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Granada aleatória

Achou fácil a sala da aula de Introdução a Filosofia. A situação era totalmente nova e inesperada, mas sempre se sentia prepadado para a novidade, estando ou não. Não gostava de surpresas, mas numa cena dessas em que tudo é desconhecido não existem surpresas.
 Enquanto ia se sentar na última carteira da primeira fila não deixou de pensar no \"Nível de beleza feminina\" da sala. Não por natureza, mas por hábito.
 - Fraco.
 O professor não chegou, poucas distrações e o tempo não para. \"Ficar na sala ou não ficar?\" Não ficou; foi procurar um lugar tranquilo e seguro para fumar um baseado. Nada contra a paciência, mas ela não deixa de ser perda de tempo. Queria conhecer pessoas, finalmente parecia de fato se conhecer e queria testar sua credibilidade consigo mesmo. \"Pura vaidade. Mas é uma vontade natural e vou agir da maneira certa, da minha maneira.\" Que seja. A sombra de uma árvore afastada e desconhecia já elevava a situação a quase perfeita. Podia ver estudantes passando ao longe e não se via o ar negro da autoridade em lugar algum.
 A situação ia ficando mais leve a medida que a fumaça ia saindo da sua boca. Sentia-se expandindo, mas alheio ao resto do mundo. Ao mesmo tempo que alheio, podia se conectar a qualquer parte da totalidade que ele não estava nem aí. Se bastava para sentir o que quisesse. Mais uma vez, se tocou do nada que é tudo e acendeu um cigarro. Lembrou do \"eu não estou nem aqui\" e riu sozinho. \"Nunca mais vou levantar daqui\".
 Enquanto eu ia dizer o quanto a paisagem era simplesmente medíocre, surtou.
 - Não acredito...
 Mas era verdade. A menina de cabelos longos e negros como o infinito, olhos verdes como essa lapiseira, loucamente, absurdamente, do nada, estava ali. Se o nome dela fosse Bianca o Destino teria comprovação e ele se mataria de desgosto. Bom, ela estava vindo e nessas circunstâncias só podia estar vindo fumar um. Ela se aproximou e olhares se cruzaram. Sorrisos, é claro: sei que você sabe, então \"porque você não fuma aqui, coloco alguma coisa também\"...
 - Senta aí, vamos fumar um.
 Assim mesmo, natural, na boa e foi aceito.
 - Qual seu nome?
 - Alexandre. E o seu, Bianca?
 - Não, por que Bianca?
 - Por nada, só um chute. Se não é esse, qual é então?
 - Ana.
 Bonito nome, sempre disse. Estudava direito, morava ali mesmo no campus também e tinha a vida feita. Pais ricos e ausentes, pobre menina rica mas cheia de segurança e disposta a devoção. Estive lá, na cabeça dela, sou o narrador onisciente. Ela nunca deu valor a nada (no fundo) e pensava assim tão radicalmente que deu certo. O mundo, mais especificamente esse mundo, virara acessório. Mas o cara era legal e o fumo era bom. \"E ele me chamou de Bianca...\" Não. Viagem do narrador. A conversa acabou com essa proposta (dele):
 - Não tenho amigos, nem você. Nem queremos. Mas porque a gente não se faz compania? Não precisamos nos conhecer. Nem isso precisa ser um compromisso.
 - Fechado. Mas saiba que eu sou um pouco bem mais difícil que isso.
 Depois de dizer isso, ela virou bem a tempo de ver por um brevíssimo instante a granada lançada contra os dois e que nunca saberiam quem jogou.
Thiago Baraúna
Enviado por Thiago Baraúna em 05/09/2005
Código do texto: T47752
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Sobre o autor
Thiago Baraúna
Fortaleza - Ceará - Brasil, 31 anos
2 textos (79 leituras)
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Thiago Baraúna