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O Motorista

O sol já começava a desaparecer no horizonte, as mãos do Motorista começavam a escorregar no volante, estavam suadas. Ele realmente precisava de uma bebida, para relaxar e descansar o cansaço de 8 horas de viagem direta. Olhou para trás, todos os seus passageiros dormiam o sono dos justos, não tinham o que temer, ou eram insanos demais para ter medo da vida.

Abriu a janela, deixou o vento entrar e secar o suor no rosto. O calor na cabine estava ficando insuportável, mas o ônibus devia ficar na temperatura ambiente para não agitar nenhum dos passageiros. Ar condicionado estava fora de cogitação. O sol poente tinha um brilho sonolento e o Motorista sentiu que de tão cansado e abatido, poderia acabar dormindo ao volante.

Cinco minutos se passaram, e uma onda de alívio percorreu o seu corpo cansado e suado: a placa avisava que estava chegando na terceira parada, aquela de que ele gostava tanto, logo na entrada daquela cidadezinha bucólica. Agora bastava ele se concentrar até chegar lá, seria uma grande burrice fazer algo errado nesse ponto da viagem.

Ainda faltavam mais ou menos trinta minutos, a estrada estava vazia, lisa e agradável. Prendeu mais ou menos o volante entre suas pernas, e inclinou-se para pegar no painel o papel com a sua ordem. Tirou a capa, passou uma página e revisou os termos da transferência dos dezesseis pacientes do hospital psiquiátrico. Todos chapados com todo tipo de calmante disponível. Não seria uma boa idéia mandar dezesseis loucos potencialmente agressivos completamente conscientes em um ônibus normal. Um ônibus especial seria caro demais, e ninguém teria coragem de levá-los um por um. Então contrataram um motorista qualquer para conduzir os pacientes até o outro hospital.

E ele só conseguia pensar em parar, mijar e beber alguma coisa. E no dinheiro que lhe ofereceram pelo transporte da “carga perigosa”. O sol já estava desaparecendo no horizonte quando as luzes da estação rodoviária se mostraram por completo. Era mais ou menos como um oásis em um deserto que parecia não acabar.

Estacionou o ônibus e olhou para os passageiros. Todos dormiam como anjos, e aparentemente não pretendiam acordar tão cedo. Como uma criança que mexe no pote de doces quando os pais não estão olhando, desceu do ônibus em silêncio, foi desabotoando a camisa e respirando um pouco do ar fresco com cheiro de gasolina do lugar.

Entrou no restaurante e sentou-se em frente a um balcão. Deitou a cabeça em cima de seus braços por uns instantes, levantou os olhos até a garçonete, e pediu uma cerveja. Duas, na verdade. A bebida gelada desceu como se fosse uma brisa refrescando sua garganta, levando embora todo o cansaço e incômodo que se acumulara até ali durante a viagem.

- Aquele ônibus é teu? – perguntou um barbudo que sentou-se ao seu lado.

- É sim, coisa boa, por sinal. – respondeu o Motorista.

- Pois é, tá levando excursão?

- Mais ou menos. – disse, rindo.

O outro motorista riu também, por simpatia. A bexiga do Motorista começou a doer.


- Escuta, tu vai ficar aqui muito tempo? – perguntou o Motorista.

- Vou sim, meu rabo tá quadrado de tanto tempo na boléia.

- Então, dá uma olhada na minha cerveja enquanto eu dou uma corridinha até o banheiro... tô necessitado, sabe?

- Por um gole eu vigio ela como se fosse meu caminhão. - brincou, apontando para a garrafa.

- Ah, vai fundo. Já volto.

Correu para o banheiro, e mijou como nunca. Sabia que no ônibus os loucos dormiam em paz, sem uma palavra sequer. Como era bom saber que faltava pouco para chegar no hospício, e que tinha um monte de dinheiro lhe esperando.

Fechou o zíper, lavou as mãos e voltou para o balcão. O barbudo estava lá, bebericando um copo de cerveja. O Motorista sentou-se em seu lugar e quando pensou em um assunto para uma conversinha rápida, seu companheiro foi mais rápido e perguntou:

- Pra onde que é essa excursão?

- O quê?

- Essa excursão, a que você tá levando...

- Ah, sabe que eu esqueci? Tá num papel lá no painel. Na verdade não era pra eu ter parado aqui, mas é que bateu uma sede, sabe... e tava todo mundo dormindo...

- Entendo, já aconteceu comigo também. Mas por acaso a excursão não é para essa cidade aqui, não?

- Que cidade?

- Essa, a que a gente tá.

- Não, pra essa aqui eu sei que não é, por quê?

- Hm, nada, é que eu vi os passageiros do teu ônibus saindo com as malas e indo na direção da cidade... até estranhei, tá meio longe ainda. Falando nisso, que gente estranha, hein?

O Motorista ficou branco e estremeceu diante da revelação chocante que seu companheiro lhe fizera. Não queria acreditar que os loucos haviam fugido e que não ganharia mais seu dinheiro. Olhou através das portas largas de vidro e viu um grupo de pessoas caminhando em direção à cidade, não muito distante. Correu para fora do restaurante, pensou em entrar no ônibus e correr atrás dos loucos, mas achou que seria arriscado negociar com dezesseis lunáticos, especialmente se a proposta é de levá-los até o hospício. E além disso, algum deles podia estar no ônibus, esperando alguém para morder e babar em cima.

Tomou coragem, tomou um pedaço de pau que estava jogado no chão e entrou no ônibus, preparado para reagir a algum ataque. Não havia ninguém no interior do veículo, todos haviam fugido. O Motorista não sabia se isso era bom ou ruim, mas de qualquer jeito resolveu voltar ao restaurante e terminar sua cerveja enquanto pensava no que fazer.

Sentou-se no balcão, ao lado do barbudo.

- O que houve? – perguntou seu companheiro.

- Os passageiros cansaram de ficar sentados, foram a pé. Devem ser malucos.

- Com certeza. Agora termina essa cerveja pra mim que eu tenho que ir, amigo. Boa viagem, viu?

- Valeu, pra você também.

O barbudo foi embora e o Motorista ficou sozinho com suas conjecturas. Não sabia o que poderia fazer para se dar bem numa situação como essa. De repente sentou-se ao seu lado um rapaz com uma mochila pesada nas costas.

- Boa noite – disse o jovem, querendo ser cordial.

- Boa noite.

- Teu ônibus é aquele branco ali? – e apontou.

- Sim, é, por quê?

- Poxa, você tem um lugar sobrando? Sabe, tô vindo de longe, caroneiro, saca?

E nesse momento o Motorista teve uma grande idéia.

- Claro, claro. Veio sozinho? – disse, contendo sua empolgação.

- Não, eu e dois amigos. Se importa?

- Não, não! Tenho lugar de sobra. Na verdade eu tô começando a viagem agora, tenho que ir buscar uns passageiros de excursão numa outra cidade, ficaram sem motorista.

- Nossa! Perfeito! A que horas você sai?

- Daqui a uns minutos, vou ver se mais alguém quer carona.

- Tudo bem, vou estar aqui no balcão esperando.

O Motorista se levantou, pagou a conta e começou a ir de mesa em mesa oferecendo caronas para a estrada na direção norte. Arranjou mais dez passageiros, a maior parte mochileiros perdidos. Só faltavam três, mas não havia mais ninguém desesperado e desorientado a ponto de entrar no ônibus de um estranho.

Antes que alguém mudasse de idéia, o Motorista chamou todos os passageiros e levou-os até o ônibus. Então continuou seguindo o seu caminho de antes, com o número de passageiros de antes, faltando apenas três.

Naquele dia o motorista estava com tanta sorte que encontrou na beira da estrada um casal e um rapaz cujo carro havia enguiçado. Ofereceu carona até a próxima cidade, sugeriu que lá encontrariam um mecânico competente, pois era uma cidade moderadamente grande, tinha até um hospital psiquiátrico. Os três aceitaram o favor e entraram no ônibus.

As pessoas pareciam contentes, uns chegariam ao seu destino, outros até um ponto na viagem, todos tinham a lucrar com essa carona. Mas ninguém lucraria tanto quanto o Motorista. Foi dirigindo e rindo de sua própria engenhosidade.

Todos os passageiros dormiam quando o ônibus chegou à cidade. Estavam tão cansados que nem notaram quando o Motorista encostou o veículo na porta do hospital psiquiátrico. Também não acordaram quando ele trancou a porta e desceu do ônibus.

Foi até a recepção do hospital, onde foi atendido por uma mulher sonolenta (era mais ou menos meia noite), e identificou-se como o Motorista que trazia os dezesseis pacientes transferidos. Prontamente desceram uns oito enfermeiros, e o Motorista entregou-lhes a chavinha que trancava a porta de dentro do ônibus. Sentou-se em uma poltrona na recepção, e pegou no sono.

Por ter um sono particularmente pesado, sua consciência permaneceu leve enquanto passavam os enfermeiros arrastando dezesseis pessoas que gritavam histericamente que não eram loucas, e que aquilo era tudo um grande mal entendido. O Motorista só acordou quando um médico de óculos o cutucou com um envelope pesado:

- Olá, aqui está teu dinheiro. Muito bom trabalho! Não sei como você conseguiu manter aqueles loucos calmos. Viu o estado em que estavam quando trouxemos eles para dentro?

- Ah, a estrada tava calma, doutor. Eles nem acordaram durante a viagem. E eu nem acordei enquanto eles passavam aqui com os enfermeiros. Tava tão feio assim?

- Ah, estava sim. Eles são pacientes críticos, sabe? Tsc-tsc. Bom, mas não vou mais tomar teu tempo. Aqui está seu dinheiro. Obrigado pelo seu tempo.

- Que é isso, doutor. Estamos aqui para ajudar.

E depois de um aperto de mão, o Motorista saiu do hospital e entrou em seu veículo. Sentou-se, fechou a porta, abriu o envelope e contou o dinheiro. Estava certo, e tinha inclusive uma gratificação ali no meio. Tudo havia corrido bem, o hospital tinha os dezesseis loucos que queria e o Motorista havia sido bem recompensado.

Deu partida no ônibus, e tomou o caminho de volta para casa. Pelo menos dessa vez poderia ligar o ar condicionado.
Luiz Gabriel da Silva Conforto
Enviado por Luiz Gabriel da Silva Conforto em 07/09/2005
Reeditado em 05/10/2005
Código do texto: T48283
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Sobre o autor
Luiz Gabriel da Silva Conforto
Curitiba - Paraná - Brasil, 28 anos
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