lhe o rapagão catarinense que só entendia mesmo era de churrasco e do Grêmio Portalegrense. E de sinceros e sedutores elogios, tão diretos que pareciam dribles do Portaluppi na sua vulnerável defesa flamenguista. Numa noite de carências e cansaços, abrira sua voluptosa defesa para o ataque enérgico do churrasqueiro. E mesmo não querendo, de forma alguma, ouvir o sino pequenino em sua manjedoura, mostrara-se a Serva daquele Senhor, fazendo-lhe a Vontade, contra todos os seus Verbos.
     Jurema jamais crera em Papais Noéis. Fugira de Príncipes como o diabo da cruz. Sempre tomara o que quisera da vida e pagara o seu alto preço. Mas a Vida costuma ser teatralmente convincente; após a partida de Mamãe para o indefinível, o rapagão, antes sedutor e prestimoso auxiliar virara autêntico feitor, vociferando impropérios, esculachando suas origens e bolinando as ajudantes. Caíra em sua própria retórica sobre individualidades e pragmatismos. Por pouco caíra também no conto da natividade, ao sentir as costumeiras náuseas conceptivas. E quase fora morta a pancada quando o rapagão descobrira sua ida secreta ao ‘doutor caveirinha’: descobrira ser princesa para oportuna gravidez mas era um monstro quando dissertava sobre ser dona de seu corpo... Ainda viva, Jurema reunira forças, aguentara mais aquela década sem se esquecer dos natais em que, ao lado da mãe, escapavam diariamente de reproduzir a trajetória da famosa Vênus Hotentote(*), conseguira zerar as poupanças que mantivera milagrosamente em seu nome, preparara uma beberagem para o rapagão-feitor dormir interminavelmente e, graças ao Google Earth, partira para um destino onde pudesse recomeçar uma nova existência, de preferência em outro idioma, outros costumes, outros climas bem mais amenos, e sob uma nova identidade.
      Jurema – que jamais acreditara em Natais, Papais Noéis, incensos e falsos ouros, enveredara-se no mundo, riscara céus com o poderoso lume de sua personalidade, feito uma reluzente estrela, anunciando sua eterna crença na felicidade. Ainda que soe como um cântico de Natal.     

          
(*)http://pt.wikipedia.org/wiki/Saartjie_Baartman

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Jorge Luiz da Silva Alves
Enviado por Jorge Luiz da Silva Alves em 24/12/2013
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