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                                   Meros Administradores 


            Certa vez ocorreu numa região um temporal com chuva de granizo que devastou grande parte da plantação atingindo de maneira especial as lavouras de café, causando um enorme prejuízo aos sitiantes, tendo que desempregarem vários de seus funcionários. Atingiu de forma mais intensa os pequenos proprietários de terra sendo obrigados a venderem seus sítios, provocando um êxodo rural e lágrimas de várias famílias. 

            Aquele acontecimento ficou na boca da população que procurava encontrar respostas por tanta desgraça. Inconformados, uns questionavam Deus, outros o inocentavam e assim, as discussões entre as pessoas eram intensas. Certo dia, estava visitando um cliente de supermercado, Sr. Paulo, onde falávamos sobre aquela tragédia (a chuva de pedra), quando de repente entra um outro senhor, aparentando cinqüenta anos, cabelos grisalhos e com um semblante extremamente tranqüilo, de voz compassada. João era seu nome, por sinal também trabalhava com vendas. A partir daquele momento o Sr. João entrou também no assunto. Paulo disse a João:
 
            – João, vê como são as coisas! Há tantos fazendeiros que têm milhares pés de cafés e, no entanto, nada lhes aconteceu, nenhum pé de café foi atingido pelo granizo, enquanto que, tantos outros pequenos sitiantes que viviam daquela lavoura perderam tudo. Porque será que isto acontece?

            João com muita tranqüilidade, abriu a discussão apenas com uma pergunta:

            – Quem somos? E assim continuou. Na verdade, somos apenas meros administradores de tudo que existe; apenas isso. Se de repente cairmos numa estrada deserta ninguém nos socorrer, morreremos ali mesmo, e se ninguém nos encontrar, permaneceremos até que nosso corpo se decomponha. Faz uma pausa e novamente continua: não somos nada e, desta forma, não devemos nos apegar as coisas terrenas, e refletir mais em nossos questionamentos.
 

            Naquele momento me calei e percebi que, Paulo sem muito entender, começa a questioná-lo.

            – Explique? Não estou entendendo, porque você diz que estou replicando com meu questionamento?
 

            João, com toda sua tranqüilidade, começa a desenvolver sua resposta.
 

– Cada um de nós é administrador e tem capacidade segundo nossas limitações. Por exemplo, você tem este supermercado, acredita que seria capaz de administrar um hipermercado com cem, duzentos ou centenas de empregados? Paulo ficou calado e João continuou: para cada um Deus dá a capacidade para determinada administração: A uns, Ele concede a possibilidade de serem grandes empreendedores, administrarem grandes empresas, enormes quantidades de terra, gerenciar milhares de empregados e por ai afora... Porém, para outros, serem administradores de pequenas empresas; poucas quantidades de terra, ter poucos ou nenhum empregado. Continuando, voltou a repetir. Todos somos meros administradores, uns de grandes negócios, outros de pequenos. Cada um atuando dentro de uma área. Imagina se não houvesse aquele que recolhe o lixo? Cada vez que falava provocava em mim e no Sr. Paulo um silêncio exclamativo maior. Voltando então ao ocorrido (à chuva de granizo e à destruição das lavouras) comentou: Imagine se o granizo destruísse os cafezais dos grandes fazendeiros? O que ocorreria? Muita gente desempregada, pessoas dispensadas das fazendas, enorme prejuízo no comercio... No entanto, o prejuízo causado aos sitiantes, embora tenha sido desagradável e triste, mesmo havendo tudo que você coloca como o êxodo rural, desemprego, vários transtornos sociais, ainda assim, os males são menores. Para muitos esse episódio serve como estímulo para outras opções de culturas de lavouras, como também para buscarem outros tipos de atividades. Enfim, mesmo com toda a tragédia, o mal ainda é menos trágico. Certamente, as palavras de João levaram-nos a uma profunda reflexão. Tudo contribui para um bem maior e devemos sempre analisar os acontecimento por vários ângulos. Não invejar dos outros e perceber que tudo fica para trás não nos apegando às coisas materiais, pois aqui somos apenas meros administradores nada mais que isso, nada nos pertence. Não somos donos nem de nossa própria vida.
 

Ataíde Lemos
Enviado por Ataíde Lemos em 06/09/2005
Reeditado em 30/12/2009
Código do texto: T48024
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Sobre o autor
Ataíde Lemos
Ouro Fino - Minas Gerais - Brasil, 51 anos
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